Categoria: Desportos

  • Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

    Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

    Quatro medalhas, quatro disciplinas e a melhor participação portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista. Iúri Leitão voltou a vestir a camisola arco-íris, mas Xangai mostrou que há cada vez mais Portugal para além do seu maior nome.

    Durante muito tempo, cada medalha portuguesa num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista podia ser encarada como um acontecimento extraordinário. Em Xangai, Portugal começou a transformar o extraordinário em hábito. Uma medalha de ouro, uma de prata e duas de bronze fizeram de 2026 a melhor participação nacional de sempre na competição. Quatro pódios, o dobro do anterior máximo português numa única edição.

    O grande protagonista voltou a ser Iúri Leitão. O ciclista de Viana do Castelo sagrou-se campeão mundial de omnium, recuperando um título que já tinha conquistado em 2023. Vice-campeão olímpico da disciplina em Paris 2024 e campeão europeu em 2026, Leitão voltou a mostrar em Xangai por que razão se tornou uma das grandes referências internacionais do ciclismo de pista.

    E fê-lo com autoridade. O português começou o omnium a vencer o scratch, depois de ganhar uma volta ao pelotão, e terminou em terceiro tanto na corrida por tempo, como na eliminação. Chegou, por isso, à decisiva corrida por pontos na liderança. Fabio Van den Bossche ainda conseguiu ultrapassá-lo provisoriamente ao ganhar uma volta ao pelotão, mas Leitão respondeu da mesma forma e recuperou o comando. Terminou com 143 pontos, à frente do belga, segundo com 129, e do alemão Tim Torn Teutenberg, terceiro com 115.

    Iuri Leitão Foto: FPC

    Era o segundo título mundial de omnium da carreira e mais uma página de uma história que o próprio Iúri começou a escrever em 2023, quando se tornou o primeiro português campeão mundial de ciclismo de pista. Três anos depois, voltou ao lugar mais alto do pódio, e a sua emoção no fim da competição e quando ouvia o nosso hino, é bem revelador da importância que o ciclista vianense atribui a esta conquista.

    Mas o Mundial de Iúri Leitão ainda não tinha terminado. No último dia da competição, juntou-se a Ivo Oliveira para atacar o madison. Portugal chegou a liderar a prova e esteve na discussão das medalhas desde cedo, somando pontos nos sprints e conseguindo uma volta de avanço sobre o pelotão.

    A Dinamarca, porém, elevou a fasquia. Carl-Frederik Bevort e Lasse Leth conseguiram três voltas de avanço e terminaram com 88 pontos. Portugal continuou a lutar, pontuou nos quatro últimos sprints e segurou a medalha de prata com 67 pontos, deixando a Alemanha no bronze, com 52.

    Iuri Leitão e Ivo Oliveira Foto: FPC

    Mais do que outra medalha para Iúri, o resultado representou um novo marco para o ciclismo nacional: foi a primeira medalha portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de madison. Uma disciplina na qual Portugal já tinha conquistado o ouro olímpico em Paris 2024, então através de Iúri Leitão e Rui Oliveira.

    Iúri saiu, assim, de Xangai com duas das quatro medalhas portuguesas: ouro no omnium e prata no madison.

    Antes de Iúri subir ao lugar mais alto do pódio, já Maria Martins tinha mostrado que Portugal estava em Xangai para lutar por medalhas.

    A portuguesa foi a primeira representante nacional a entrar em competição e conquistou o bronze no scratch, terminando apenas atrás da neerlandesa Lorena Wiebes e da irlandesa Lara Gillespie. Foi a terceira medalha da carreira de Maria Martins em Campeonatos do Mundo, depois do bronze no scratch em 2020 e no omnium em 2022.

    Aos 27 anos, “Tata” voltou assim ao pódio mundial quatro anos depois e deu o primeiro sinal de uma semana que acabaria por se tornar histórica para Portugal.

    Maria Martins Foto: FPC

    Se o bronze de Maria Martins confirmou uma atleta habituada aos grandes palcos, o de Miguel Salgueiro teve um sabor diferente.

    Em fevereiro, na estreia em Campeonatos da Europa de pista, uma queda na prova de eliminação provocou-lhe quatro costelas e duas vértebras fraturadas, além de uma contusão pulmonar, obrigando-o a passar dois dias nos cuidados intensivos. Oito meses depois, em Xangai, conquistou a primeira medalha portuguesa de sempre na corrida por pontos de um Campeonato do Mundo.

    Salgueiro pontuou em sete dos 16 sprints das 160 voltas e venceu quatro deles. Chegou ao último sprint em posição de conquistar a prata e terminou com 27 pontos, apenas um atrás do francês Benjamin Thomas. O britânico Mark Stewart sagrou-se campeão mundial, com 35.

    Miguel Salgueiro Foto: FPC

    O bronze ganha ainda maior dimensão por ter surgido precisamente na única prova disputada pelo português nestes Mundiais.

    No final, as contas são simples, mas dizem muito sobre a dimensão do que aconteceu em Xangai: ouro para Iúri Leitão no omnium; prata para Iúri Leitão e Ivo Oliveira no madison; bronze para Maria Martins no scratch; bronze para Miguel Salgueiro na corrida por pontos.

    Quatro medalhas numa única edição, quando o anterior máximo português eram duas. E há outro dado particularmente significativo: os quatro pódios chegaram em quatro disciplinas diferentes, através de quatro ciclistas portugueses.

    Iúri Leitão continua inevitavelmente a ser o rosto maior desta geração. É bicampeão mundial de omnium, campeão europeu da disciplina, campeão olímpico de madison e vice-campeão olímpico de omnium. Mas talvez seja precisamente aí que esteja a principal conclusão destes Mundiais: Portugal já não depende exclusivamente de Iúri para chegar ao pódio.

