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  • Liga 3: e quem segura Bruninho?

    Liga 3: e quem segura Bruninho?

    Bruninho tem sido um dos nomes em destaque na Liga 3 nesta temporada, com exibições que começam a chamar a atenção fora do campeonato. A pergunta instala-se: até quando resistirá no patamar competitivo em que atua?

    A Liga 3 tem servido, uma vez mais, de montra para talentos que procuram dar o salto para competições mais exigentes, e o nome de Bruninho surge associado a essa narrativa. O jogador tem vindo a somar exibições consistentes, que o colocam entre as figuras mais faladas da prova nesta fase da época. Eleito o jogador do mês de agosto e setembro da Liga3.

    O desempenho do atleta não passa despercebido aos observadores do futebol português, numa altura em que a Liga 3 continua a afirmar-se como um terreno fértil para a deteção de jovens valores. A combinação entre regularidade e qualidade de jogo tem sido apontada como o principal trunfo de Bruninho, reforçando a ideia de que o seu percurso no clube atual poderá estar a aproximar-se de uma viragem.

    Interesse a crescer

    Ainda que não existam, para já, confirmações oficiais sobre propostas concretas, é frequente que jogadores em bom momento na Liga 3 despertem curiosidade de equipas de patamares superiores, incluindo emblemas da Liga 2 e, em casos mais raros, da Liga Betclic. A continuidade das boas exibições tende a funcionar como catalisador para negociações, sobretudo a meio de época, período em que vários clubes procuram reforçar os seus plantéis.

    Expectativa em torno do futuro

    Para já, o foco mantém-se no rendimento dentro de campo, com o jogador a contribuir para os objetivos da sua equipa na Liga 3. Contudo, a pergunta que o título desta notícia coloca — e quem segura Bruninho? — reflete a perceção crescente de que uma saída a curto ou médio prazo não deverá ser descartada, caso o nível de exibições se mantenha elevado.

    O Craques vai continuar a acompanhar a evolução do caso, nomeadamente eventuais movimentações de mercado que possam surgir nas próximas semanas.

  • Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

    Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

    O caso Cristiano Ronaldo mostra que falar diretamente para milhões não significa controlar aquilo que milhões vão entender. Entre atletas, media, instituições e adeptos, a disputa já não é apenas por quem comunica – é por quem consegue definir o significado do que aconteceu.

    Cristiano Ronaldo não estava a falar. Mas quase toda a gente estava a falar sobre Cristiano Ronaldo.

    Durante vários dias, o capitão da Seleção Nacional não explicou

    publicamente, em detalhe, as razões que o levaram a abandonar o estágio. Tinha deixado apenas uma promessa: a seu tempo, apresentaria a sua versão.

    O que se seguiu dificilmente pode ser descrito como silêncio.

    Houve notícias, declarações, informações atribuídas a diferentes fontes, interpretações, reações nas redes sociais e horas de comentário desportivo.

    Discutiu-se o futuro de Ronaldo na Seleção, a relação com Jorge Jesus, a posição da Federação Portuguesa de Futebol e as consequências de um episódio que rapidamente deixou de pertencer apenas ao espaço interno da equipa.

    E foi precisamente essa aparente contradição que me despertou uma pergunta: como pode existir tanto para dizer quando uma das principais vozes não está a falar?

    Quando uma voz se cala, outras ocupam o espaço

    O futebol mudou também na forma como os seus protagonistas comunicam.

    Durante décadas, um jogador dependia, em grande medida, da mediação Jornalística para fazer chegar publicamente a sua versão dos acontecimentos. Uma entrevista, uma conferência de imprensa ou declarações a um órgão de comunicação eram algumas das principais portas de acesso ao espaço público.

    Hoje, um atleta pode ser também o seu próprio canal.

    Cristiano Ronaldo é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação.

    Dispõe de plataformas próprias e de uma audiência global que lhe permite comunicar diretamente com milhões de pessoas, sem depender de um jornalista para publicar uma mensagem.

    Isso dá-lhe um enorme poder comunicacional.

    Mas torna também o seu silêncio relevante.

    Quando o Ronaldo anunciou a saída do estágio, deixou a expectativa de que explicaria posteriormente o sucedido. Sabia-se, portanto, que existia uma versão do principal protagonista ainda por conhecer.

    A informação disponível estava incompleta. A comunicação, porém, não parou.

    Jorge Jesus continuou a ser questionado. A Federação comunicou. Outros jogadores responderam sobre o tema. Os media procuraram reconstruir acontecimentos, contextualizar declarações e antecipar consequências.

    Comentadores interpretaram aquilo que era conhecido — e também aquilo que permanecia por explicar.

    Uma voz estava temporariamente ausente. As restantes ganharam espaço.

    É por isso que o silêncio de uma figura altamente mediática não deve ser confundido com ausência de comunicação. Quando alguém deixa de ocupar o seu espaço comunicacional, esse espaço pode ser ocupado por outros.

    Do facto ao “diz que disse”

    Talvez por já ter passado por uma redação desportiva, houve uma dimensão deste caso que me chamou particularmente a atenção: a origem da informação.

    Quem disse o quê? O que tinha sido combinado? Quem estava presente? O que era informação confirmada? O que resultava de uma determinada versão dos acontecimentos? E o que era já interpretação?

    É aqui que surge o conhecido “diz que disse”.

    Uma declaração direta não é o mesmo que uma informação atribuída a uma fonte. Uma informação atribuída não é o mesmo que uma interpretação. E uma interpretação não é o mesmo que especulação.

    Podem coexistir no espaço mediático. Não têm o mesmo estatuto.

    Esta distinção torna-se particularmente importante quando existe incerteza e, simultaneamente, uma enorme procura por informação nova.

    Interpretar não é, por si só, um problema. O jornalismo não se limita a reproduzir declarações: verifica, contextualiza, confronta versões e procura significado.

    A dificuldade surge quando, para quem recebe a informação, deixa de ser evidente onde termina aquilo que sabemos e começa aquilo que pensamos saber.

    E existe ainda um efeito multiplicador.

    Uma declaração produz uma notícia. A notícia provoca uma reação. A reação origina outra notícia. Essa notícia é novamente comentada. E, a determinada altura, a comunicação sobre o acontecimento torna-se também parte do próprio acontecimento.

