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  • Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    A prata de Camila Rebelo foi o ponto mais alto da participação portuguesa, mas as inúmeras finais, recordes e excelentes classificações demonstraram que a natação nacional atravessa um dos momentos mais promissores da sua história

    Estes Europeus de Natação foram a confirmação de uma geração que começa a afirmar-se de forma consistente entre a elite europeia. A comitiva nacional regressou a casa com apenas uma medalha, mas dificilmente poderia pedir muito mais à maioria dos seus atletas. Entre recordes nacionais, presenças em finais e excelentes classificações, ficou a sensação de que a natação portuguesa continua claramente em crescimento.

    O grande destaque português pertenceu naturalmente a Camila Rebelo. A nadadora conquistou uma brilhante medalha de prata nos 200 metros costas, oferecendo a Portugal o único pódio da competição, e voltou ainda a confirmar a sua enorme consistência ao alcançar outra final europeia, desta vez nos 100 metros costas. Mais do que a medalha, Camila confirmou definitivamente o estatuto de uma das melhores especialistas europeias da disciplina.

    Camila Rebelo foto:FPN

    Se Camila foi a medalha, Francisca Martins foi talvez o maior símbolo da profundidade da equipa portuguesa. A jovem nadadora esteve presente em quatro finais europeias (!) – 200 metros livres, 400 metros livres, 800 metros livres e estafeta de 4×200 metros livres — terminando num extraordinário quarto lugar nos 400 metros livres e com recorde nacional (4.06.93), resultado que confirma a sua afirmação entre a elite continental.

    Também Diogo Ribeiro voltou a demonstrar porque continua a ser um dos maiores talentos da natação portuguesa. O olímpico terminou em quinto lugar nos 50 metros mariposa e estabeleceu um novo recorde nacional dos 50 metros livres, com 21,72 segundos, ficando a apenas uma centésima de segundo do quinto classificado. Uma margem mínima que ilustra bem o equilíbrio do mais alto nível europeu.

    Diogo Ribeiro foto:FPN

    Entre os restantes portugueses, merece igualmente destaque Vasco Morgado, que alcançou as meias-finais dos 200 metros mariposa, continuando a afirmar-se entre os jovens nadadores nacionais com maior potencial.

    Portugal também voltou a mostrar evolução na natação artística. A seleção nacional alcançou um meritório sétimo lugar no Esquema Acrobático, graças à prestação de Daniel Ascenso, Elisabete Fortunato, Joana Rosa, Lara Botelho, Lara Rolo, Maria Fonseca, Marta Abreu e Rodrigo Carvalho, que apresentaram uma rotina consistente e tecnicamente muito exigente, confirmando o crescimento da modalidade.

    A participação portuguesa ficou ainda enriquecida pelos excelentes resultados da seleção paralímpica. Marco Meneses conquistou duas medalhas de bronze, nos 50 e 100 metros livres da classe S11, enquanto Susana Veiga e Diogo Cancela voltaram igualmente a marcar presença nas finais das respetivas categorias (S9 e S8), demonstrando a elevada competitividade da natação adaptada portuguesa.

    Se Portugal apresentou argumentos muito positivos, o panorama internacional ofereceu algumas das melhores histórias do campeonato.

    A italiana Simona Quadarella voltou a demonstrar porque continua a ser uma das grandes referências da natação mundial ao conquistar um extraordinário triplete nos 400, 800 e 1500 metros livres, dominando por completo as provas de fundo.

    Simona Quadarella Photo Courtesy:Giorgio Scala/DeepBlueMedia

    Também David Popovici voltou a fazer história. O fenómeno romeno conquistou pela terceira vez consecutiva a dobradinha dos 100 e 200 metros livres, confirmando-se como um dos maiores especialistas da atualidade nas distâncias de velocidade prolongada, com apenas 21 anos.

    A Hungria foi outra das grandes protagonistas. Kristóf Milák voltou ao mais alto nível ao vencer os 100 metros mariposa, terminando a apenas três centésimos do recorde do mundo, além de contribuir para o ouro da estafeta húngara 4×100 metros livres. O compatriota Hubert Kós brilhou igualmente ao conquistar os títulos dos 200 metros costas, 200 metros estilos e da mesma estafeta.

    Um dos momentos mais emocionantes aconteceu nos 50 metros bruços. A experiente lituana Rūta Meilutytė, recordista mundial da especialidade, derrotou a grande favorita Benedetta Pilato por apenas um centésimo de segundo, demonstrando que continua perfeitamente capaz de competir ao mais alto nível.

    Mesmo limitado por uma lesão no adutor, Léon Marchand voltou a impressionar e a colocar Paris em efervescência. O francês foi obrigado a abdicar de várias provas, mas ainda conquistou os títulos dos 200 metros mariposa e dos 400 metros livres, ajudando igualmente a França a alcançar o bronze na estafeta 4×100 metros estilos.

    Léon Marchand foto: Salomon Micko Benrimoh

    Os Europeus ficaram também marcados por novos talentos. O húngaro Oliver Papai, com apenas 16 anos, deslumbrou nos 400 metros livres conquistando a medalha de prata, enquanto a britânica Amalie Smith, nascida igualmente em 2009, garantiu uma estupenda medalha de prata nos 400 metros estilos. Na mesma disciplina, a irlandesa Ellen Walshe confirmou o favoritismo ao vencer tanto os 200 como os 400 metros estilos.

    Outro dos momentos altos da competição surgiu nos 100 metros costas, onde o grego Apostolos Christou surpreendeu tudo e todos ao derrotar o recordista mundial Thomas Ceccon por apenas um centésimo de segundo, numa das finais mais emocionantes destes campeonatos.

    Os recordes também fizeram parte do espetáculo. A italiana Sara Curtis estabeleceu um novo recorde do mundo dos 50 metros costas, com 26,56 segundos, enquanto o alemão de apenas 19 anos Johannes Liebmann assinou uma das maiores exibições da competição ao vencer os 1500 metros livres em 14.26,79 minutos, melhorando em 13 segundos o seu recorde pessoal e retirando quase quatro segundos ao anterior recorde mundial pertencente a Bobby Finke desde os Jogos Olímpicos de Paris.

    No medalheiro, foi o Reino Unido quem terminou na liderança, graças a mais uma medalha de ouro do que a Itália, apesar de os italianos terem conquistado mais 17 (!) medalhas no total.

    Portugal regressa destes Campeonatos da Europa com apenas uma medalha, mas com muito mais do que isso. Regressa com finais, recordes, jovens em clara ascensão e a certeza de que a natação nacional nunca teve tanta qualidade distribuída por tantas disciplinas diferentes. E, tal como aconteceu no atletismo, talvez esse seja o melhor indicador de que o futuro continua a sorrir ao desporto português.

  • Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

    Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

    Três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e algumas desilusões marcaram uma prestação muito positiva de Portugal nos Campeonatos da Europa de Atletismo. Num Europeu recheado de momentos memoráveis, a seleção nacional voltou a provar que pertence à elite continental

    Findos os Campeonatos da Europa de Atletismo, Portugal regressa a casa com três medalhas, mas também com a sensação de que poderia perfeitamente ter alcançado um resultado ainda mais expressivo.

    A medalha de prata de Pedro Pichardo voltou a confirmar a extraordinária consistência de um dos maiores atletas da história do atletismo português. O campeão olímpico voltou a responder presente num grande palco internacional, mantendo-se como uma das maiores referências do triplo salto mundial, a que só um salto inesperado e igualmente monstruoso (18,15m) do italiano Andy Díaz impediu de que Pichardo se sagrasse novamente campeão europeu.

    Pedro Pichardo Foto: FPA

    Também Fatoumata Diallo (com um fantástico recorde pessoal de 53.55) confirmou a sua enorme evolução ao conquistar a medalha de bronze nos 400 metros barreiras. Um resultado que recompensa anos de crescimento sustentado e que a coloca definitivamente entre as principais especialistas europeias da disciplina.

    Fatoumata Diallo Foto: Julian Finney/Getty images

    Já Patrícia Silva voltou a demonstrar toda a sua inteligência competitiva e capacidade de sofrimento ao conquistar a medalha de bronze nos 1500 metros na recta da meta. Num dos meios-fundos mais exigentes do programa, a portuguesa voltou a responder da melhor forma quando a competição mais o exigia.