    Maria Martins voltou a fazê-lo. Miguel Salgueiro estreou-se entre os medalhados. Ivo Oliveira juntou uma medalha mundial ao currículo. E Iúri, claro, voltou a fazer aquilo que nos últimos anos tornou cada vez menos surpreendente: ganhar medalhas.

    Xangai não foi apenas o melhor Mundial da história do ciclismo de pista português. Foi mais um sinal de que aquilo que há alguns anos parecia excecional começa a ganhar consistência.

    Portugal já não vai ao velódromo apenas à procura de fazer história. Começa a entrar nele como um país de medalhas.

  • André Pinto assume comando técnico do Varzim SC para inverter rumo na Liga 3

    André Pinto assume comando técnico do Varzim SC para inverter rumo na Liga 3

    O Varzim SC anunciou André Pinto como novo treinador da equipa principal, com a missão de reverter o percurso do clube poveiro na Liga 3.

    O Varzim SC confirmou a chegada de André Pinto ao comando técnico da equipa principal, numa altura em que o clube da Póvoa de Varzim procura corrigir o rumo da sua participação na Liga 3. A decisão surge como resposta da direção varzinista à necessidade de estabilizar os resultados desportivos da equipa.

    Um desafio imediato

    André Pinto chega ao Varzim com o objetivo claro de recuperar pontos e confiança no plantel, numa competição que se tem revelado exigente para os poveiros. A escolha do novo treinador surge no seguimento de resultados que ficaram aquém das expectativas criadas no início da temporada, obrigando a estrutura do clube a repensar a liderança técnica da equipa.

    Foto: Varzim SC

    Clube histórico em busca de resposta

    O Varzim SC é um dos clubes com maior tradição no futebol português, tendo já competido em patamares superiores da modalidade. A atual passagem pela Liga 3 é encarada como um momento de reconstrução, no qual a aposta em André Pinto pretende ser um ponto de viragem para a equipa.

    A chegada do novo técnico deverá implicar ajustes na forma de trabalho e, eventualmente, na abordagem tática da equipa, à medida que se aproximam novos compromissos na prova. Os adeptos do Varzim aguardam agora pelos primeiros sinais de resposta dentro de campo, com a expectativa de que a mudança técnica se traduza numa melhoria efetiva dos resultados.

    André Pinto assume assim um desafio imediato, com a pressão de devolver ao Varzim SC a competitividade que o clube e os seus adeptos reclamam na Liga 3.

  • Champions League: Sporting faz história, FC Porto volta a expor fragilidades

    Champions League: Sporting faz história, FC Porto volta a expor fragilidades

    A segunda jornada trouxe sortes distintas para os portugueses, uma noite louca entre Manchester City e PSG, mais uma remontada do Real Madrid e muitos golos pela Europa.

    A segunda jornada da Liga dos Campeões voltou a confirmar que, neste nível, os erros custam caro. O Sporting saiu de Lens com uma grande vitória (0-2), enquanto o FC Porto perdeu por 3-2 em Sevilha e voltou a deixar dúvidas sobre a capacidade da equipa de Francesco Farioli para se impor perante adversários de um superior grau de exigência.

    Mais preocupante do que a derrota do FC Porto foi a forma como os dragões voltaram a demonstrar dificuldades quando precisam de ter bola, controlar o ritmo e assumir o jogo diante de oposição de nível Champions.

    Foto: FC Porto

    Farioli tem também outro problema: este FC Porto não parece ter profundidade suficiente para promover grandes rotações sem perder qualidade. E aqui convém perceber rapidamente uma diferença fundamental: a Champions não é a Liga Europa. Neste patamar, mexer demasiado na equipa e entregar iniciativa ao adversário pode ser fatal.

    Os dragões ainda conseguiram competir e criar problemas ao adversário, mas voltaram a revelar uma equipa muito mais confortável a reagir do que a mandar. E isso, na Liga dos Campeões, poderá tornar-se um problema recorrente.

    Em França, cenário completamente diferente. O Sporting conquistou uma excelente vitória em Lens e voltou a demonstrar capacidade para transportar o seu futebol para o palco europeu.

    E houve história: Luis Suárez tornou-se o melhor marcador de sempre do Sporting na Liga dos Campeões. Mais um capítulo numa passagem estratosférica por Alvalade.

    Luis Suárez Foto: Sporting CP

    Os leões não foram apenas competitivos. Foram uma equipa madura, capaz de perceber os diferentes momentos do encontro e de responder às exigências de uma deslocação complicada. Uma diferença importante em relação àquilo que se viu do lado do FC Porto.

    Em Manchester, Manchester City e PSG protagonizaram uma loucura de seis golos, com os franceses a vencerem por 4-2.

    Foto: PSG

    E até parece pouco. O jogo poderia perfeitamente ter terminado 5-7, tal foi a quantidade de oportunidades, e criatividade ofensiva dos dois lados. Foi provavelmente o melhor espetáculo da jornada e uma demonstração do potencial ofensivo de dois candidatos a chegar longe.

    Quem também continua imparável é o Barcelona. Os catalães venceram na Turquia e já levam uns impressionantes 43 golos em dez jogos oficiais. No centro do espetáculo continua Lamine Yamal, agora com a Bola de Ouro nas mãos e cada vez mais influente no futebol ofensivo blaugrana.

    Foto: FC Barcelona

    Se há algo que já deixou de surpreender na Champions são as remontadas do Real Madrid. Em Roma, os merengues perdiam por 3-1 já perto do final e acabaram a vencer por 3-4.