    Quando Ronaldo decidiu falar

    A 6 de outubro, Cristiano Ronaldo apresentou publicamente a sua versão.

    Fê-lo através de uma declaração extensa, na primeira pessoa, em que descreveu a sua leitura dos acontecimentos, apontou aquilo que considerou terem sido quebras de palavra por parte do selecionador, assumiu responsabilidade pela decisão de abandonar o estágio, pediu desculpa e deixou em aberto a continuidade na Seleção.

    Há aqui uma distinção importante.

    Uma comunicação direta é uma fonte primária sobre aquilo que Ronaldo afirma ter acontecido. Não transforma automaticamente a sua versão numa descrição factual e incontestável de tudo o que aconteceu.

    Mas a forma escolhida para comunicar é, por si só, reveladora.

    Ronaldo não concedeu uma entrevista em que outro interveniente selecionaria as perguntas. Não entregou a exclusividade da sua versão a um jornal ou televisão. Publicou-a diretamente, de forma extensa e através dos seus próprios canais.

    Controlou o momento.

    Controlou as palavras.

    Controlou a versão que quis apresentar.

    Mas não controlou aquilo que aconteceu depois.

    A mensagem era a mesma. As notícias não.

    Assim que a declaração se tornou pública, começou um novo processo de mediação.

    Da mesma mensagem nasceram diferentes títulos e diferentes ângulos. Era possível destacar as alegadas quebras de palavra, o pedido de desculpas, a responsabilidade assumida pela saída, a relação com Jorge Jesus ou a disponibilidade para continuar a representar Portugal.

    Escolher é inevitável. Nenhum título consegue conter todas as dimensões de uma declaração daquela extensão.

    Mas escolher também é enquadrar.

    E é aqui que se encontra, para mim, uma das questões mais interessantes da comunicação no futebol contemporâneo:

    ter um canal próprio permite controlar a publicação da mensagem. Não permite controlar a sua circulação, seleção ou interpretação.

    Um jogador pode decidir exatamente aquilo que publica.

    Não decide qual será a frase escolhida para abrir um telejornal. Não determina o título de um jornal. Não controla que excerto terá maior circulação nas redes sociais. Não escolhe quem será convidado a interpretar as suas palavras. E, sobretudo, não determina a conclusão a que cada pessoa chegará depois de

    receber todas essas mensagens.

    A comunicação direta reduz uma forma de intermediação.

    Não elimina a mediação.

    Transforma-a.

    Quem controla, então, a narrativa?

    Talvez “controlar” não seja a palavra certa.

    Num ecossistema desta dimensão, nenhum ator determina sozinho o significado público de um acontecimento.

    Ronaldo controla aquilo que decide publicar. Jorge Jesus, aquilo que decide declarar — e aquilo a que decide não responder. A Federação gere a sua comunicação institucional. Os jornalistas verificam, selecionam, contextualizam e hierarquizam informação. Os comentadores interpretam. Os adeptos reagem, contestam e amplificam. As plataformas condicionam a velocidade e a dimensão com que tudo isto circula.

    Mais do que controlo absoluto, existe uma disputa pela capacidade de influenciar a forma como o acontecimento é entendido publicamente.

    Quem consegue definir qual é o problema central?

    Que palavras passam a dominar a discussão?

    A quem é atribuída responsabilidade?

    Que versão recebe maior visibilidade?

    Que fonte conquista maior credibilidade?

    E quem consegue colocar os outros na posição de terem de reagir ao que acabou de dizer?

    Durante alguns dias, esperou-se pela versão de Ronaldo. Quando chegou, a atenção deslocou-se quase imediatamente para Jorge Jesus: o que responderia o selecionador?

    Depois de confirmar que tinha lido o comunicado, Jesus optou por não desenvolver publicamente uma resposta ao seu conteúdo.

    A voz que estava ausente tinha regressado. Outra passava a falar menos.

    Mudavam as vozes. Mudava o silêncio.

    A narrativa continuava em movimento.

    O poder de comunicar não é o poder de determinar

    Este episódio ajuda também a questionar uma ideia recorrente: a de que as redes sociais permitiram às grandes figuras do futebol eliminar os intermediários.

    Eliminaram alguns. Transformaram outros.

    Um jogador já não precisa necessariamente de um jornalista para tornar pública uma mensagem. Mas essa mensagem continua a entrar num ecossistema composto por órgãos de comunicação, plataformas digitais, comentadores, organizações, outros protagonistas e milhões de utilizadores.

    Os atletas conquistaram uma autonomia comunicacional sem precedentes:

    podem publicar diretamente para audiências massivas sem pedir acesso ao espaço mediático tradicional.

    Isso é uma mudança profunda.

    Mas poder publicar não significa poder determinar.

    Talvez seja essa uma das grandes transformações da comunicação no futebol contemporâneo. O poder já não está apenas em conseguir falar diretamente para milhões de pessoas. Está também na capacidade de fazer prevalecer uma interpretação entre muitas outras que competem pela atenção do público.

    O jogo da narrativa

    Não é necessário escolher entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus para reconhecer o interesse comunicacional deste episódio.

    Esta análise também não pretende fazê-lo.

    O caso é interessante precisamente porque permite olhar para além da pergunta mais imediata — “quem tem razão?” — e fazer outra:

    como se constrói publicamente aquilo que entendemos que aconteceu?

    Os atletas podem ser simultaneamente protagonistas desportivos, marcas e canais de comunicação. Clubes e federações operam num ambiente em que já não controlam sozinhos o acesso público aos seus jogadores. Os jornalistas deixaram de deter a exclusividade sobre a publicação da voz dos protagonistas, mas continuam a ter um papel fundamental na verificação, seleção e contextualização dessa voz. E os adeptos já não são apenas destinatários: também comentam, contestam e amplificam significados.

    Talvez por isso uma das dimensões comunicacionalmente mais interessantes tenha surgido precisamente quando o seu maior protagonista não estava a falar.

    O silêncio não fez desaparecer a narrativa.

    Abriu espaço para que outros participassem na sua construção.

    Quando Ronaldo voltou a falar, também não a encerrou.

    Voltou a transformá-la.

    Porque, no futebol contemporâneo, nem todos os jogos se disputam dentro das quatro linhas.