    Patrícia Silva Foto: FPA

    Mas o Europeu de Birmingham deixou igualmente algumas desilusões. Poucos esperariam ver Isaac Nader, campeão do mundo dos 1500 metros em 2025, terminar a final na última posição. O português nunca conseguiu entrar verdadeiramente na luta pelas medalhas e pareceu perder intensidade na fase decisiva da corrida quando percebeu que o pódio lhe escapava. Também Salomé Afonso, depois de um percurso muito consistente até à final, acabou por quebrar nos derradeiros metros, terminando longe dos lugares cimeiros.

    Mais ingratos foram ainda os quartos lugares de Gerson Baldé e Agate de Sousa, ambos campeões mundiais de pista coberta em fevereiro. No caso da saltadora portuguesa, fica uma enorme sensação de injustiça. Um dos seus ensaios foi claramente mal medido e a marca oficial de 6,89 metros dificilmente correspondeu ao salto efetuado. Agate (6,96m) terminou a apenas dois centímetros da medalha de bronze e quatro centímetros do ouro (7,00) da italiana Larissa Iapichino, numa situação que inevitavelmente marcou o concurso.

    Entre os muitos motivos de orgulho esteve também Delvis Santos. O velocista português estabeleceu um novo recorde pessoal de 20,23 segundos, qualificou-se para a final dos 200 metros e alcançou um excelente sexto lugar europeu, confirmando o crescimento que tem vindo a evidenciar nas últimas temporadas.

    Delvis Santos Foto: FPA

    Outro dos destaques da participação portuguesa foi Joana Pontes, que alcançou um meritório 10.º lugar na maratona de marcha. A atleta concluiu a prova em 3h41m36s, estabelecendo um novo recorde pessoal e confirmando a evolução que tem vindo a demonstrar numa disciplina cada vez mais competitiva ao mais alto nível.

    Também as estafetas nacionais deixaram excelentes indicadores. Tanto a equipa feminina dos 4×100 metros como a estafeta mista dos 4×100 metros garantiram presença nas respetivas finais, confirmando a evolução coletiva da velocidade portuguesa e demonstrando que Portugal começa igualmente a afirmar-se nas provas por equipas.

    Se Portugal voltou a mostrar a sua força, o panorama europeu ofereceu igualmente momentos absolutamente inesquecíveis.

    Poucas atletas dominaram tanto uma competição como Nadia Battocletti. A italiana conquistou um extraordinária dobradinha nos 5000 e 10000 metros, assumindo-se como uma das grandes figuras destes Campeonatos da Europa. Foi precisamente a Itália quem acabaria por conquistar o medalheiro geral, graças ao triunfo alcançado na derradeira prova do programa, a estafeta masculina dos 4×400 metros, por escassos milésimos de segundo.

    Também a Noruega regressou ao topo. Karsten Warholm voltou à sua melhor versão para conquistar mais um título europeu de forma muito autoritária nos 400 metros barreiras, enquanto Jakob Ingebrigtsen confirmou o regresso à melhor forma ao dominar os 5000 metros com a autoridade habitual, permanecendo invencível nesta distância a nível europeu. A quatrocentista muito jovem Henriette Jæger de apenas 23 anos, foi essencial para que a Noruega ganhasse a estafeta 4×400 mista, e somou o ouro dos 400m individuais com uma recta final estupenda.

    Perante o seu público, Amy Hunt transformou-se numa das grandes estrelas da competição. A velocista britânica conquistou quatro medalhas de ouro — nos 100 metros, 200 metros, estafeta feminina 4×100 metros e estafeta mista 4×100 metros — assinando uma das campanhas individuais mais impressionantes de sempre em Campeonatos da Europa.

    Amy Hunt EPA

    Mas se houve um momento verdadeiramente cinematográfico, esse pertenceu a Gianmarco Tamberi. O italiano chegava a Birmingham vindo de um período de várias lesões, e tendo ultrapassado apenas 2,23 metros durante toda a temporada, mas voltou a provar porque continua a ser um dos atletas mais carismáticos do atletismo mundial. No último ensaio, superou 2,32 metros e conquistou dramaticamente mais um título europeu, perante o olhar incrédulo do ucraniano Oleh Doroshchuk, que cedeu à pressão e não conseguiu superar essa fasquia.

    Também Audrey Werro protagonizou uma das histórias mais bonitas da competição. Depois de ter sido justamente repescada para a final dos 800 metros, devido a uma queda provocada por outra atleta nas meias-finais, a suíça respondeu da melhor forma possível ao derrotar a grande favorita Keely Hodgkinson e conquistar um memorável título europeu.

    Na marcha, María Pérez voltou a confirmar a sua supremacia ao conquistar o ouro com um extraordinário recorde do mundo, enquanto Armand “Mondo” Duplantis fez aquilo que já parece rotina: conquistou mais um título europeu no salto com vara, vencendo com 6,15 metros, sem sequer necessitar de atacar um novo recorde mundial.

    Maria Pérez 2026 Getty Images

    No final, Portugal regressa de Birmingham com três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e a confirmação de uma geração extremamente competitiva. Houve desilusões, houve injustiças e houve oportunidades perdidas, mas houve sobretudo qualidade. E quando um país termina um Campeonato da Europa com a sensação de que podia ter conquistado ainda mais medalhas, talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer ao momento atual do atletismo português. Este Europeu confirmou que Portugal pertence, sem qualquer complexo, à primeira linha do atletismo europeu.

  • Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

    Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

    O FC Porto conquistou a Supertaça. Daqui a alguns anos, ficará apenas registado que venceu mais um troféu. As estatísticas não contam exibições, não registam a qualidade do futebol praticado nem refletem as dúvidas que uma equipa consegue deixar mesmo quando ergue uma taça.

    Mas quem viu os noventa minutos diante do Torreense dificilmente saiu descansado. Porque o resultado foi positivo. A exibição esteve muito longe de o ser.

    Antes de olhar para o FC Porto, importa fazer justiça ao Torreense. A equipa de Torres Vedras realizou uma exibição extraordinária. Em muitos momentos, foi difícil perceber que um dos emblemas pertence à Primeira Liga e o outro milita na Liga Portugal 2. Houve coragem, personalidade, organização e uma enorme capacidade para criar dificuldades a um adversário teoricamente muito superior.

    Aliás, continuo convencido de que, caso tivesse beneficiado de um calendário mais equilibrado antes da segunda mão do play-off frente ao Casa Pia , o Torreense (depois da brilhante conquista da Taça de Portugal) teria hoje lugar entre os principais clubes do futebol português.

    Não perdeu porque lhe faltou ambição. Não foi eficaz em momentos capitais do jogo. Dany Jean foi um quebra-cabeças durante todo o encontro para a equipa portista, é um jogador interessante, mas tem de melhorar imenso na tomada de decisão. Uma menção honrosa ao lateral-esquerdo Javi Vásquez, cujo talento não pode andar perdido pelas divisões secundárias do nosso futebol. A equipa do Oeste (muitíssimo bem trabalhada por Luís Tralhão) perdeu essencialmente porque teve pela frente um dos melhores guarda-redes do mundo.

    Diogo Costa voltou a ser decisivo. Mais uma vez. E talvez isso devesse preocupar os portistas. Porque quando o melhor jogador da equipa é, sistematicamente, o guarda-redes, normalmente existe um problema coletivo que continua por resolver.

    Foto: Victor Sousa/Movephoto

    Os primeiros 10 minutos do FC Porto foram absolutamente inadmissíveis para uma equipa com as suas ambições. Houve dificuldades na saída de bola, erros posicionais, enorme displicência de alguns dos seus jogadores, e uma intranquilidade defensiva que permitiu ao Torreense acreditar desde o primeiro minuto.

    O problema é que estes sinais não são novos. Já tinham aparecido no final da época passada. Na altura, muitos preferiram desvalorizá-los porque os resultados iam aparecendo.

    A história do futebol ensina-nos, contudo, que nem sempre vencer significa que tudo está bem. O melhor exemplo continua a ser a temporada 2012/13.