    Arda Güler foi fundamental na reação madrilena, enquanto a equipa italiana pagou muito caro uma abordagem deficiente às bolas paradas defensivas, sofrendo 3 golos na sequência de 3 (!) cantos em menos de 10 minutos. Mais uma noite para acrescentar à coleção quase inexplicável do Real Madrid nesta competição.

    Foto: Real Madrid

    Uma das surpresas chegou da Noruega, onde o Bayern Munique empatou com o Viking. Os bávaros fizeram uma péssima primeira parte, reagiram depois do intervalo, operaram a reviravolta no marcador, mas acabaram condicionados pela expulsão patética de Michael Olise, desperdiçando pontos inesperados.

    Foto: FC Bayern

    Também não faltou espetáculo em San Siro, com o Club Brugge a vencer por 4-3 num dos jogos mais emocionantes da ronda. A equipa belga joga um futebol bastante atractivo, e conseguiu uma vitória muito prestigiante, com Nicòlo Tresoldi (actualmente um dos avançados de maior cartel na Europa) em grande evidência, ao completar um hat-trick.

    Foto: Club Brugge

    Em Linz houve ainda mais: LASK 3-6 Liverpool, com o reforço sonante Bradley Barcola a assinar igualmente um hat-trick e a assumir o protagonismo numa noite de nove golos.

    Foi apenas a segunda jornada, mas a Champions já deixou vários avisos. O Sporting parece cada vez mais confortável neste palco; o FC Porto precisa rapidamente de encontrar soluções para competir de outra forma contra adversários deste nível.

    E lá por cima, Barcelona e PSG começam a mostrar os dentes, e a assumirem-se como os actuais alvos a abater por parte dos outros adversários .

    Ainda estamos no início da competição, mas começam a surgir tendências que merecem atenção.

    Porque a Liga dos Campeões não se ganha em outubro. Mas pode começar a perder-se muito antes de chegar a primavera.

  • Liga 3: e quem segura Bruninho?

    Liga 3: e quem segura Bruninho?

    Bruninho tem sido um dos nomes em destaque na Liga 3 nesta temporada, com exibições que começam a chamar a atenção fora do campeonato. A pergunta instala-se: até quando resistirá no patamar competitivo em que atua?

    A Liga 3 tem servido, uma vez mais, de montra para talentos que procuram dar o salto para competições mais exigentes, e o nome de Bruninho surge associado a essa narrativa. O jogador tem vindo a somar exibições consistentes, que o colocam entre as figuras mais faladas da prova nesta fase da época. Eleito o jogador do mês de agosto e setembro da Liga3.

    O desempenho do atleta não passa despercebido aos observadores do futebol português, numa altura em que a Liga 3 continua a afirmar-se como um terreno fértil para a deteção de jovens valores. A combinação entre regularidade e qualidade de jogo tem sido apontada como o principal trunfo de Bruninho, reforçando a ideia de que o seu percurso no clube atual poderá estar a aproximar-se de uma viragem.

    Interesse a crescer

    Ainda que não existam, para já, confirmações oficiais sobre propostas concretas, é frequente que jogadores em bom momento na Liga 3 despertem curiosidade de equipas de patamares superiores, incluindo emblemas da Liga 2 e, em casos mais raros, da Liga Betclic. A continuidade das boas exibições tende a funcionar como catalisador para negociações, sobretudo a meio de época, período em que vários clubes procuram reforçar os seus plantéis.

    Expectativa em torno do futuro

    Para já, o foco mantém-se no rendimento dentro de campo, com o jogador a contribuir para os objetivos da sua equipa na Liga 3. Contudo, a pergunta que o título desta notícia coloca — e quem segura Bruninho? — reflete a perceção crescente de que uma saída a curto ou médio prazo não deverá ser descartada, caso o nível de exibições se mantenha elevado.

    O Craques vai continuar a acompanhar a evolução do caso, nomeadamente eventuais movimentações de mercado que possam surgir nas próximas semanas.

  • Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

    Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

    O caso Cristiano Ronaldo mostra que falar diretamente para milhões não significa controlar aquilo que milhões vão entender. Entre atletas, media, instituições e adeptos, a disputa já não é apenas por quem comunica – é por quem consegue definir o significado do que aconteceu.

    Cristiano Ronaldo não estava a falar. Mas quase toda a gente estava a falar sobre Cristiano Ronaldo.

    Durante vários dias, o capitão da Seleção Nacional não explicou

    publicamente, em detalhe, as razões que o levaram a abandonar o estágio. Tinha deixado apenas uma promessa: a seu tempo, apresentaria a sua versão.

    O que se seguiu dificilmente pode ser descrito como silêncio.

    Houve notícias, declarações, informações atribuídas a diferentes fontes, interpretações, reações nas redes sociais e horas de comentário desportivo.

    Discutiu-se o futuro de Ronaldo na Seleção, a relação com Jorge Jesus, a posição da Federação Portuguesa de Futebol e as consequências de um episódio que rapidamente deixou de pertencer apenas ao espaço interno da equipa.

    E foi precisamente essa aparente contradição que me despertou uma pergunta: como pode existir tanto para dizer quando uma das principais vozes não está a falar?

    Quando uma voz se cala, outras ocupam o espaço

    O futebol mudou também na forma como os seus protagonistas comunicam.

    Durante décadas, um jogador dependia, em grande medida, da mediação Jornalística para fazer chegar publicamente a sua versão dos acontecimentos. Uma entrevista, uma conferência de imprensa ou declarações a um órgão de comunicação eram algumas das principais portas de acesso ao espaço público.

    Hoje, um atleta pode ser também o seu próprio canal.

    Cristiano Ronaldo é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação.