    Alguns disputam-se no espaço público.

    E, nesses, a bola é a narrativa.

  • Cristiano Ronaldo quebra o silêncio e conta a sua versão da polémica com Jorge Jesus

    Cristiano Ronaldo quebra o silêncio e conta a sua versão da polémica com Jorge Jesus

    Capitão da Seleção Nacional explica os motivos que levaram à saída do estágio, aborda a relação com o selecionador e assume a responsabilidade pela decisão. Leia o comunicado na íntegra.

    “Tal como prometi, decidi contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional.

    Após o Mundial 2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa.

    No final da competição, logo no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu e insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu continuasse.

    Logo a seguir pediu que lhe desse a minha opinião sobre o nome do atual Selecionador e que ele estava a ponderar, a par de outros nomes que não me revelou.

    Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa.

    Por isso, no dia em que o atual Selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era a opção certa, como os resultados vão comprovando.

    Poucos dias depois recebi um primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas férias.

    Encontrámo-nos na Cidade do Futebol onde o meu clube fazia estágio de pré-temporada.

    O Selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo.

    Nessa altura colocou-me a hipótese de eu não viajar com a Seleção para Noruega e Dinamarca. Propôs-me que fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo antes do jogo do Dragão.

    Recusei de imediato esta proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo.

    O Selecionador acabou por concordar com a minha análise.

    Esta conversa foi acompanhada pelo Simão Coutinho, diretor Desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025.

    Na véspera do estágio começar o Selecionador deslocou-se a minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados em agosto foram mantidos.

    Joguei o jogo de Alvalade, e apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu País, ainda melhor.

    À hora de almoço do dia do jogo na Noruega um adjunto do selecionador do veio à mesa onde o grupo estava a almoçar e informou-me que o Selecionador me queria falar. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema.

    Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 min.

    O resto todos conhecem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado.

    O Selecionador tinha-me falhado com a sua palavra.

    No fim do jogo só queria que tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido. Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido.

    Passado 48 horas tivemos uma conversa, eu, o Selecionador e o Simão Coutinho uma vez que tinha sido ele a acompanhar as nossas conversas de Agosto.

    Foi um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro.

    Concordamos que só havia uma maneira de encerrar este “caso”: que o Selecionador repetisse o que acabara de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na Sala de Imprensa.

    O que foi combinado era simples: o Selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema, procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para jogar minutos nenhuns, que foi o Selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que se voltasse a acontecer não o faria.

    Acabamos essa reunião com o Selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão Coutinho, sempre.

    A pedido do selecionador, decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos.

    Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao Selecionador, tal como ele havia solicitado.

    A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.

    As notas que validei eram as seguintes:

    “Acho importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca:

    1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa.

    2. Sei o quanto ele vive e Ama a Seleção e o peso que tem no Mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos.

    3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.

    4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.

    5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.

    6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.

    7. Para encerrar o assunto: Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também.

    8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”

    Nenhuma destas notas dizia, portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa.

    Era a segunda vez, que me estava a faltar à palavra dada.

    Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me digam a verdade.

    Aliás, numa conversa que mantive com o Presidente da FPF e com o Selecionador na manhã do dia dessa conferência de imprensa, podem confirmar seguramente, reafirmei que se não me quisessem ali mo dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado.

    Lembro-me como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional.

    Nunca, em nenhum momento me intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito é melhor ou pior o que me propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali.

    Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha.

    Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.

    A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos.

    A este propósito, tenho ouvido muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que a Federação me quer dar essa oportunidade.

    Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.

    Posso prometer a todos os meus fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou mais jogos de despedida, haverá tempo para isso.

    Mas quando penso na seleção o que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu Pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais faria por clube algum.

    Portanto se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.

    Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.

    Cristiano Ronaldo

  • O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de todos os tempos. Isso não está em discussão. É o maior marcador da história da Seleção, o jogador com mais internacionalizações e a figura que durante duas décadas carregou consigo boa parte dos sonhos de um país. Precisamente por tudo isso, aquilo que aconteceu na Dinamarca é ainda mais difícil de compreender.

    O capitão abandonou o barco.

    Cristiano Ronaldo

    Não depois de Portugal ser eliminado. Não por lesão. Não no final de uma competição. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional na véspera de um jogo oficial frente à Dinamarca, depois de ter ficado no banco diante da Noruega e de Jorge Jesus ter deixado claro que Gonçalo Ramos seria o titular no encontro seguinte. A Federação confirmou a saída e o próprio jogador anunciou que, “a seu tempo”, explicaria aos portugueses as razões da decisão.

    Pode existir muito contexto ainda por conhecer. Pode haver conversas privadas que nunca chegaram ao domínio público. E Cristiano terá naturalmente direito à sua versão.

    Mas existe um facto indesmentível que nenhuma explicação futura poderá apagar: quando os seus companheiros se preparavam para representar Portugal, o capitão decidiu chamar o seu avião privado, e ir embora. E isso é inadmissível.

    O nosso melhor jogador de todos os tempos, mas que teve um comportamento de menino mimado, e que agora tem o beneplácito incompreensível de Jorge Jesus e de Pedro Proença para que possa regressar à Seleção quando assim o entender, sendo que estes protagonistas apenas disseram que foi um “mal-entendido” e que são problemas que se resolvem rápido. Parece uma piada de mau gosto ou algo que nos remete aos tempos da escola preparatória.

    Jorge Jesus abriu explicitamente a porta: se Cristiano quiser regressar, poderá fazê-lo. Pedro Proença também classificou a situação como um mal-entendido e defendeu serenidade na resolução do caso.

    Jorge Jesus

    É aqui que a gestão do episódio se torna difícil de compreender. Porque representar Portugal não pode funcionar como uma porta giratória cuja utilização depende da vontade de um jogador. Nem sequer quando esse jogador se chama Cristiano Ronaldo. Sobretudo quando falamos do capitão.

    A braçadeira não é apenas uma homenagem ao passado. Também representa responsabilidade no presente.

    E um capitão é precisamente aquele que não abandona o barco quando deixa de ocupar o lugar que gostaria de ocupar nele.