    O inesquecível golo de Kelvin, aos 92 minutos frente ao Benfica, deu ao FC Porto um campeonato absolutamente épico. Mas também escondeu problemas que a estrutura optou por ignorar. A ideia de que bastava continuar pelo mesmo caminho revelou-se ilusória e os anos seguintes acabaram por confirmar isso mesmo.

    Não pretendo estabelecer um paralelismo absoluto. Mas o futebol tem memória. E, por vezes, os resultados mascaram problemas que acabam inevitavelmente por regressar.

    Será Farioli o homem ideal para uma equipa destes pergaminhos? Um treinador receoso, que tem um modelo de jogo bastante previsível, pouco fiável a longo prazo, e com uma aversão ao jogo ofensivo? Eu considero que não pode ser essa a mentalidade de um treinador de um clube da dimensão do FC Porto, e já o considerava antes de ter sido campeão.

    É precisamente isso que me preocupa neste FC Porto. Continuo sem perceber qual é a verdadeira ideia ofensiva de Francesco Farioli.

    A pressão alta funciona em muitos momentos e continua a ser uma arma importante. Quando a frescura física (natural que não a haja neste início de época) não é a melhor, a equipa passa a suster o seu jogo na solidez defensiva, igualmente ausente num jogo contra uma equipa de valia inferior, mas com uma identidade muito vincada no seu jogo, e extremamente personalizada.

    A circulação é lenta. A criatividade é inexistente (com claro destaque negativo para a exibição muito fraca de Gabri Veiga). Há pouca mobilidade entre linhas. Os movimentos ofensivos repetem-se, apesar de um maior jogo associativo com a presença de André Silva, mas claramente mais talhado para jogar num modelo 4-4-2 dadas as suas características.

    As substituições parecem obedecer mais a um ficheiro de Excel do que ao próprio jogo. Substituir ao minuto 60 tornou-se quase um automatismo, independentemente daquilo que a partida pede.

    Mais difícil ainda de compreender foi ver o FC Porto baixar o bloco durante largos períodos frente a uma equipa da segunda divisão, jogando num inconcebível esquema de 5-3-2. Num clube cuja identidade sempre passou por assumir os jogos, pressionar alto e sufocar os adversários, essa postura parece contradizer a própria história portista.

    E depois há Rodrigo Mora. É impossível ignorar o que está a acontecer. Desde a chegada de Farioli, um dos maiores talentos recentes da formação portista desapareceu praticamente das opções. Um jogador com criatividade, imprevisibilidade e capacidade para desbloquear jogos continua sem espaço numa equipa que revela precisamente enormes dificuldades na construção ofensiva.

    Foto: Miguel Pereira

    Será apenas uma questão física? Será uma opção técnica? Ou simplesmente um jogador que não encaixa nas ideias do treinador? O que motiva este ostracismo de Farioli a um dos filhos da casa?

    Independentemente da resposta, torna-se difícil compreender que um futebolista com aquelas características permaneça praticamente ausente enquanto a equipa revela tanta dificuldade em criar ocasiões de golo. A entrada do sul-coreano Hwang In-beom (um dos reforços para esta temporada) mexeu com o jogo, e poderá ser uma excelente adição para esta equipa portista.

    Foto: FC Porto

    Mas é curto. O FC Porto foi campeão devido a uma fulgurante primeira volta, secundado por um fantástico golpe de asa do presidente André Villas-Boas, num cirúrgico mercado de Inverno onde foi recrutar o experientíssimo defesa-central Thiago Silva (com pouca utilização, mas cujo ADN vencedor ajudou muito uma equipa na qual escasseava esse aspecto).

    Contudo, foram os ingressos do costa-marfinense Seko Fofana e do prodígio polaco Oskar Pietusewski, o motivo principal para que os portistas voltassem a ser campeões nacionais ao fim de 4 anos.

    Também a arbitragem merece referência. A decisão de não recorrer ao VAR num dos lances mais polémicos da partida (possível infração dentro da área de Hwang In-beom sobre um jogador do Torreense já dentro do tempo de descontos), deixa legítimas dúvidas e dificilmente contribui para a credibilização do próprio sistema, tão discutido durante esta última semana, devido às declarações infames provindas de uns áudios de Pedro Proença (presidente da Federação Portuguesa de Futebol e ex-árbitro internacional) sobre o colectivo arbitral.

    O máximo dirigente do futebol nacional já estava sob um grande escrutínio devido à instabilidade no seio da nossa federação, mas afirmações estapafúrdias como: “Opiniões do cidadão Pedro Proença não se confundem com as do presidente”, proferidas no fim do jogo da Supertaça, não ajudam minimamente a baixar este ruído ensurdecedor que está instalado no futebol português.

    Por fim, há outro tema que paira inevitavelmente sobre o Dragão: o futuro de Diogo Costa. A confirmar-se a sua saída, o FC Porto perderá muito mais do que um guarda-redes. Perderá o capitão, uma das vozes do balneário e, um dos melhores guarda-redes do futebol mundial.

    É legítimo que queira dar o salto para um campeonato mais competitivo, mas a SAD terá de encontrar rapidamente uma solução capaz de oferecer garantias, porque substituir um jogador desta dimensão está longe de ser uma tarefa simples.

    A mesma preocupação existe relativamente a Victor Froholdt. O médio dinamarquês tornou-se uma peça absolutamente nuclear para este modelo de jogo de Farioli, sobretudo pela intensidade na pressão e pela capacidade de ligar setores. Perder simultaneamente Diogo Costa e Froholdt seria um golpe enorme para uma equipa que já revela dificuldades em consolidar processos.

    A época ainda agora começou. Há tempo para crescer. Há tempo para melhorar. Mas também há sinais que não podem continuar a ser ignorados.

    Os tímidos assobios que já se ouviram na Supertaça são apenas um aviso. A paciência dos adeptos dificilmente será a mesma da época passada. Porque ganhar continua a ser importante.

    Mas, num clube da dimensão do FC Porto, ganhar também implica convencer. E, neste momento, o FC Porto está muito longe de o conseguir.

  • O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

    O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

    Nem todos os campeões entram para a história. Alguns tornam-se a própria história. Tadej Pogačar pertence a essa raríssima categoria. Ontem, em Paris, o indomável ciclista esloveno deixou definitivamente de correr contra os adversários para passar a correr ao lado dos deuses do ciclismo.

    O quinto Tour de France da carreira não representa apenas mais um triunfo. Representa a entrada definitiva num círculo que parecia reservado à eternidade: Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain.

    Aos 27 anos, o esloveno tornou-se também o mais jovem ciclista da história a alcançar cinco vitórias na maior prova de ciclismo do mundo, um feito que parecia pertencer apenas aos livros de história.

    Tadej Pogacar, Foto: AFP/Loice Venance

    No entanto, olhando para a forma como corre, fica a sensação de que a história ainda está longe de terminar. Porque Pogačar não compete para administrar vantagens. Compete para atacar. Compete para ganhar.

    Compete para oferecer espetáculo até ao último segundo da corrida, como foi provado pelo seu comportamento na última etapa, onde não deixou de tentar sair com mais uma vitória, arriscando em descidas bastante perigosas, sem ter necessidade nenhuma de o fazer, apenas com o intuito de continuar a escrever história e de dar espectáculo aos milhares de espectadores presentes na cidade de Paris.

    Foi precisamente isso que voltou a fazer neste Tour. Dominou a corrida de forma avassaladora, “destroçou” o recorde de Marco Pantani na mítica subida ao Alpe d’Huez (um recorde com mais de 30 anos), venceu quando era preciso vencer e mostrou, uma vez mais, que o seu talento parece não conhecer fronteiras.

    Mas reduzir Pogačar aos números seria cometer uma enorme injustiça.

    Ao longo dos últimos anos, construiu um palmarés absolutamente ímpar. Cinco Tours de France, um Giro d’Italia, dois Campeonatos do Mundo de Estrada, medalhista olímpico, um Campeonato da Europa de Estrada, várias Liège-Bastogne-Liège, Il Lombardia, Tour de Flandres, Strade Bianche, Milan-San Remo, Tirreno-Adriático, Paris-Nice e inúmeras outras provas que fazem dele um dos ciclistas mais completos da história da modalidade.