    Dispõe de plataformas próprias e de uma audiência global que lhe permite comunicar diretamente com milhões de pessoas, sem depender de um jornalista para publicar uma mensagem.

    Isso dá-lhe um enorme poder comunicacional.

    Mas torna também o seu silêncio relevante.

    Quando o Ronaldo anunciou a saída do estágio, deixou a expectativa de que explicaria posteriormente o sucedido. Sabia-se, portanto, que existia uma versão do principal protagonista ainda por conhecer.

    A informação disponível estava incompleta. A comunicação, porém, não parou.

    Jorge Jesus continuou a ser questionado. A Federação comunicou. Outros jogadores responderam sobre o tema. Os media procuraram reconstruir acontecimentos, contextualizar declarações e antecipar consequências.

    Comentadores interpretaram aquilo que era conhecido — e também aquilo que permanecia por explicar.

    Uma voz estava temporariamente ausente. As restantes ganharam espaço.

    É por isso que o silêncio de uma figura altamente mediática não deve ser confundido com ausência de comunicação. Quando alguém deixa de ocupar o seu espaço comunicacional, esse espaço pode ser ocupado por outros.

    Do facto ao “diz que disse”

    Talvez por já ter passado por uma redação desportiva, houve uma dimensão deste caso que me chamou particularmente a atenção: a origem da informação.

    Quem disse o quê? O que tinha sido combinado? Quem estava presente? O que era informação confirmada? O que resultava de uma determinada versão dos acontecimentos? E o que era já interpretação?

    É aqui que surge o conhecido “diz que disse”.

    Uma declaração direta não é o mesmo que uma informação atribuída a uma fonte. Uma informação atribuída não é o mesmo que uma interpretação. E uma interpretação não é o mesmo que especulação.

    Podem coexistir no espaço mediático. Não têm o mesmo estatuto.

    Esta distinção torna-se particularmente importante quando existe incerteza e, simultaneamente, uma enorme procura por informação nova.

    Interpretar não é, por si só, um problema. O jornalismo não se limita a reproduzir declarações: verifica, contextualiza, confronta versões e procura significado.

    A dificuldade surge quando, para quem recebe a informação, deixa de ser evidente onde termina aquilo que sabemos e começa aquilo que pensamos saber.

    E existe ainda um efeito multiplicador.

    Uma declaração produz uma notícia. A notícia provoca uma reação. A reação origina outra notícia. Essa notícia é novamente comentada. E, a determinada altura, a comunicação sobre o acontecimento torna-se também parte do próprio acontecimento.

    Quando Ronaldo decidiu falar

    A 6 de outubro, Cristiano Ronaldo apresentou publicamente a sua versão.

    Fê-lo através de uma declaração extensa, na primeira pessoa, em que descreveu a sua leitura dos acontecimentos, apontou aquilo que considerou terem sido quebras de palavra por parte do selecionador, assumiu responsabilidade pela decisão de abandonar o estágio, pediu desculpa e deixou em aberto a continuidade na Seleção.

    Há aqui uma distinção importante.

    Uma comunicação direta é uma fonte primária sobre aquilo que Ronaldo afirma ter acontecido. Não transforma automaticamente a sua versão numa descrição factual e incontestável de tudo o que aconteceu.

    Mas a forma escolhida para comunicar é, por si só, reveladora.

    Ronaldo não concedeu uma entrevista em que outro interveniente selecionaria as perguntas. Não entregou a exclusividade da sua versão a um jornal ou televisão. Publicou-a diretamente, de forma extensa e através dos seus próprios canais.

    Controlou o momento.

    Controlou as palavras.

    Controlou a versão que quis apresentar.

    Mas não controlou aquilo que aconteceu depois.

    A mensagem era a mesma. As notícias não.

    Assim que a declaração se tornou pública, começou um novo processo de mediação.

    Da mesma mensagem nasceram diferentes títulos e diferentes ângulos. Era possível destacar as alegadas quebras de palavra, o pedido de desculpas, a responsabilidade assumida pela saída, a relação com Jorge Jesus ou a disponibilidade para continuar a representar Portugal.

    Escolher é inevitável. Nenhum título consegue conter todas as dimensões de uma declaração daquela extensão.

    Mas escolher também é enquadrar.

    E é aqui que se encontra, para mim, uma das questões mais interessantes da comunicação no futebol contemporâneo:

    ter um canal próprio permite controlar a publicação da mensagem. Não permite controlar a sua circulação, seleção ou interpretação.

    Um jogador pode decidir exatamente aquilo que publica.

    Não decide qual será a frase escolhida para abrir um telejornal. Não determina o título de um jornal. Não controla que excerto terá maior circulação nas redes sociais. Não escolhe quem será convidado a interpretar as suas palavras. E, sobretudo, não determina a conclusão a que cada pessoa chegará depois de

    receber todas essas mensagens.

    A comunicação direta reduz uma forma de intermediação.

    Não elimina a mediação.

    Transforma-a.

    Quem controla, então, a narrativa?

    Talvez “controlar” não seja a palavra certa.

    Num ecossistema desta dimensão, nenhum ator determina sozinho o significado público de um acontecimento.

    Ronaldo controla aquilo que decide publicar. Jorge Jesus, aquilo que decide declarar — e aquilo a que decide não responder. A Federação gere a sua comunicação institucional. Os jornalistas verificam, selecionam, contextualizam e hierarquizam informação. Os comentadores interpretam. Os adeptos reagem, contestam e amplificam. As plataformas condicionam a velocidade e a dimensão com que tudo isto circula.

    Mais do que controlo absoluto, existe uma disputa pela capacidade de influenciar a forma como o acontecimento é entendido publicamente.