    Nas horas seguintes surgiu uma narrativa diferente através de pessoas próximas de Ronaldo. Edu Aguirre, jornalista espanhol e amigo do internacional português, afirmou que Cristiano se sentiu “traído” por Jorge Jesus. Segundo essa versão, teria existido uma reunião entre jogador, selecionador e presidente da FPF na qual Jesus reconhecera um erro na gestão do episódio da Noruega e teria prometido um pedido de desculpas público. Esse pedido nunca aconteceu.

    Mais tarde, o próprio Jorge Jesus negou que tivesse pedido desculpa ou prometido fazê-lo publicamente, contrariando diretamente a narrativa divulgada pelo círculo próximo do jogador.

    Importa estabelecer essa diferença: não sabemos o que foi dito naquela reunião privada. Sabemos aquilo que Edu Aguirre afirmou ter acontecido e sabemos que Jesus posteriormente o negou.

    Mas a ideia de que o selecionador deveria apresentar publicamente desculpas ao jogador por ter tomado uma decisão técnica, representaria, a confirmar-se, uma infame inversão de papéis.

    Jorge Jesus pode ter gerido mal Cristiano Ronaldo. Pode ter errado ao colocá-lo durante largos minutos a aquecer sem depois o utilizar, apesar de que a sua decisão foi completamente legitimada pelo facto de Portugal estar a ganhar por apenas um golo de diferença diante da Noruega, uma seleção muito forte e que tem jogadores de muita qualidade.

    Jesus pode ter comunicado melhor ou pior. Tudo isso é discutível. O princípio não é. O selecionador escolhe quem joga. O jogador aceita.

    Jorge Jesus

    Se deixarmos de conseguir estabelecer algo tão elementar numa Seleção Nacional, então o problema deixou de ser Ronaldo, Jesus ou qualquer outro nome. Passou a ser institucional.

    Depois veio outro episódio desnecessário. Cristiano Ronaldo colocou um “gosto” numa publicação que reproduzia declarações de Felipe Melo em sua defesa, numa intervenção que estabelecia uma comparação entre a forma como Portugal tratava Cristiano e a forma como a Argentina tratava Lionel Messi e que atingia também os próprios jogadores portugueses, defendendo que nenhum deles estava sequer próximo do nível do capitão.

    Um simples “gosto” numa rede social não deve ser transformado numa declaração oficial. Mas também não existe necessidade de fingir que não significa absolutamente nada.

    Sobretudo quando acontece no meio de uma crise desta dimensão e quando os homens indiretamente diminuídos naquela publicação são os mesmos companheiros que Ronaldo acabara de deixar para trás na Dinamarca.

    E foram precisamente esses jogadores que responderam da única forma que verdadeiramente interessava, fazendo o que melhor sabem: jogando.

    Enquanto se discutia Ronaldo, nasceu uma equipa. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2, e esse resultado deve ter azedado muitas das refeições dos profetas da desgraça e daqueles portugueses que são apoiantes do Cristiano Ronaldo FC, e não da seleção nacional, a equipa de todos nós.

    Portugal

    Depois venceu novamente a Noruega, desta vez no Dragão, por 2-1, garantindo antecipadamente o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Jorge Jesus termina os primeiros quatro encontros como selecionador com quatro vitórias em quatro jogos.

    E talvez esta seja a parte mais importante de toda esta história. Portugal não colapsou sem Cristiano Ronaldo. Portugal jogou como equipa.

    Vitinha assumiu o controlo dos ritmos. Bruno Fernandes encontrou liberdade para acelerar e procurar zonas de criação. João Félix reapareceu como uma peça capaz de ligar setores e encontrar espaços interiores. E Gonçalo Ramos recebeu finalmente aquilo que há demasiado tempo merecia na Seleção: minutos.

    Gonçalo Ramos

    Não foram minutos residuais. Não entrou quando faltavam apenas dez minutos. Não esperou eternamente atrás de uma hierarquia construída sobre aquilo que aconteceu no passado.

    Teve minutos para ser o ponta de lança de Portugal. E respondeu. Só alguém que perdeu toda e qualquer noção de futebol ou impregnado de um fanatismo doentio, poderá admitir que neste momento, Gonçalo Ramos não é o melhor avançado português.

    Gonçalo oferece à equipa algo que vai muito além do golo. Pressiona centrais, condiciona a primeira fase de construção adversária, ataca a profundidade, participa no jogo associativo da equipa, fixa defesas e cria espaço para as entradas dos médios e dos jogadores que partem dos corredores.

    Neste momento, é o melhor avançado português da atualidade e Jorge Jesus teve a coragem que Roberto Martínez demasiadas vezes não demonstrou: escolher em função daquilo que considera melhor para a equipa e não do peso de um nome, ou melhor dizendo, de uma marca global.

    Quatro jogos ainda são pouco para conclusões definitivas, mas já permitem encontrar uma identidade.

    Portugal joga mais depressa. Há menos circulação pela circulação. Vitinha continua a oferecer pausa e critério, mas existem mais soluções à frente da bola.

    Bruno Fernandes procura constantemente o passe vertical. Félix aproxima-se de Ramos e aparece entre linhas. Os laterais projetam-se e dão largura e profundidade, enquanto os jogadores da frente trocam frequentemente de posição.

    Quando perde a bola, Portugal procura recuperá-la imediatamente. É um futebol de risco. E esse risco também mostrou aquilo que precisa de ser corrigido.

    A Seleção continua demasiado vulnerável quando a primeira pressão é ultrapassada. A projeção simultânea de vários jogadores deixa os centrais expostos e aparecem espaços entre a linha média e a defensiva que adversários de maior qualidade poderão explorar com muito mais crueldade.

    Jorge Jesus não precisa de retirar a ambição à equipa. Precisa de lhe acrescentar controlo.

    Porque esta Seleção tem talento suficiente para assumir jogos sem precisar de viver permanentemente no limite.

    Nenhum nome pode ser maior do que Portugal, seja a personalidade mais seguida e idolatrada do mundo, ou não. Seria absurdo apagar Cristiano Ronaldo da história da Seleção por causa de uma semana.

    Não se apagam mais de duas décadas. Não se apagam os golos. Não se apaga o Europeu de 2016. Não se apaga tudo aquilo que fez pela camisola portuguesa.