    Veremos se irá competir na Vuelta, a única Grande Volta que não consta no seu brilhante currículo. A prova começa dentro de 4 semanas, e há muita expectativa para saber se Pogačar estará na linha de partida em Barcelona para poder completar o trio de Grandes Voltas, algo que o seu grande rival Jonas Vingegaard conseguiu há uns meses com a conquista do Giro.

    O primeiro grande resultado de Pogačar foi conquistado na Volta à Espanha, já num longínquo 2019, onde o ciclista esloveno conseguiu um surpreendente, mas fantástico 3º lugar, mas não mais voltou a correr essa prova.

    Pogačar está também próximo de ganhar o único “Monumento” que lhe falta: a Paris-Roubaix, aquela que muitos consideram a prova mais difícil do ciclismo, e que muitos consideravam que alguém com a morfologia do ciclista esloveno, jamais poderia ser competitivo ou aspirar a ganhar essa corrida.

    O que é certo é que o Pogačar não entende de impossíveis, e nas últimas edições esteve bastante perto de cortar a meta em primeiro lugar no velódromo de Roubaix, ficando em segundo lugar perante ciclistas do calibre de Mathieu van der Poel e Wout van Aert. Certamente que no próximo ano, voltará a tentar a sua sorte, e ninguém poderá deixar de o considerar um dos grandes favoritos à conquista dessa lendária prova do ciclismo.

    Mais impressionante ainda é a forma como conquistou tudo isto. Enquanto muitos campeões vencem pela força da estratégia e da contenção, Pogačar fá-lo através da criatividade.

    Ataca quando ninguém espera, acelera onde os outros hesitam, transforma etapas aparentemente previsíveis em autênticos espetáculos e parece divertir-se genuinamente em cima da bicicleta. Corre sempre com um sorriso contagiante, como se nunca tivesse esquecido que, antes de ser campeão, foi um rapaz apaixonado por ciclismo.

    É precisamente por isso que me custa compreender uma ideia que, de tempos a tempos, volta a surgir: a de que Pogačar “arruinou” um desporto tão competitivo como o ciclismo. Na minha perspetiva, aconteceu exatamente o contrário.

    A narrativa de que Pogačar “estragou” o ciclismo nunca fez muito sentido na minha modesta opinião. Um campeão pode tornar uma competição previsível; não a torna menos bela. E, no caso de Pogačar, o seu estilo ofensivo fez precisamente o contrário: devolveu ao ciclismo um espetáculo que muitos sentiam perdido.

    Os grandes campeões nunca diminuíram as suas modalidades: engrandeceram-nas. Michael Jordan não estragou a NBA. Roger Federer não estragou o ténis. Lionel Messi não estragou o futebol. E Tadej Pogačar não estragou o ciclismo.

    O seu domínio, a sua personalidade cativante e o seu estilo ofensivo devolveram ao ciclismo uma capacidade rara de apaixonar quem já era fã e, talvez mais importante, de conquistar quem se tinha afastado da modalidade. Eu próprio sou um desses exemplos.

    Depois do escandaloso caso de doping que envolveu Lance Armstrong, perdi grande parte da ligação emocional ao ciclismo. Durante anos, acompanhei a modalidade com muito menor entusiasmo. Foi Pogačar quem me fez voltar a ganhar esse interesse pela modalidade. Não apenas porque ganha, mas porque me faz sentir que cada etapa pode oferecer algo diferente.

    Esse talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um desportista. Não apenas vencer. Fazer com que mais pessoas queiram voltar a ver o seu desporto.

    E talvez por isso tenham sido ainda mais difíceis de compreender os constantes assobios que o esloveno voltou a receber ao longo desta edição do Tour.

    É inevitável pensar que parte dessa hostilidade nasce da enorme frustração do público francês por continuar sem celebrar um vencedor da sua corrida desde Bernard Hinault, em 1985. Quatro décadas de espera ajudam a explicar um ambiente por vezes pouco acolhedor para quem domina a prova ano após ano.

    Explicar, contudo, não significa justificar. Porque uma coisa é desejar fervorosamente que haja um campeão francês. Outra, muito diferente, é assobiar um atleta que apenas faz aquilo que qualquer desportista sonha fazer: competir melhor do que todos os outros.

    Pogačar nunca desrespeitou o Tour, os adversários ou o público francês. Sempre demonstrou humildade nas vitórias, respeito nas derrotas e uma simpatia que raramente abandona o seu rosto. É um campeão que vence com um sorriso e que continua a tratar os rivais como companheiros de profissão, nunca como inimigos. Este Tour voltou a ser disso exemplo.

    Na luta pela classificação geral, o belga Remco Evenepoel confirmou finalmente a evolução que tantos esperavam, alcançando um excelente segundo lugar e demonstrando que pode, no futuro, voltar a discutir Grandes Voltas até ao fim.

    Logo atrás, surgiu um extraordinário Isaac del Toro, terceiro classificado e fiel escudeiro de Pogačar, numa demonstração de enorme maturidade. O jovem mexicano beneficiou também da confiança e da proteção do próprio Pogačar em momentos decisivos, um sinal da liderança serena que o esloveno exerce dentro da UAE Emirates.

    Ainda mais surpreendente foi o Tour do francês Paul Seixas. Com apenas 19 anos, realizou uma prova memorável, discutiu os primeiros lugares da classificação geral e deixou no ar a sensação de que França poderá finalmente ter encontrado o sucessor que procura há tantos anos.

    Na última semana, o espetáculo teve ainda outro protagonista. Richard Carapaz correu como poucos se atrevem a correr nos dias de hoje. Venceu duas etapas, conquistou a camisola da montanha e lutou praticamente até ao último quilómetro pela possibilidade de conquistar quatro etapas (!) no espaço de pouco mais de uma semana. Num ciclismo cada vez mais calculado, o equatoriano recordou-nos que o espectáculo continua bem vivo.

    Nem tudo foram boas notícias. As quedas de Jonas Vingegaard e Florian Lipowitz retiraram à corrida dois protagonistas que poderiam ter enriquecido ainda mais a luta pela classificação geral. Particularmente no caso do dinamarquês, ficou sempre a sensação de que o grande duelo que todos aguardavam acabou por nunca acontecer, apesar de no momento da queda, já estar a mais de 2 minutos de Tadej Pogačar.

    Também Juan Ayuso esteve muito longe do esperado. Aos 23 anos, deixou a UAE Emirates precisamente para liderar a equipa da Lidl-Trek, e enfrentar Pogačar de igual para igual. Terminou apenas na sétima posição, a mais de 17 minutos do antigo colega de equipa, numa prestação claramente abaixo do enorme potencial que continua a possuir.

    Já a imagem mais arrepiante deste Tour aconteceu na 20.ª etapa. A queda de Sepp Kuss, numa descida enquanto rodava a alta velocidade, fez gelar milhões de espectadores. Apenas as redes de proteção impediram que o norte-americano caísse no vazio, evitando uma tragédia que poderia ter marcado para sempre esta edição da prova.

    Mas, quando o Tour terminou, todas essas histórias acabaram inevitavelmente por convergir para uma só. A de um homem que continua a redefinir aquilo que julgávamos impossível.

    Daqui a muitos anos continuar-se-á a discutir quem foi o maior ciclista de todos os tempos. Os defensores de Merckx apresentarão argumentos irrefutáveis. Os admiradores de Hinault, Indurain ou Anquetil farão o mesmo.

    Mas uma coisa já ninguém poderá negar. Tadej Pogačar conquistou definitivamente o direito de se sentar à mesma mesa. E, para muitos (entre os quais me incluo) talvez já nem se sente ao lado deles. Talvez seja, simplesmente, o homem que pedala um pouco mais à frente.

  • Quem tem medo de salvar o Boavista?

    Quem tem medo de salvar o Boavista?

    O Boavista FC está ligado às máquinas, em paragem cardiorrespiratória, e a verdade tem de ser dita com a frontalidade que o futebol moderno tanto teme. O esforço heroico do Movimento Salvar o Boavista, liderado por adeptos anónimos e figuras como Pedro Pires de Lima, que dão a cara, o corpo e o próprio bolso para juntar 55 mil euros todos os meses, é uma lição de amor ao clube. Mas sejamos realistas: isto é colocar um penso rápido numa hemorragia de 150 milhões de euros. É insustentável. É insuficiente.