    Quem consegue definir qual é o problema central?

    Que palavras passam a dominar a discussão?

    A quem é atribuída responsabilidade?

    Que versão recebe maior visibilidade?

    Que fonte conquista maior credibilidade?

    E quem consegue colocar os outros na posição de terem de reagir ao que acabou de dizer?

    Durante alguns dias, esperou-se pela versão de Ronaldo. Quando chegou, a atenção deslocou-se quase imediatamente para Jorge Jesus: o que responderia o selecionador?

    Depois de confirmar que tinha lido o comunicado, Jesus optou por não desenvolver publicamente uma resposta ao seu conteúdo.

    A voz que estava ausente tinha regressado. Outra passava a falar menos.

    Mudavam as vozes. Mudava o silêncio.

    A narrativa continuava em movimento.

    O poder de comunicar não é o poder de determinar

    Este episódio ajuda também a questionar uma ideia recorrente: a de que as redes sociais permitiram às grandes figuras do futebol eliminar os intermediários.

    Eliminaram alguns. Transformaram outros.

    Um jogador já não precisa necessariamente de um jornalista para tornar pública uma mensagem. Mas essa mensagem continua a entrar num ecossistema composto por órgãos de comunicação, plataformas digitais, comentadores, organizações, outros protagonistas e milhões de utilizadores.

    Os atletas conquistaram uma autonomia comunicacional sem precedentes:

    podem publicar diretamente para audiências massivas sem pedir acesso ao espaço mediático tradicional.

    Isso é uma mudança profunda.

    Mas poder publicar não significa poder determinar.

    Talvez seja essa uma das grandes transformações da comunicação no futebol contemporâneo. O poder já não está apenas em conseguir falar diretamente para milhões de pessoas. Está também na capacidade de fazer prevalecer uma interpretação entre muitas outras que competem pela atenção do público.

    O jogo da narrativa

    Não é necessário escolher entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus para reconhecer o interesse comunicacional deste episódio.

    Esta análise também não pretende fazê-lo.

    O caso é interessante precisamente porque permite olhar para além da pergunta mais imediata — “quem tem razão?” — e fazer outra:

    como se constrói publicamente aquilo que entendemos que aconteceu?

    Os atletas podem ser simultaneamente protagonistas desportivos, marcas e canais de comunicação. Clubes e federações operam num ambiente em que já não controlam sozinhos o acesso público aos seus jogadores. Os jornalistas deixaram de deter a exclusividade sobre a publicação da voz dos protagonistas, mas continuam a ter um papel fundamental na verificação, seleção e contextualização dessa voz. E os adeptos já não são apenas destinatários: também comentam, contestam e amplificam significados.

    Talvez por isso uma das dimensões comunicacionalmente mais interessantes tenha surgido precisamente quando o seu maior protagonista não estava a falar.

    O silêncio não fez desaparecer a narrativa.

    Abriu espaço para que outros participassem na sua construção.

    Quando Ronaldo voltou a falar, também não a encerrou.

    Voltou a transformá-la.

    Porque, no futebol contemporâneo, nem todos os jogos se disputam dentro das quatro linhas.

    Alguns disputam-se no espaço público.

    E, nesses, a bola é a narrativa.

  • Cristiano Ronaldo quebra o silêncio e conta a sua versão da polémica com Jorge Jesus

    Cristiano Ronaldo quebra o silêncio e conta a sua versão da polémica com Jorge Jesus

    Capitão da Seleção Nacional explica os motivos que levaram à saída do estágio, aborda a relação com o selecionador e assume a responsabilidade pela decisão. Leia o comunicado na íntegra.

    “Tal como prometi, decidi contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional.

    Após o Mundial 2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa.

    No final da competição, logo no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu e insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu continuasse.

    Logo a seguir pediu que lhe desse a minha opinião sobre o nome do atual Selecionador e que ele estava a ponderar, a par de outros nomes que não me revelou.

    Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa.

    Por isso, no dia em que o atual Selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era a opção certa, como os resultados vão comprovando.

    Poucos dias depois recebi um primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas férias.

    Encontrámo-nos na Cidade do Futebol onde o meu clube fazia estágio de pré-temporada.

    O Selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo.

    Nessa altura colocou-me a hipótese de eu não viajar com a Seleção para Noruega e Dinamarca. Propôs-me que fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo antes do jogo do Dragão.

    Recusei de imediato esta proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo.

    O Selecionador acabou por concordar com a minha análise.

    Esta conversa foi acompanhada pelo Simão Coutinho, diretor Desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025.

    Na véspera do estágio começar o Selecionador deslocou-se a minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados em agosto foram mantidos.

    Joguei o jogo de Alvalade, e apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu País, ainda melhor.

    À hora de almoço do dia do jogo na Noruega um adjunto do selecionador do veio à mesa onde o grupo estava a almoçar e informou-me que o Selecionador me queria falar. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema.

    Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 min.

    O resto todos conhecem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado.

    O Selecionador tinha-me falhado com a sua palavra.

    No fim do jogo só queria que tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido. Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido.

    Passado 48 horas tivemos uma conversa, eu, o Selecionador e o Simão Coutinho uma vez que tinha sido ele a acompanhar as nossas conversas de Agosto.

    Foi um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro.

    Concordamos que só havia uma maneira de encerrar este “caso”: que o Selecionador repetisse o que acabara de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na Sala de Imprensa.

    O que foi combinado era simples: o Selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema, procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para jogar minutos nenhuns, que foi o Selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que se voltasse a acontecer não o faria.

    Acabamos essa reunião com o Selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão Coutinho, sempre.