    Mas também seria igualmente absurdo utilizar essa história para desculpar tudo aquilo que fizer daqui para a frente.

    Gratidão não significa submissão. Cristiano Ronaldo merece respeito pelo que deu a Portugal. Portugal não lhe deve, em troca, o direito vitalício de decidir quando joga, quando fica, quando parte ou quando regressa.

    E talvez a grande ironia destes últimos dias seja precisamente essa. No momento em que o capitão abandonou o barco, esperava-se uma tempestade. Em vez disso, Portugal continuou a navegar.

    Cristiano Ronaldo

    Ganhou na Dinamarca. Ganhou à Noruega. Apurou-se. Gonçalo Ramos marcou. João Félix brilhou. Vitinha ditou os tempos de jogo. Bruno Fernandes criou. E Jorge Jesus começou a construir uma equipa em que o coletivo parece finalmente voltar a estar acima das individualidades.

    Cristiano Ronaldo poderá regressar. Provavelmente regressará. E, se o fizer, continuará a ser uma lenda do futebol português.

    Mas deveria regressar com uma certeza muito simples: a braçadeira pode pertencer ao capitão. O barco pertence a Portugal.

  • Lúcia Alves embalou e as águias voaram para a conquista da Supertaça

    Lúcia Alves embalou e as águias voaram para a conquista da Supertaça

    O primeiro troféu da época 2026/27 veste de vermelho. O Benfica venceu o FC Porto por 5-1, no Estádio Municipal do Fontelo, e conquistou assim a 4ª Supertaça Feminina da sua história numa tarde em que a resistência portista durou essencialmente até ao intervalo.


    Lúcia Alves foi a grande figura de uma equipa encarnada que acelerou definitivamente na segunda parte e transformou um clássico equilibrado numa goleada.

    Lúcia Alves – Foto: SL Benfica

    Sob um sol abrasador de mais de 30 graus em Viseu, Ivan Baptista apresentou o Benfica esperado, enquanto Daniel Chaves lançou Morgan Stone, Daniela Santos e Fatumata Sissé no onze portista.

    Sem as lesionadas Lara Perruca e Alex Kerr, o FC Porto procurava discutir o primeiro troféu da época antes da estreia na elite do futebol feminino português, mas encontrou desde cedo dificuldades perante a pressão alta das encarnadas.

    O Benfica assumiu a iniciativa, mas foi o FC Porto quem festejou primeiro. Aos sete minutos, Maria Negrão colocou um livre na área e Morgan Stone desviou para a baliza, num golo que acabaria anulado por fora de jogo milimétrico após uma longa análise do VAR.

    Pouco depois, a resposta encarnada foi cruel. Lúcia Alves encontrou Frøya Dorsin em profundidade e a norueguesa aproveitou uma abordagem infeliz de Daniela Santos (exibição para esquecer da antiga jogadora do Benfica) para inaugurar o marcador para as encarnadas aos 13 minutos.

    As águias continuaram por cima, com Caroline Møller particularmente influente no ataque, enquanto o FC Porto apresentava dificuldades em ligar o meio-campo às três jogadoras mais adiantadas.

    As bolas paradas, porém, davam outra vida às portistas. Foi precisamente daí que nasceu o empate: depois de uma mão de Møller na área, Fátima Pinto assumiu a grande penalidade e fez o 1-1 aos 33 minutos.

    Fátima Pinto – Foto: FC Porto

    O golo coincidiu com o melhor período azul e branco. O FC Porto subiu a pressão e conseguiu finalmente perturbar a construção encarnada, mas quando parecia ter equilibrado definitivamente a final, o Benfica voltou a castigar.

    Aos 42 minutos, Diana Gomes lançou Nycole Raysla nas costas da defesa e a brasileira percebeu o adiantamento de Cora Brendle, assinando com qualidade o 2-1.

    Ainda antes do intervalo, Maria Negrão esteve muito perto de empatar diretamente de canto, obrigando Lena Pauels a uma grande defesa. As portistas chegavam vivas ao descanso. Não sabiam ainda que o pior estava para vir.

    O Benfica regressou dos balneários disposto a terminar rapidamente com as dúvidas. A pressão voltou a sufocar a saída portista e, aos 55 minutos, uma carga de Daniela Santos sobre Catarina Amado valeu grande penalidade. Marit Lund não desperdiçou e colocou o resultado em 3-1.

    A partir daí, houve praticamente apenas Benfica. Carolina Tristão (jovem de apenas 17 anos, mas que joga como se fosse uma veterana) tomou conta do meio-campo, recuperando, aparecendo em diferentes zonas e dando continuidade ao domínio das águias.

    À sua frente, Møller continuava a oferecer qualidade entre linhas e Lúcia Alves fazia do corredor direito a sua autoestrada particular. A portuguesa acumulou metros, desequilíbrios e cruzamentos perante uma defesa portista incapaz de travar a sua profundidade.

    Dorsin ainda obrigou Cora Brendle a uma excelente defesa antes de, aos 66 minutos, surgir um dos melhores lances da tarde. Lúcia Alves voltou a romper pela direita e ofereceu a Caroline Møller o 4-1.

    Era o retrato perfeito da segunda parte: uma equipa a encontrar espaços por todo o lado e outra já sem capacidade para acompanhar o ritmo.

    As substituições não diminuíram a intensidade encarnada. Andreia Norton (regressando aos relvados depois de uma ausência de mais de 470 dias) obrigou Brendle a nova intervenção e, aos 82 minutos, duas jogadoras saídas do banco construíram o quinto: Chandra Davidson assistiu e Anna Csiki colocou a “manita” no marcador.

    Já nos descontos, Lúcia Alves procurou o golo que faltava à sua exibição, com um remate em arco que passou perto da baliza. Não marcou, mas também não precisava. A internacional portuguesa já tinha deixado a assinatura espalhada por praticamente todo o corredor direito do Fontelo.

    O FC Porto conseguiu competir durante parte do primeiro tempo e encontrou nas bolas paradas a melhor forma de ameaçar o adversário, mas a segunda parte revelou a distância que ainda existe para uma equipa que está a dar os primeiros passos entre a elite. O Benfica, mesmo depois das mudanças sofridas no verão, respondeu com uma demonstração de força.