    Esta situação é decorrente do investimento feito nas obras para o Europeu 2004 que modernizaram o Bessa. Nessa altura, o Estado, as autarquias, os políticos e as grande empresas que lucraram milhões, todos estavam muito felizes pela realização da competição em Portugal.

    E agora? É revoltante ver um grupo de sócios cumpridores a tentar fazer omeletes sem ovos, enquanto os verdadeiros tubarões financeiros e as entidades competentes olham para o lado. Onde estão os donos do país nesta hora de aflição? Onde estão gigantes como o Grupo Jerónimo Martins, a Galp ou a Sonae da família Azevedo, que faturam milhares de milhões de euros todos os anos no nosso território e fecham os olhos à destruição de uma das maiores instituições desportivas do Norte? Falta coragem económica a quem tem os cofres cheios para perceber que o Boavista não precisa de caridade, precisa de investimento estratégico.

    Estes adeptos e movimentos independentes que lutam diariamente nas ruas e nas redes sociais não têm a capacidade financeira, nem o poder legal que legisladores, o Estado e a Câmara Municipal do Porto detêm. O clube tem património. O Estádio do Bessa vale ouro. Se tivéssemos uma liderança política na autarquia verdadeiramente empenhada na defesa do tecido social da cidade, e não apenas na burocracia, a solução já estava a andar.

    Com a crise e especulação imobiliária que vivemos no país, a salvação do Boavista passa obrigatoriamente por transformar o perímetro do Bessa num mega-complexo urbano multiusos. Estamos a falar de rasgar o atual Plano Diretor Municipal e construir habitações de luxo nas bancadas inacabadas, projetar uma grande clínica médica privada, um hotel corporativo e espaços comerciais que gerem receitas contínuas. Uma operação imobiliária com 150 apartamentos de luxo vendidos a 1,25 milhões de euros cada geraria mais de 187 milhões de euros brutas. O lucro limpava a dívida à Somague e ao Fisco de uma assentada.

    Para isso acontecer, o Estado e a Câmara do Porto não têm de meter um único cêntimo do erário público. Só têm de fazer o seu trabalho: facilitar, reestruturar as dívidas fiscais, agilizar as licenças e alterar o PDM para que os grandes fundos de investimento privados internacionais queiram injetar aqui o capital.

    Enquanto a burocracia asfixia o clube e as maiores fortunas de Portugal assistem de camarote à insolvência, o povo boavisteiro vai fazendo milagres. Mas o tempo das desculpas acabou. O Bessa tem valor de sobra para se salvar a si próprio. Só falta saber se quem manda tem a coragem política de assinar os papéis ou se vai preferir carregar no caixão de um histórico do nosso futebol.

  • O futebol ganhou. E isso basta para explicar a final do Mundial 2026

    O futebol ganhou. E isso basta para explicar a final do Mundial 2026

    Ouvimos dizer que as finais não se jogam, ganham-se. A Espanha resolveu provar exatamente o contrário. Ganhou merecidamente a única equipa que quis jogar. Os ibéricos dominaram uma final de sentido único. Assumiu o jogo desde o primeiro minuto e conquistou a segunda estrela mundial da sua história.

    Não foi apenas uma vitória sobre a Argentina. Foi uma vitória do futebol positivo sobre o medo, da coragem sobre a contenção, e da identidade coletiva sobre uma estratégia que nunca fez sentido.

    É impossível retirar mérito à equipa de Luis de la Fuente. A campeã europeia cresceu ao longo do torneio e chegou à final na máxima força, depois de eliminar Portugal (curiosamente, havia derrotado igualmente Portugal nos oitavos-de-final em 2010 na caminhada para o seu primeiro título mundial), Bélgica e a ultra-favorita França, antes de derrotar inequivocamente a seleção campeã mundial em título.

    A exibição contra a França foi uma ode ao futebol, sendo muitíssimo superior àqueles que a generalidade considerava uma seleção imbatível. Esse jogo demonstrou uma vez mais que o futebol será sempre um desporto colectivo, onde as individualidades sobressaem.

    Nem o quarteto magnífico Barcola (depois foi lançado Doue a meio da segunda parte), Mbappé, Olise e Dembelé, conseguiram fazer face a uma equipa muito bem estruturada defensivamente, e que já descobriu o antídoto para esta equipa gaulesa, uma vez que lhes ganhou os últimos 3 encontros oficiais na mesma instância e em 3 competições distintas: Euro 2024, Nations League 2025 e Mundial 2026, privando esta geração de ouro de marcar presença na final dessas competições, e de aumentar o seu palmarés sob o comando de Didier Deschamps.

    Contra a Argentina, a Espanha voltou a apresentar tudo aquilo que a caracterizou durante este Mundial: uma circulação de bola de enorme qualidade, uma organização defensiva irrepreensível, um coletivo onde ninguém está acima da equipa.

    Pau Cubarsí confirmou porque foi eleito o melhor jovem da competição, Rodri voltou a demonstrar que é, provavelmente, o médio mais influente do futebol mundial, e Ferran Torres teve finalmente o palco que tantas vezes lhe foi negado pela crítica espanhola.

    Este título tem muito do selecionador espanhol Luis de la Fuente, um treinador que foi corajoso quando quase todos lhe pediam o contrário.

    Foto: X/seleção espanhola masculina de futebol

    Manteve Unai Simón na baliza quando o voto popular e jornalístico tinha lançado uma campanha feroz para que Joan Garcia fosse o titular, insistiu em Rodri no onze titular mesmo quando o médio espanhol tinha começado muito longe do seu melhor e de um ritmo exigido num Mundial, soube gerir Pedri e foi corajoso na decisão de o relegar para o banco de suplentes e colocar Fabián Ruiz no seu lugar.

    É inegável que Pedri é um dos melhores médios do mundo, e que se trata de um jogador fabuloso. Mas o futebol é o momento, e o médio do Barcelona não tinha apresentado um rendimento condizente com o seu talento, e de la Fuente provou mais uma vez que construiu uma seleção onde o coletivo prevalece sobre qualquer individualidade.

    Mas se a Espanha merece todos os elogios, a Argentina merece muitas perguntas. Porque afinal… qual era o plano de jogo de Lionel Scaloni para esta final?

    É legítimo perder uma final frente a uma seleção desta qualidade. O que não é aceitável é passar 120 minutos sem conseguir fazer um único remate até ao último suspiro da partida.

    Estamos a falar daquela que era a campeã do mundo. Estamos a falar de uma seleção que tem Lionel Messi. Estamos a falar de uma equipa que, há apenas quatro anos, encantou o planeta com 75 minutos de um futebol total diante da França na melhor final da história dos Mundiais.

    A Argentina chegou à final muito pelo seu espírito guerreiro e pela sua aversão à derrota, mas essencialmente porque voltou a ter um extraterrestre vestido de azul e branco. Messi, aos 39 anos, assinou um Mundial absolutamente extraordinário, com oito golos e quatro assistências, carregando uma equipa que revelou demasiadas limitações coletivas. Ainda assim, Scaloni pareceu acreditar exatamente nisso.

    Basta recordar os dois prolongamentos disputados frente ao Egito e à Suíça para perceber o desgaste físico com que o astro argentino chegou à final. Esperar que fosse novamente ele a resolver tudo seria profundamente injusto. Se a sua exibição na final foi discreta e se apenas conseguiu ter bola nos últimos minutos do prolongamento, muito se deve a um planeamento covarde e impróprio para uma final de um Mundial por parte do selecionador argentino Lionel Scaloni.

    O selecionador argentino caiu na mesma armadilha em que Vicente del Bosque caiu em 2014. Agarrou-se demasiado aos homens que lhe deram um Campeonato do Mundo. No futebol, a gratidão existe, mas não pode comandar as escolhas.

    Gerir uma seleção não é gerir uma Santa Casa da Misericórdia. É preciso perceber quando um ciclo está a terminar e quando chegou o momento de dar espaço a quem bate à porta.