    A pedido do selecionador, decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos.

    Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao Selecionador, tal como ele havia solicitado.

    A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.

    As notas que validei eram as seguintes:

    “Acho importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca:

    1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa.

    2. Sei o quanto ele vive e Ama a Seleção e o peso que tem no Mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos.

    3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.

    4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.

    5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.

    6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.

    7. Para encerrar o assunto: Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também.

    8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”

    Nenhuma destas notas dizia, portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa.

    Era a segunda vez, que me estava a faltar à palavra dada.

    Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me digam a verdade.

    Aliás, numa conversa que mantive com o Presidente da FPF e com o Selecionador na manhã do dia dessa conferência de imprensa, podem confirmar seguramente, reafirmei que se não me quisessem ali mo dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado.

    Lembro-me como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional.

    Nunca, em nenhum momento me intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito é melhor ou pior o que me propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali.

    Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha.

    Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.

    A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos.

    A este propósito, tenho ouvido muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que a Federação me quer dar essa oportunidade.

    Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.

    Posso prometer a todos os meus fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou mais jogos de despedida, haverá tempo para isso.

    Mas quando penso na seleção o que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu Pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais faria por clube algum.

    Portanto se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.

    Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.

    Cristiano Ronaldo

  • O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de todos os tempos. Isso não está em discussão. É o maior marcador da história da Seleção, o jogador com mais internacionalizações e a figura que durante duas décadas carregou consigo boa parte dos sonhos de um país. Precisamente por tudo isso, aquilo que aconteceu na Dinamarca é ainda mais difícil de compreender.

    O capitão abandonou o barco.

    Cristiano Ronaldo

    Não depois de Portugal ser eliminado. Não por lesão. Não no final de uma competição. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional na véspera de um jogo oficial frente à Dinamarca, depois de ter ficado no banco diante da Noruega e de Jorge Jesus ter deixado claro que Gonçalo Ramos seria o titular no encontro seguinte. A Federação confirmou a saída e o próprio jogador anunciou que, “a seu tempo”, explicaria aos portugueses as razões da decisão.

    Pode existir muito contexto ainda por conhecer. Pode haver conversas privadas que nunca chegaram ao domínio público. E Cristiano terá naturalmente direito à sua versão.

    Mas existe um facto indesmentível que nenhuma explicação futura poderá apagar: quando os seus companheiros se preparavam para representar Portugal, o capitão decidiu chamar o seu avião privado, e ir embora. E isso é inadmissível.

    O nosso melhor jogador de todos os tempos, mas que teve um comportamento de menino mimado, e que agora tem o beneplácito incompreensível de Jorge Jesus e de Pedro Proença para que possa regressar à Seleção quando assim o entender, sendo que estes protagonistas apenas disseram que foi um “mal-entendido” e que são problemas que se resolvem rápido. Parece uma piada de mau gosto ou algo que nos remete aos tempos da escola preparatória.

    Jorge Jesus abriu explicitamente a porta: se Cristiano quiser regressar, poderá fazê-lo. Pedro Proença também classificou a situação como um mal-entendido e defendeu serenidade na resolução do caso.

    Jorge Jesus

    É aqui que a gestão do episódio se torna difícil de compreender. Porque representar Portugal não pode funcionar como uma porta giratória cuja utilização depende da vontade de um jogador. Nem sequer quando esse jogador se chama Cristiano Ronaldo. Sobretudo quando falamos do capitão.

    A braçadeira não é apenas uma homenagem ao passado. Também representa responsabilidade no presente.

    E um capitão é precisamente aquele que não abandona o barco quando deixa de ocupar o lugar que gostaria de ocupar nele.

    Nas horas seguintes surgiu uma narrativa diferente através de pessoas próximas de Ronaldo. Edu Aguirre, jornalista espanhol e amigo do internacional português, afirmou que Cristiano se sentiu “traído” por Jorge Jesus. Segundo essa versão, teria existido uma reunião entre jogador, selecionador e presidente da FPF na qual Jesus reconhecera um erro na gestão do episódio da Noruega e teria prometido um pedido de desculpas público. Esse pedido nunca aconteceu.

    Mais tarde, o próprio Jorge Jesus negou que tivesse pedido desculpa ou prometido fazê-lo publicamente, contrariando diretamente a narrativa divulgada pelo círculo próximo do jogador.

    Importa estabelecer essa diferença: não sabemos o que foi dito naquela reunião privada. Sabemos aquilo que Edu Aguirre afirmou ter acontecido e sabemos que Jesus posteriormente o negou.

    Mas a ideia de que o selecionador deveria apresentar publicamente desculpas ao jogador por ter tomado uma decisão técnica, representaria, a confirmar-se, uma infame inversão de papéis.

    Jorge Jesus pode ter gerido mal Cristiano Ronaldo. Pode ter errado ao colocá-lo durante largos minutos a aquecer sem depois o utilizar, apesar de que a sua decisão foi completamente legitimada pelo facto de Portugal estar a ganhar por apenas um golo de diferença diante da Noruega, uma seleção muito forte e que tem jogadores de muita qualidade.

    Jesus pode ter comunicado melhor ou pior. Tudo isso é discutível. O princípio não é. O selecionador escolhe quem joga. O jogador aceita.

    Jorge Jesus

    Se deixarmos de conseguir estabelecer algo tão elementar numa Seleção Nacional, então o problema deixou de ser Ronaldo, Jesus ou qualquer outro nome. Passou a ser institucional.