    5 golos, uma Supertaça e um primeiro aviso às suas rivais: o Benfica começou 2026/27 como tantas vezes terminou nos últimos anos: a levantar um troféu.

    Conquista Supertaça – Foto: SL Benfica
  • Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

    Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

    Os três grandes perderam algumas das suas maiores figuras, o Braga despediu-se de dois pilares e os reforços chegaram em força. De Alvalade à Luz e do Dragão ao Minho, o mercado de 2026 redesenhou alguns dos principais candidatos e deixou o futebol português com novas caras para descobrir.

    O mercado de transferências de verão de 2026 dificilmente passará despercebido. Benfica, FC Porto e, sobretudo, Sporting sofreram alterações profundas nos respetivos plantéis, perderam jogadores de enorme influência e responderam com investimentos e apostas importantes. O SC Braga não escapou à tendência e viu partir dois dos grandes protagonistas da temporada passada, enquanto vários clubes fora do habitual quarteto da frente também aproveitaram a janela para encontrar reforços interessantes.

    Mais do que uma sucessão de negócios milionários, este foi um mercado de mudança de referências. Jogadores que pareciam indissociáveis das respetivas equipas partiram, jovens talentos deram novos passos nas carreiras e os principais clubes portugueses chegam a 2026/27 obrigados a construir novas hierarquias.

    Se existe um clube onde a palavra revolução se aplica sem exagero, é o Sporting.

    Francisco Trincão, Geovany Quenda e Morten Hjulmand já representavam três perdas de enorme dimensão. Trincão oferecia criatividade, desequilíbrio e produção ofensiva; Quenda era uma das maiores pérolas produzidas recentemente em Alcochete; e Hjulmand tinha-se transformado numa referência competitiva no meio-campo leonino. Mas o mercado ainda guardava mais despedidas.

    Pedro Gonçalves rumou à Fiorentina e Daniel Bragança ao Torino, aumentando significativamente a dimensão da transformação na equipa de Alvalade. Pote deixa para trás anos de golos, assistências e momentos decisivos, enquanto Bragança encerra, pelo menos por agora, uma ligação construída desde a formação e depois consolidada na equipa principal. O médio sai com 161 jogos pelo Sporting e três campeonatos nacionais conquistados.

    Não se tratou, portanto, simplesmente de substituir jogadores. O Sporting perdeu uma parte importante da identidade da equipa que construiu nos últimos anos.

    A resposta também passou pela maior transferência de sempre entre clubes portugueses. O internacional uruguaio Rodrigo Zalazar trocou o SC Braga pelo Sporting por 30 milhões de euros, depois de uma época em que somou 23 golos e oito assistências em 47 encontros. O uruguaio assinou até 2031 e chega para oferecer criatividade, intensidade, remate e chegada à área.

    Rodrigo Salazar – Foto Sporting CP

    O Sporting que inicia esta temporada é, inevitavelmente, muito diferente daquele a que nos habituámos. Perdeu talento, referências e vários jogadores identificados com o projeto, mas respondeu com uma remodelação ambiciosa. Nenhum dos candidatos ao título terá provavelmente um processo de reconstrução tão interessante para acompanhar.

    Também na Luz houve uma despedida particularmente significativa. António Silva (transferido para os ingleses do Bournemouth), deixou o Benfica ao fim de 11 anos ao serviço do clube, encerrando um percurso iniciado na formação e que o levou a tornar-se titular da equipa principal e internacional português.

    António Silva – Foto: Bournemouth

    Nas entradas, porém, as últimas horas trouxeram duas novidades importantes,  e acabaram definitivamente com uma das incógnitas deste mercado encarnado.

    Souffian El Karouani é jogador do Benfica. O lateral-esquerdo internacional marroquino, de 25 anos, chegou do Al-Qadisiyah por empréstimo até ao final da temporada, ficando os encarnados com opção de compra. É uma nova solução para um corredor onde o Benfica procurava aumentar a concorrência.

    Souffian El Karouani – Foto: SL Benfica

    Mas o nome que promete despertar maior curiosidade é Claudio Echeverri.

    O médio-ofensivo argentino de 20 anos foi oficialmente apresentado como reforço nesta quarta-feira e chega cedido pelo Manchester City até ao final de 2026/27, também com opção de compra de 21 milhões de euros. 

    Antiga jóia do River Plate, Echeverri passou ingloriamente na última temporada pelo Bayer Leverkusen e Girona e procura agora na Luz o espaço necessário para transformar enorme potencial em afirmação definitiva no futebol europeu.

    Um argentino talentoso, criativo e formado no River Plate chegará sempre ao Benfica acompanhado por expectativas especiais. Echeverri sabe-o: na apresentação lembrou os compatriotas que tiveram sucesso na Luz e recebeu precisamente a camisola 30 anteriormente utilizada por Nicolás Otamendi.

    Claudio Echeverri – Foto: SL Benfica

    No Dragão, a saída com maior significado é inevitavelmente a de Rodrigo Mora para os italianos da Roma. Um dos melhores produtos da formação dos últimos anos do quadro azul e branco e um dos maiores talentos portugueses da sua geração, o médio ofensivo conquistou rapidamente protagonismo na equipa principal. A partida significa não apenas perder qualidade imediata, mas também abdicar de um jogador com enorme margem de progressão e valorização, que nunca encaixou na rigidez táctica do técnico italiano Francesco Farioli.

    Rodrigo Mora – Foto: AS Roma

    O FC Porto respondeu igualmente com uma remodelação que trouxe novas soluções para diferentes setores. João Souza chegou proveniente do Tottenham para o lado esquerdo da defesa, enquanto o ponta-de-lança internacional mexicano Santi Giménez representa uma nova referência para o ataque portista, tentando voltar aos níveis de confiança e rendimento que outrora fizeram com que tivesse estado na agenda de clubes como o Real Madrid.

    João Souza – Foto: FC Porto
    Santiago Giménez – Foto: FC Porto

    Há ainda o regresso de Fofana (elemento essencial na conquista do campeonato na época transacta), aumentando as alternativas à disposição da equipa técnica.

    E às movimentações já conhecidas juntou-se Gabriel Mec. O jovem talento brasileiro de 18 anos deixa o Grêmio para reforçar os dragões por 11 milhões de euros, numa aposta que olha claramente também para o futuro. 