    E é precisamente aqui que surgem perguntas difíceis de responder. Para que serviram jogadores como Barco, Nico Paz ou Flaco López neste Mundial? Porque viajaram se nunca foram verdadeiras opções? Quando uma equipa deixa de ter pernas, intensidade e criatividade, faz sentido morrer agarrado aos mesmos de sempre?

    A entrada de Leandro Paredes na final, simbolizou tudo aquilo que a Argentina nunca devia querer representar. Nico González não estava a fazer uma primeira parte desastrosa.

    Ainda assim, saiu para entrar um médio cuja principal missão parecia ser interromper o jogo e endurecer os duelos. Ser agressivo sobre o portador da bola faz parte do futebol. Confundir agressividade com jogo sujo é outra conversa completamente diferente. E Paredes voltou a mostrar precisamente o lado do futebol argentino que muitos adeptos (entre os quais me incluo), menos apreciam.

    Nem por isso deixa de surpreender que, no final do encontro, Lionel Scaloni tenha afirmado sentir orgulho pela forma como o grupo soube perder. Independentemente do comportamento da maioria dos jogadores após o apito final, é impossível ignorar agressões perfeitamente evitáveis como as de Molina sobre Rodri ou de Paredes sobre Eric García. As imagens falam por si.

    A expulsão de Enzo Fernández pouco antes do fim do tempo regulamentar, poderá ter evitado qualquer tentativa de reação ou de uma abordagem mais ofensiva no prolongamento. Também é verdade que a Argentina teve menos horas de descanso do que a Espanha. Mas nenhuma dessas circunstâncias explica uma final onde o primeiro remate (enquadrado ou desenquadrado), surge apenas aos 120 minutos. Não existe contexto capaz de justificar um dado destes. Depois da fantástica conquista em 2022, esta Argentina foi a pior finalista de sempre da história dos Mundiais.

    A Argentina teve alma durante praticamente todo o Mundial. Futebol apenas na segunda parte contra a Inglaterra, e na final, teve apenas quando a bola passou pelos pés de Messi e quando a Espanha baixou logicamente as linhas depois de se ver em vantagem no marcador.

    Quem me conhece sabe a admiração que tenho pelo futebol argentino. Acompanhei toda a carreira de Messi, sendo também eu de 1987.

    Vi-o transformar o Barcelona no clube que me fez apaixonar pelo futebol e considero-o, sem qualquer dúvida, o melhor jogador que este desporto já viu. Talvez por isso me custe ainda mais olhar para as lágrimas de quem realizou um Mundial monumental e perceber que lhe foi pedido, uma vez mais, o impossível.

    Mas amar Messi não me faz fechar os olhos, nem me tolhe o discernimento. Ontem, a Espanha foi infinitamente superior. E quando o futebol é recompensado, quem ama verdadeiramente este jogo só pode sorrir. Porque ontem ganhou a melhor equipa do Mundial. E, acima de tudo, ganhou o futebol.”

  • Boavista garante os 50 mil euros e prepara o regresso à atividade

    Boavista garante os 50 mil euros e prepara o regresso à atividade

    O Boavista Futebol Clube deu um importante passo rumo à recuperação. O histórico emblema axadrezado conseguiu reunir os 50 mil euros necessários para cumprir o acordo estabelecido com a administradora de insolvência, permitindo assim a reabertura das instalações do Estádio do Bessa e a retoma da atividade do clube.

    A verba foi angariada através da mobilização de sócios, adeptos e antigos boavisteiros, que responderam ao apelo lançado pelo movimento criado para salvar o clube. O objetivo imediato foi alcançado: garantir a continuidade das operações e evitar um cenário ainda mais dramático para uma das instituições mais emblemáticas do futebol português.

    Apesar desta conquista representar uma injeção de esperança para o universo axadrezado, os desafios financeiros estão longe de terminar. O pagamento dos 50 mil euros é apenas o primeiro passo de um processo de recuperação exigente, que obrigará o Boavista a continuar a encontrar soluções para assegurar a sua sustentabilidade nos próximos meses.

    Depois de semanas marcadas pela incerteza e pelo encerramento da atividade, o regresso ao Bessa simboliza muito mais do que a simples reabertura de portas. É a demonstração da força da massa associativa boavisteira, que voltou a unir-se para proteger a identidade de um clube centenário e campeão nacional.

    O futuro continua a apresentar obstáculos, mas, para já, o Boavista ganhou um novo fôlego. E, numa das fases mais delicadas da sua história, a esperança voltou a morar no Bessa.

  • Boavista encerra atividade após falhar pagamento aos credores

    Boavista encerra atividade após falhar pagamento aos credores

    O Boavista Futebol Clube encerrou oficialmente a sua atividade, naquela que é uma das páginas mais tristes da história do futebol português. A decisão surge após o clube não ter conseguido cumprir o pagamento acordado com os credores, levando a administradora de insolvência a executar a deliberação aprovada na assembleia de credores.

    Segundo a administradora de insolvência, Maria Clarisse Barros, o Boavista falhou o depósito da verba necessária para suportar as despesas correntes do clube referentes ao mês de junho, bem como o défice das modalidades. Perante a ausência de qualquer perspetiva de regularização, foi determinado o encerramento de todas as atividades desenvolvidas no Estádio do Bessa e restantes instalações.

    A medida abrange todas as modalidades do clube, colocando um ponto final na atividade desportiva da histórica instituição axadrezada.

    O Boavista, campeão nacional em 2000/01 e um dos clubes mais emblemáticos do futebol português, vivia há vários anos uma profunda crise financeira. Apesar de, em dezembro de 2025, ter sido alcançado um acordo que permitiu evitar o encerramento imediato, o incumprimento dos pagamentos acabou por tornar inevitável este desfecho.

    Foto: Boavista fc

    O encerramento da atividade representa um duro golpe para o desporto nacional e marca o fim de um ciclo de mais de um século de história. O Boavista deixa um legado ímpar no futebol português, com um título de campeão nacional, várias Taças de Portugal, presenças marcantes nas competições europeias e gerações de atletas formados no Bessa que ajudaram a escrever algumas das páginas mais importantes.

    “Resta-nos agradecer a todos os diretores, adjuntos e treinadores pela sua grandiosa dedicação, quase sem limites, e pelos excelentes atletas que formaram e tanto engrandeceram o já prestigiado nome do Boavista. Por fim, e como não poderia deixar de ser, um grande aplauso para os atletas que dignificaram esta instituição centenária por esse mundo fora”, salientou a administradora de insolvência, informando que as chaves das instalações, livres de pessoas e bens, têm de ser entregues até 31 de julho.

    Foto: Boavista FC

  • Crónica de uma Morte Anunciada

    Crónica de uma Morte Anunciada

    Há derrotas que surpreendem. E há derrotas que apenas confirmam aquilo que há muito parecia inevitável. A eliminação de Portugal nos oitavos de final do Mundial de 2026 pertence claramente à segunda categoria.

    Não foi um acidente de percurso. Não foi uma noite infeliz diante de uma excelente seleção espanhola, mas que não está pletórica como esteve no Euro 2024. Foi apenas o culminar lógico de um ciclo que, apesar da enorme qualidade individual dos seus jogadores, nunca conseguiu transformar-se numa verdadeira equipa.

    O mais simbólico é que escrevo este artigo precisamente no ano em que se assinalam dez anos da conquista do Euro 2016. Aquela noite de Paris continua a ser o maior momento da história do futebol português. Uma seleção que talvez não fosse a mais talentosa da Europa encontrou na união, no espírito competitivo e numa identidade muito própria as armas para conquistar um título que parecia impossível.

    Foto: UEFA

    https://www.instagram.com/reel/DL70lMLozwE/?igsh=MWYxd2gyM2U3OTRiMQ==

    Dez anos depois, Portugal apresenta um dos plantéis mais talentosos da sua história, mas não sou daqueles que digo que esta é a geração de ouro da nossa selecção.

    Primeiro, porque não tenho memória curta e recordo-me muito bem daquela seleção fantástica do Euro 2000, que só sucumbiu nas meias-finais perto do fim contra a França campeã do mundo de Zidane e companhia, quando ainda havia a regra do Golo de Ouro.