    Depois veio outro episódio desnecessário. Cristiano Ronaldo colocou um “gosto” numa publicação que reproduzia declarações de Felipe Melo em sua defesa, numa intervenção que estabelecia uma comparação entre a forma como Portugal tratava Cristiano e a forma como a Argentina tratava Lionel Messi e que atingia também os próprios jogadores portugueses, defendendo que nenhum deles estava sequer próximo do nível do capitão.

    Um simples “gosto” numa rede social não deve ser transformado numa declaração oficial. Mas também não existe necessidade de fingir que não significa absolutamente nada.

    Sobretudo quando acontece no meio de uma crise desta dimensão e quando os homens indiretamente diminuídos naquela publicação são os mesmos companheiros que Ronaldo acabara de deixar para trás na Dinamarca.

    E foram precisamente esses jogadores que responderam da única forma que verdadeiramente interessava, fazendo o que melhor sabem: jogando.

    Enquanto se discutia Ronaldo, nasceu uma equipa. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2, e esse resultado deve ter azedado muitas das refeições dos profetas da desgraça e daqueles portugueses que são apoiantes do Cristiano Ronaldo FC, e não da seleção nacional, a equipa de todos nós.

    Portugal

    Depois venceu novamente a Noruega, desta vez no Dragão, por 2-1, garantindo antecipadamente o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Jorge Jesus termina os primeiros quatro encontros como selecionador com quatro vitórias em quatro jogos.

    E talvez esta seja a parte mais importante de toda esta história. Portugal não colapsou sem Cristiano Ronaldo. Portugal jogou como equipa.

    Vitinha assumiu o controlo dos ritmos. Bruno Fernandes encontrou liberdade para acelerar e procurar zonas de criação. João Félix reapareceu como uma peça capaz de ligar setores e encontrar espaços interiores. E Gonçalo Ramos recebeu finalmente aquilo que há demasiado tempo merecia na Seleção: minutos.

    Gonçalo Ramos

    Não foram minutos residuais. Não entrou quando faltavam apenas dez minutos. Não esperou eternamente atrás de uma hierarquia construída sobre aquilo que aconteceu no passado.

    Teve minutos para ser o ponta de lança de Portugal. E respondeu. Só alguém que perdeu toda e qualquer noção de futebol ou impregnado de um fanatismo doentio, poderá admitir que neste momento, Gonçalo Ramos não é o melhor avançado português.

    Gonçalo oferece à equipa algo que vai muito além do golo. Pressiona centrais, condiciona a primeira fase de construção adversária, ataca a profundidade, participa no jogo associativo da equipa, fixa defesas e cria espaço para as entradas dos médios e dos jogadores que partem dos corredores.

    Neste momento, é o melhor avançado português da atualidade e Jorge Jesus teve a coragem que Roberto Martínez demasiadas vezes não demonstrou: escolher em função daquilo que considera melhor para a equipa e não do peso de um nome, ou melhor dizendo, de uma marca global.

    Quatro jogos ainda são pouco para conclusões definitivas, mas já permitem encontrar uma identidade.

    Portugal joga mais depressa. Há menos circulação pela circulação. Vitinha continua a oferecer pausa e critério, mas existem mais soluções à frente da bola.

    Bruno Fernandes procura constantemente o passe vertical. Félix aproxima-se de Ramos e aparece entre linhas. Os laterais projetam-se e dão largura e profundidade, enquanto os jogadores da frente trocam frequentemente de posição.

    Quando perde a bola, Portugal procura recuperá-la imediatamente. É um futebol de risco. E esse risco também mostrou aquilo que precisa de ser corrigido.

    A Seleção continua demasiado vulnerável quando a primeira pressão é ultrapassada. A projeção simultânea de vários jogadores deixa os centrais expostos e aparecem espaços entre a linha média e a defensiva que adversários de maior qualidade poderão explorar com muito mais crueldade.

    Jorge Jesus não precisa de retirar a ambição à equipa. Precisa de lhe acrescentar controlo.

    Porque esta Seleção tem talento suficiente para assumir jogos sem precisar de viver permanentemente no limite.

    Nenhum nome pode ser maior do que Portugal, seja a personalidade mais seguida e idolatrada do mundo, ou não. Seria absurdo apagar Cristiano Ronaldo da história da Seleção por causa de uma semana.

    Não se apagam mais de duas décadas. Não se apagam os golos. Não se apaga o Europeu de 2016. Não se apaga tudo aquilo que fez pela camisola portuguesa.

    Mas também seria igualmente absurdo utilizar essa história para desculpar tudo aquilo que fizer daqui para a frente.

    Gratidão não significa submissão. Cristiano Ronaldo merece respeito pelo que deu a Portugal. Portugal não lhe deve, em troca, o direito vitalício de decidir quando joga, quando fica, quando parte ou quando regressa.

    E talvez a grande ironia destes últimos dias seja precisamente essa. No momento em que o capitão abandonou o barco, esperava-se uma tempestade. Em vez disso, Portugal continuou a navegar.

    Cristiano Ronaldo

    Ganhou na Dinamarca. Ganhou à Noruega. Apurou-se. Gonçalo Ramos marcou. João Félix brilhou. Vitinha ditou os tempos de jogo. Bruno Fernandes criou. E Jorge Jesus começou a construir uma equipa em que o coletivo parece finalmente voltar a estar acima das individualidades.

    Cristiano Ronaldo poderá regressar. Provavelmente regressará. E, se o fizer, continuará a ser uma lenda do futebol português.

    Mas deveria regressar com uma certeza muito simples: a braçadeira pode pertencer ao capitão. O barco pertence a Portugal.

  • Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

    Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

    Os três grandes perderam algumas das suas maiores figuras, o Braga despediu-se de dois pilares e os reforços chegaram em força. De Alvalade à Luz e do Dragão ao Minho, o mercado de 2026 redesenhou alguns dos principais candidatos e deixou o futebol português com novas caras para descobrir.