    Mec enquadra-se num perfil que o FC Porto conhece bem: talento sul-americano ainda numa fase precoce da carreira, contratado não apenas pelo que já oferece, mas sobretudo pelo jogador em que poderá transformar-se. Veremos é se a sua imprevisibilidade e qualidade técnica serão entendidas e respeitadas por Farioli, que não deve voltar a cometer o erro de querer formatar jogadores.

    Gabriel Mec – Foto: FC Porto

    Entre a perda de Rodrigo Mora e a chegada de jogadores com características bastante diferentes, o FC Porto também entra fortemente exigido por voltar a disputar a Champions League na nova temporada, e com uma identidade ofensiva por descobrir.

    Se os três grandes tiveram de lidar com despedidas importantes, o SC Braga perdeu dois protagonistas absolutos da excelente temporada anterior: Lukáš Horníček e Rodrigo Zalazar.

    Horníček afirmou-se como uma das grandes figuras arsenalistas antes de partir para o Newcastle. O internacional checo assinou um contrato válido por cinco temporadas com o clube da Premier League, depois de se valorizar de forma extraordinária em Braga.

    Zalazar representava outra dimensão do jogo arsenalista. Os 23 golos e oito assistências em 47 partidas ajudam a explicar aquilo que Carlos Vicens perdeu com a transferência do uruguaio para Alvalade.

    Perder guarda-redes e médio ofensivo no mesmo verão seria sempre um desafio, sobretudo quando ambos estavam perfeitamente estabelecidos como referências.

    Ainda assim, o Braga tem mostrado capacidade para se reinventar. E jogadores como Diego Rodrigues, decisivo no dérbi minhoto, começam já a procurar o espaço deixado por quem partiu.

    Diego Rodrigues – Foto: SC Braga

    As movimentações interessantes não ficaram limitadas aos clubes de maior poder financeiro.

    O Famalicão, por exemplo, voltou a procurar talento jovem no estrangeiro e contratou Georgios Koutsias. O avançado grego chegou do Lugano numa transferência avaliada em cerca de €2,5 milhões e acrescenta mais um nome interessante a um plantel famalicense habituado a apostar em jogadores com margem de valorização.

    Georgios Koutsias – Foto: FC Famalicão

    É precisamente esta capacidade de procurar talento em mercados diferentes que continua a tornar o campeonato português particularmente interessante. Para muitos destes jogadores, Portugal representa simultaneamente uma oportunidade competitiva e uma montra para os principais campeonatos europeus.

    Todos os anos partem protagonistas. Todos os anos parece necessário encontrar os próximos. Portugal continua a perder estrelas, mas continua a encontrá-las Talvez seja esta a melhor conclusão possível depois de um verão tão agitado.

    Trincão, Quenda, Hjulmand, Pote e Daniel Bragança deixaram o Sporting. António Silva saiu do Benfica. Rodrigo Mora despediu-se do FC Porto. Horníček e Zalazar abandonaram Braga.

    São jogadores de perfis e momentos de carreira diferentes, mas todos tinham influência significativa nas respetivas equipas. E, no entanto, chegam outros. Tal como a vida, o futebol é feito de ciclos.

    Zalazar muda para um candidato ao título e assume um novo desafio em Alvalade. Echeverri aterra na Luz carregado de talento e expectativa. El Karouani aumenta as opções encarnadas. Santi Giménez procura golos no Dragão e Gabriel Mec representa uma aposta portista no futuro. Koutsias tenta ser o próximo jovem estrangeiro a utilizar Portugal como palco de afirmação.

    É um ciclo que o futebol português conhece demasiado bem. Vendê-los quando se tornam estrelas. Encontrar outros antes de o serem.

    O verão de 2026 levou algumas das caras mais reconhecíveis do nosso campeonato e obrigou os principais clubes a mudar. Uns parecem ter encontrado substitutos imediatos; outros precisarão de tempo para reconstruir aquilo que perderam.

    Os milhões já mudaram de mãos. Os contratos estão assinados e as fotografias com as novas camisolas já foram tiradas. Agora fala o relvado.

  • No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    Sai de cena com 207 jogos, 125 golos e todos os grandes títulos conquistados. Mas o maior triunfo de Lionel Messi talvez tenha sido outro: transformar um país que questionou a sua identidade num país que acabou rendido aos seus pés.

    Durante anos, Lionel Messi teve de responder a uma acusação particularmente cruel: não ser suficientemente argentino.

    Diziam que era espanhol. Que não cantava o hino. Que não sentia a camisola como Maradona. Que aquilo que fazia pelo Barcelona nunca conseguia fazer pela Argentina. Saiu de Rosario aos 13 anos e, para alguns, essa distância geográfica transformou-se numa espécie de pecado original que nenhuma estelar exibição parecia conseguir apagar.

    A ironia é extraordinária: Messi podia realmente ter representado a Espanha.

    Quando começava a destacar-se nas camadas jovens do Barcelona, a possibilidade foi-lhe colocada. O próprio confirmou recentemente que existiram aproximações espanholas e que, pelas circunstâncias da sua formação, poderia ter acontecido. Mas havia uma coisa que nunca esteve verdadeiramente em discussão para Leo e sempre o transmitiu ao seu recém-falecido pai: «Papá, quero jogar pela Argentina.»

    E escolheu a Argentina antes de ela o escolher verdadeiramente.

    Messi passou os últimos anos da sua juventude em Barcelona, mas há coisas que a distância nunca conseguiu levar.

    O miúdo argentino que chegou à Catalunha continuou a falar como um rosarino. O castelhano nunca perdeu aquela musicalidade tão peculiar da Argentina, nem os seus “vos”, os “tenés”, os “querés”.

    Continuou ligado a Rosario, ao mate, aos churrascos, à família e aos amigos de infância. Uma reportagem da TIME já sublinhava, em 2012, algo particularmente simbólico: depois de tantos anos em Espanha, o sotaque de Messi praticamente não tinha mudado.

    Foto: CHRISTOPHER MORRIS . VII FOR TIME

    Mesmo assim, teve de passar anos a provar de onde era.