    Depois, porque linha a linha, a nossa selecção do Euro 2004 não fica assim tão atrás desta selecção. Tínhamos um dos melhores defesas-centrais de todos os tempos em Ricardo Carvalho, tínhamos a espinha dorsal de um FC Porto campeão europeu, com aquele extraordinário e muito complementar trio de meio-campo Costinha, Maniche e Deco, e na frente tínhamos o ainda extremo Cristiano Ronaldo (naquela que para mim foi a sua melhor versão em fases finais de competições de selecções, e isso foi há 22 anos, o que não deixa de ser sintomático), um craque como Luís Figo e Pauleta, um dos melhores marcadores da história do nosso país. No banco, tínhamos ainda Rui Costa, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Hélder Postiga, entre outros…

    E essa geração pode não ter ganho nenhum título (tal como o nosso capitão egocêntrico fez questão de referir uma vez mais num timing bastante inoportuno), mas chegou a uma final de um Europeu e a umas meias-finais de um Mundial, instância da prova a que não chegamos há 20 (!) anos. E devemos reflectir sobre isto.

    Apesar do inegável talento, Portugal foi uma das seleções menos reconhecíveis e que menos transmitiu neste Mundial. Por exemplo, em contraste com a seleção das quinas, emocionou-me ver como Cabo Verde quase vergou a atual campeã mundial, Argentina, e para além da sua qualidade de jogo, o seu percurso jamais será esquecido pela solidariedade, atitude e amor pelas suas cores que todos os seus jogadores demonstraram nesta competição.

    À nossa selecção nacional, talento nunca faltou. Faltou sempre algo muito mais difícil de construir: uma identidade.

    Portugal chegou aos oitavos de final. Mas fê-lo sem convencer praticamente ninguém. Empatou frente à República Democrática do Congo numa exibição que já havia apresentado sinais bem alarmantes, mas que quase todos desvalorizaram (eu não me incluo nesse rol).

    Cumpriu a obrigação diante de um Uzbequistão (que teve o condão de fazer com que as pessoas embandeirassem em arco e já voltassem com o sonho utópico de ver Portugal campeão do mundo) que terminou entre as seleções mais frágeis da competição, sofrendo 11 golos em apenas três encontros.

    E voltou a deixar uma imagem profundamente preocupante diante da Colômbia. O empate acabou por saber a pouco para os cafeteros. Na verdade, soube até a injustiça para os colombianos. Foram infinitamente superiores durante largos períodos e mereciam claramente ter vencido, algo que só não aconteceu porque com a nova regra absurda do fora-de-jogo (que desvirtua o futebol), há lances que podem ser anulados pelo adiantamento da ponta de uma bota.

    Se Portugal chegou aos oitavos-de-final depois de derrotar a Croácia num encontro de contornos dramáticos, deve-o sobretudo a um momento de inspiração de Gonçalo Ramos (utilizado durante menos de sessenta minutos em todo o torneio, numa gestão difícil de compreender) e, acima de tudo, às extraordinárias exibições de Diogo Costa.

    E isso diz praticamente tudo. Quando o melhor jogador de uma seleção candidata ao título é o guarda-redes, dificilmente estaremos perante um Mundial conseguido. Diogo Costa foi gigantesco. Provavelmente o melhor guarda-redes da competição.

    Foto: FPF

    Mas nenhum guarda-redes consegue esconder indefinidamente uma equipa sem ideias.

    Roberto Martínez falhou. Falhou na leitura dos jogos. Falhou nas substituições. Falhou na gestão do plantel. Falhou, sobretudo, na construção de uma identidade coletiva. Não me recordo de um jogo em que Portugal tenha jogado de acordo com o potencial destes jogadores e de uma geração fantástica sob o comando do seleccionador espanhol.

    A história repetiu-se. Na Bélgica, conduziu uma geração absolutamente extraordinária (essa sim, a geração de ouro do futebol belga), e nunca conseguiu transformá-la numa campeã.

    Em Portugal, voltou a acontecer exatamente o mesmo. As fases de qualificação foram excelentes. Mas isso pouco significa quando chegam os Europeus e os Mundiais. Porque é aí que se avaliam os grandes selecionadores.

    É verdade que conquistou a Liga das Nações (que digam o que disserem, não tem e nunca terá o peso, prestígio e importância de um Europeu ou de um Mundial). Mas mesmo nessa caminhada já existiam sinais preocupantes. Na final frente à Espanha, por exemplo, voltou a cometer um erro difícil de explicar ao adaptar João Neves a lateral-direito, permitindo que Nico Williams criasse inúmeros problemas durante toda a primeira parte.

    Felizmente para Portugal, corrigiu a tempo porque a Espanha não conseguiu aumentar a vantagem no marcador, e Portugal conseguiu reentrar na discussão do resultado. E sobretudo, conseguiu esse título porque apareceu um Nuno Mendes absolutamente gigantesco.

    O lateral-esquerdo português anulou praticamente Lamine Yamal (então o jogador em melhor forma do futebol mundial), e mudou completamente a história desse encontro.

    Foto: Mosaiquefm

    Depois, como tantas vezes aconteceu durante este ciclo, Diogo Costa voltou a aparecer nas grandes penalidades. Mas um jogo nunca poderia esconder problemas estruturais que voltaram agora a surgir da forma mais evidente possível.

    Chega inevitavelmente o momento mais delicado. Falar de Cristiano Ronaldo exige respeito. Exige memória. Exige gratidão. Estamos a falar do maior futebolista português de todos os tempos.

    De um jogador que redefiniu aquilo que parecia possível alcançar. Seis Campeonatos do Mundo disputados. Cinco Bolas de Ouro. Centenas de golos. Uma longevidade absolutamente irrepetível e alguém que aumentou a nossa dimensão competitiva. Nada disto será alguma vez apagado.

    Mas também não pode impedir uma análise honesta e objectiva. Cristiano continua a ser uma das peças desta seleção. Já não é a engrenagem.

    Nem pode continuar a ser tratado como tal. A sua utilização foi claramente excessiva para um jogador de 41 anos, que perdeu muitas das faculdades que o tornaram num dos melhores jogadores de sempre. Neste Mundial, condicionou demasiados momentos do jogo português e retirou mobilidade ofensiva a uma equipa que precisava precisamente do contrário.

    Também na liderança continua a existir uma diferença importante entre estatuto e influência.

    Cristiano é o capitão da Seleção Nacional. Mas neste Mundial voltou a ficar a clara sensação de que a liderança emocional da equipa nunca foi verdadeiramente assumida dentro de campo nos momentos de maior adversidade. Gratidão eterna nunca deverá significar subserviência. Nenhum jogador (independentemente da dimensão da sua carreira e estatuto) pode colocar-se acima dos interesses da Seleção Nacional.

    Ainda assim, seria profundamente injusto transformá-lo no principal culpado. Não é. É apenas um dos responsáveis. Como todos os outros. Como Roberto Martínez. Como a Federação. Como vários jogadores que ficaram muito longe do rendimento esperado (Bruno Fernandes e um esgotado Vitinha à cabeça dessas desilusões).

    Também aqui Martínez deixa muitas perguntas sem resposta. Como explicar que Gonçalo Ramos tenha jogado menos de uma hora em todo o Mundial? Porque não existiu espaço para Gonçalo Guedes? Porque Francisco Trincão voltou a ser utilizado de forma residual? Porque Gonçalo Inácio desapareceu das opções?

    Ao mesmo tempo, houve notas positivas. Renato Veiga confirmou enorme personalidade. Nuno Mendes voltou a demonstrar porque é um dos melhores laterais do planeta, até o desgaste físico já não lhe permitir manter o mesmo nível. João Félix deixou bons apontamentos. Rafael Leão voltou a desequilibrar sempre que encontrou espaço. Francisco Conceição trouxe irreverência.

    Mas foi pouco. Muito pouco para uma geração desta qualidade. Também Vitinha e Bruno Fernandes realizaram um Mundial claramente abaixo das expectativas. Dois jogadores chamados a assumir o controlo da equipa desapareceram demasiadas vezes. Portugal precisava deles. Nunca os encontrou verdadeiramente.