    Talvez porque os argentinos nunca o tinham visto crescer diante deles. Maradona tinha sido Argentinos Juniors, Boca Juniors, rua, bairro, Buenos Aires. Messi cresceu futebolisticamente do outro lado do Atlântico. Quando a Argentina começou verdadeiramente a conhecê-lo, o Barcelona já começava a perceber que tinha encontrado algo extraordinário.

    E isso criou uma distância que Messi demoraria anos a vencer.

    Quanto melhor era em Barcelona, maior parecia tornar-se a dívida imaginária com a seleção.

    Se fazia três golos em Espanha, perguntava-se por que não fazia o mesmo pela Argentina. Se sorria no Camp Nou e aparecia sério com a Albiceleste, dizia-se que não sentia o mesmo. Se não cantava o hino, questionava-se o patriotismo.

    E havia sempre a comparação impossível com Diego Armando Maradona. Messi não tinha apenas de ser Messi. Para uma parte do país, tinha também de ser Diego.

    AMAR ABDALLAH DALSH / REUTERS

    A Argentina chegou à final do Mundial de 2014 e perdeu em detalhes para a Alemanha. Messi ficou a centímetros daquilo que lhe exigiam.

    Depois perdeu a Copa América de 2015. E voltou a perdê-la em 2016, contra o mesmo adversário, e ambas após desempate por grandes penalidades.

    Nessa noite, diante do Chile, falhou uma grande penalidade e desabou. As lágrimas de Messi talvez tenham sido a resposta mais evidente a todos aqueles que durante anos disseram que aquela camisola não lhe doía. Doía-lhe tanto que decidiu deixá-la.

    Aos 29 anos anunciou a saída da seleção. Estava esgotado de perder, mas talvez também de ser permanentemente julgado por um país ao qual nunca conseguira demonstrar suficientemente que pertencia.

    Regressou pouco depois. E essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes de toda a sua carreira.

    A segunda metade da história seria completamente diferente. A própria dimensão da carreira internacional de Messi depois dos 30 anos é extraordinária: 95 internacionalizações, 70 golos e uma Argentina que passou das derrotas sucessivas para uma era de domínio sob o comando de Lionel Scaloni (que havia sido companheiro de Messi na selecção enquanto jogador), conquistando duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial.

    A Copa América de 2021 mudou tudo.

    Em 2021, Messi conquistou finalmente um grande título pela seleção principal, num Maracanã despido (devido à pandemia), e diante do arquirrival Brasil. Uma das imagens mais impactantes da sua carreira foi a dele a afastar os seus colegas que estavam a querer “picar” Neymar devido à rivalidade histórica que há entre argentinos e brasileiros, e fundir-se num sentido abraço com um dos seus melhores amigos no futebol e seu ex-companheiro no Barcelona.

    Também por isso, foi severamente criticado na Argentina. Como se o futebol fosse uma guerra, uma ideia completamente estapafúrdia.

    Seguiu-se a Finalíssima contra a campeã europeia Itália. Mas faltava a imagem que parecia perseguir toda a sua carreira: o troféu dourado de campeão do mundo.

    No Qatar, em 2022, Messi fez aquilo que durante anos lhe disseram que precisava de fazer para poder sentar-se definitivamente à mesa dos imortais do futebol. Marcou sete golos, foi eleito o melhor jogador do torneio e levantou o Mundial depois de uma final irrepetível e icónica diante da França.

    Campeonato do mundo – Foto: Reuters/Paul Childs

    E Peter Drury encontrou as palavras certas para um momento que parecia impossível de traduzir:

    “Lionel Messi conquistou o seu último cume. Lionel Messi apertou a mão ao paraíso. O menino de Rosario, Santa Fe, acaba de chegar ao céu e chegar a um patamar só dele: o de melhor de todos os tempos.”

    Talvez o mais bonito seja que Messi já não precisava daquele Mundial para provar que era argentino. Mas a Argentina talvez precisasse daquele Mundial para perceber definitivamente que Messi sempre tinha sido seu.

    Depois do Qatar desapareceram muitas das acusações. Já ninguém queria saber se cantava o hino (curiosamente depois de conquistar a taça mais desejada, Messi soltou-se e começou a ser dos mais sonoros ao entoá-lo). Barcelona deixou de ser utilizada contra ele. A comparação com Maradona deixou de funcionar como arma.

    Messi não substituiu Diego. A Argentina simplesmente abriu espaço para os dois.

    Agora os números ficam para a história. 207 jogos. 125 golos.

    Nenhum argentino vestiu mais vezes aquela camisola. Nenhum marcou mais golos por ela. Javier Mascherano, segundo em internacionalizações, ficou pelos 147 jogos. Gabriel Batistuta, durante tanto tempo referência goleadora do país, terminou com 56 golos. Messi despede-se também como recordista sul-americano de jogos e golos por uma seleção.

    Conquistou um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Campeonato do Mundo. Disputou seis Mundiais e três finais da maior competição de seleções.

    Mas talvez haja um número ainda mais bonito. 21 anos. Duas décadas a representar um país que primeiro o questionou, depois o exigiu, por vezes o maltratou e, finalmente, o passou a idolatrar.

    Lionel Messi despede-se aos 39 anos. E há uma espécie de justiça poética na forma como tudo termina.

    O menino que podia ter escolhido Espanha, escolheu a Argentina. O homem acusado de não parecer argentino nunca perdeu a maneira argentina de falar.

    O homem acusado de não sentir a camisola, chorou compulsivamente por ela. Deu tudo de si em todos os momentos, tal como ele mencionou na sua carta emocionante de despedida à selecção na rede social Instagram:

    “«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção.Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».”

    O homem que disseram não conseguir ganhar pela Argentina, ganhou tudo. Caiu várias vezes, levantou-se outras tantas. Uma história digna do melhor dos documentários ou filmes autobiográficos de Hollywood.

    E aquele a quem durante tantos anos perguntaram se conseguiria ser como Maradona acabou por não precisar de ser ninguém além de Lionel Andrés Messi.

    No Qatar, Peter Drury disse que o menino de Rosario tinha chegado ao céu.

    Quatro anos depois, sabemos que não voltou de lá. A Argentina demorou a aceitá-lo como seu. Messi passou uma vida inteira a provar que nunca tinha sido de outro lugar.

    https://www.instagram.com/reel/DctYV2qt6S5/?igsi=ZjQxY3JwYW56YnN6