    Houve, no entanto, algo que me incomodou particularmente. Durante semanas ouvimos praticamente todos os elementos da comitiva repetir a mesma frase “Vamos ganhar este Mundial pelo Diogo Jota.” É uma homenagem bonita. É compreensível. É humana.

    https://www.instagram.com/reel/DLpOCrrqn0k/?igsh=Y3JoaW1tcjUwcGNo

    Mas as competições não se ganham com discursos. Ganham-se com atitude. Com coragem. Com intensidade. Com espírito competitivo. O malogrado Diogo Jota representava exatamente isso. Corria a todas as bolas. Pressionava. Nunca desistia de um lance. Era um guerreiro. Infelizmente, poucas vezes vimos esse espírito refletido no comportamento coletivo da Seleção. As palavras emocionam. Mas só as ações convencem.

    O nome mais forte e oficial no momento em que disseco esta paupérrima participação de Portugal para suceder a Roberto Martínez, é o de Jorge Jesus.

    Currículo não lhe falta. As suas equipas sempre apresentaram uma identidade muito própria e um grande sentimento de pertença. Praticaram, regra geral, um futebol ofensivo, intenso e facilmente reconhecível. Precisamente aquilo que Portugal nunca conseguiu construir neste ciclo.

    Mas a Seleção coloca desafios completamente diferentes. Jorge Jesus nunca treinou uma seleção. Nunca trabalhou com um grupo composto por alguns dos melhores jogadores do mundo nas respetivas posições.

    E sobretudo nunca teve de construir um modelo de jogo com apenas alguns dias de treino por ano. Ora, sempre foi precisamente aí que residiu uma das maiores virtudes do treinador português: o trabalho diário, repetitivo e extremamente detalhado.

    Haverá depois um dossiê inevitável: Cristiano Ronaldo. Foi precisamente Jorge Jesus o último treinador de clube do capitão português. Será interessante perceber como fará essa gestão. Porque essa decisão poderá definir não apenas o futuro de Cristiano na Seleção, mas também o início de um novo ciclo do futebol português.

    Também Pedro Proença saiu fragilizado deste Mundial. As suas declarações após a eliminação “Esta não era a nossa escolha, mas assumimo-la.”, revelam um preocupante desnorte institucional.

    Se Roberto Martínez nunca foi verdadeiramente a escolha da atual direção, então por que motivo permaneceu independentemente de ter ganho a Liga das Nações?

    Uma seleção precisa de estabilidade. De liderança. De coerência. Nada disso parece existir atualmente. E os jogadores sentem-no. Muito mais do que se imagina.

    Portugal continuará a produzir grandes futebolistas. Disso ninguém duvida. O verdadeiro desafio será finalmente construir uma equipa à altura desse talento.

    Porque gerações passam. Treinadores mudam. Lendas retiram-se. Mas os Mundiais não esperam por ninguém. Este não foi apenas o fim de uma campanha dececionante.

    Foi o fim de um ciclo que, durante demasiado tempo, viveu mais da esperança do que das evidências. E, olhando para trás, talvez nunca tenha existido título mais apropriado.

    Foi, simplesmente, a crónica de uma morte anunciada.

  • A vergonha do sorriso, quando um país está a chorar

    A vergonha do sorriso, quando um país está a chorar

    Quando a derrota de Portugal não parece incomodar treinadores espanhóis no banco…

    Portugal foi eliminado pela Espanha nos oitavos de final do Campeonato do Mundo. Milhões de portugueses ficaram em lágrimas e tristes ao ver Cristiano Ronaldo a chorar no relvado, no seu último Mundial.

    Contudo, assim que soou o apito final, junto ao relvado e no banco de suplentes, saltou-me à vista a imagem de alguém a rir, a abraçar e a cumprimentar efusivamente o staff espanhol, como se tivesse acabado de sair de um jantar de amigos ou estivesse feliz pela passagem espanhola: Iñaki Bergara.

    Iñaki Bergara, treinador de guarda-redes de Roberto Martínez desde os tempos do Swansea. Basco, veterano, com décadas de carreira ao lado do selecionador. Um homem que, naquelas imagens, revelou uma falta de sensibilidade total para o momento.

    Porque há coisas que não se fazem. E sorrir efusivamente minutos depois de eliminar do Mundial o país que te pagou o salário durante quatro anos é uma delas.

    O eterno “está tudo bem”

    Este sorriso e esta felicidade não são um caso isolado. É apenas o episódio mais recente de uma novela que já vimos várias vezes, com Martínez sempre como figura central.

    Empate mau com o Congo? Martínez disse que estava satisfeito.

    Exibição sofrida contra a Colômbia? Elogiou o desempenho, ao ponto de a imprensa comentar que “viu um jogo que mais ninguém viu”.

    Parecia que Portugal jogava sempre bem.

    Um selecionador que nunca assume o erro, que transforma cada resultado mediano numa vitória moral de bastidores, está a mandar um recado claro ao grupo: aqui, o problema nunca é nosso.

    Peter Schmeichel resumiu bem a questão: Martínez “desperdiçou” a Bélgica e repetiu a receita com Portugal. Ricardo Quaresma foi ainda mais afiado: “meteu 50 táticas, nenhuma deu certo”. E, no fim, sobra sempre um sorriso e um “correu bem”.

    Um treinador que não foi capaz de dar um murro na mesa em público, dificilmente o faz em privado, quando é preciso mesmo mexer com alguém.

    A Federação também tem culpas

    Sabia-se, desde o início, que Martínez e a sua equipa técnica sairiam depois do Mundial. Sabia-se que o presidente da Federação, Pedro Proença, não confiava plenamente neste corpo técnico.

    E, ainda assim, deixou-se arrastar a situação até ao fim, com uma Seleção a competir num Mundial sem um treinador que verdadeiramente ajudasse a equipa, e com o homem no cargo já com a saída mais do que anunciada.

    Era claro que tinha tudo para correr mal.

    E no futebol, quando certos “profissionais” sabem que o ciclo terminou antes mesmo de terminar, fica mais fácil sorrir depois de uma derrota ou eliminação. Ainda mais se essa derrota for contra o seu próprio país de nascença. E, mesmo assim, ninguém fala sobre isto. Ninguém dá murros na mesa nem se exalta por termos sido traídos por estes espanhóis dentro da nossa própria casa. Nas páginas da história do nosso futebol, Martínez, Bergara e afins deveriam ficar registados como verdadeiros “cavalos de Troia”.

    Casa a arder na Cidade do Futebol

    E enquanto a Seleção tropeçava em campo, além da questão de Martínez, a Federação e Pedro Proença tinham muitos outros fogos para apagar.

    A demissão de Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, e a polémica com o Conselho de Arbitragem acabaram remetidas ao Ministério Público, com queixas-crime cruzadas e investigações a decorrer. Uma vergonha absoluta, vinda de uma classe que se devia querer correta e justa: a da arbitragem. Comportamentos que só provam que a classe arbitral tem muita falta de classe.

    Sendo Proença, Duarte Gomes e outros protagonistas desta novela antigos árbitros, toda esta confusão diz muito sobre o estado das coisas no futebol português. Guerras atrás de guerras. Lutas de egos internas. Lutas pelo poder. Lutas pelo dinheiro. Nada disto dignifica o futebol e o desporto português.

    Proença tem prestado um mau serviço ao futebol português. Como presidente da Liga e agora como presidente da Federação, aparece com pompa e circunstância nas redes sociais, tentando colher os louros de pequenas vitórias. E, como se não bastasse a falta de noção de surgir numa foto a sorrir ao lado dos pais de Diogo Jota, esquece-se de dar a cara na hora da derrota e das polémicas.

    Portugal, com Cristiano Ronaldo, perdeu uma oportunidade única de ser campeão do mundo, com uma das gerações mais talentosas da sua história.

    Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty imagens

    E, pior ainda, tem agora uma Federação a gerir escândalos em várias frentes, um presidente sem coragem para colocar o dedo na ferida e pôr as pessoas no seu lugar, e o problema, ainda por resolver, da saída de Martínez.

    Espero que a escolha do novo selecionador recaia sobre Jorge Jesus. E gostava também que Jesus convencesse Ronaldo a continuar, para que o Deus do futebol português, ainda que fossem apenas dez minutos por jogo, conseguisse despedir-se da Seleção em 2030, no Mundial organizado por Portugal, Marrocos e Espanha.