    O mercado de transferências de verão de 2026 dificilmente passará despercebido. Benfica, FC Porto e, sobretudo, Sporting sofreram alterações profundas nos respetivos plantéis, perderam jogadores de enorme influência e responderam com investimentos e apostas importantes. O SC Braga não escapou à tendência e viu partir dois dos grandes protagonistas da temporada passada, enquanto vários clubes fora do habitual quarteto da frente também aproveitaram a janela para encontrar reforços interessantes.

    Mais do que uma sucessão de negócios milionários, este foi um mercado de mudança de referências. Jogadores que pareciam indissociáveis das respetivas equipas partiram, jovens talentos deram novos passos nas carreiras e os principais clubes portugueses chegam a 2026/27 obrigados a construir novas hierarquias.

    Se existe um clube onde a palavra revolução se aplica sem exagero, é o Sporting.

    Francisco Trincão, Geovany Quenda e Morten Hjulmand já representavam três perdas de enorme dimensão. Trincão oferecia criatividade, desequilíbrio e produção ofensiva; Quenda era uma das maiores pérolas produzidas recentemente em Alcochete; e Hjulmand tinha-se transformado numa referência competitiva no meio-campo leonino. Mas o mercado ainda guardava mais despedidas.

    Pedro Gonçalves rumou à Fiorentina e Daniel Bragança ao Torino, aumentando significativamente a dimensão da transformação na equipa de Alvalade. Pote deixa para trás anos de golos, assistências e momentos decisivos, enquanto Bragança encerra, pelo menos por agora, uma ligação construída desde a formação e depois consolidada na equipa principal. O médio sai com 161 jogos pelo Sporting e três campeonatos nacionais conquistados.

    Não se tratou, portanto, simplesmente de substituir jogadores. O Sporting perdeu uma parte importante da identidade da equipa que construiu nos últimos anos.

    A resposta também passou pela maior transferência de sempre entre clubes portugueses. O internacional uruguaio Rodrigo Zalazar trocou o SC Braga pelo Sporting por 30 milhões de euros, depois de uma época em que somou 23 golos e oito assistências em 47 encontros. O uruguaio assinou até 2031 e chega para oferecer criatividade, intensidade, remate e chegada à área.

    Rodrigo Salazar – Foto Sporting CP

    O Sporting que inicia esta temporada é, inevitavelmente, muito diferente daquele a que nos habituámos. Perdeu talento, referências e vários jogadores identificados com o projeto, mas respondeu com uma remodelação ambiciosa. Nenhum dos candidatos ao título terá provavelmente um processo de reconstrução tão interessante para acompanhar.

    Também na Luz houve uma despedida particularmente significativa. António Silva (transferido para os ingleses do Bournemouth), deixou o Benfica ao fim de 11 anos ao serviço do clube, encerrando um percurso iniciado na formação e que o levou a tornar-se titular da equipa principal e internacional português.

    António Silva – Foto: Bournemouth

    Nas entradas, porém, as últimas horas trouxeram duas novidades importantes,  e acabaram definitivamente com uma das incógnitas deste mercado encarnado.

    Souffian El Karouani é jogador do Benfica. O lateral-esquerdo internacional marroquino, de 25 anos, chegou do Al-Qadisiyah por empréstimo até ao final da temporada, ficando os encarnados com opção de compra. É uma nova solução para um corredor onde o Benfica procurava aumentar a concorrência.

    Souffian El Karouani – Foto: SL Benfica

    Mas o nome que promete despertar maior curiosidade é Claudio Echeverri.

    O médio-ofensivo argentino de 20 anos foi oficialmente apresentado como reforço nesta quarta-feira e chega cedido pelo Manchester City até ao final de 2026/27, também com opção de compra de 21 milhões de euros. 

    Antiga jóia do River Plate, Echeverri passou ingloriamente na última temporada pelo Bayer Leverkusen e Girona e procura agora na Luz o espaço necessário para transformar enorme potencial em afirmação definitiva no futebol europeu.

    Um argentino talentoso, criativo e formado no River Plate chegará sempre ao Benfica acompanhado por expectativas especiais. Echeverri sabe-o: na apresentação lembrou os compatriotas que tiveram sucesso na Luz e recebeu precisamente a camisola 30 anteriormente utilizada por Nicolás Otamendi.

    Claudio Echeverri – Foto: SL Benfica

    No Dragão, a saída com maior significado é inevitavelmente a de Rodrigo Mora para os italianos da Roma. Um dos melhores produtos da formação dos últimos anos do quadro azul e branco e um dos maiores talentos portugueses da sua geração, o médio ofensivo conquistou rapidamente protagonismo na equipa principal. A partida significa não apenas perder qualidade imediata, mas também abdicar de um jogador com enorme margem de progressão e valorização, que nunca encaixou na rigidez táctica do técnico italiano Francesco Farioli.

    Rodrigo Mora – Foto: AS Roma

    O FC Porto respondeu igualmente com uma remodelação que trouxe novas soluções para diferentes setores. João Souza chegou proveniente do Tottenham para o lado esquerdo da defesa, enquanto o ponta-de-lança internacional mexicano Santi Giménez representa uma nova referência para o ataque portista, tentando voltar aos níveis de confiança e rendimento que outrora fizeram com que tivesse estado na agenda de clubes como o Real Madrid.

    João Souza – Foto: FC Porto
    Santiago Giménez – Foto: FC Porto

    Há ainda o regresso de Fofana (elemento essencial na conquista do campeonato na época transacta), aumentando as alternativas à disposição da equipa técnica.

    E às movimentações já conhecidas juntou-se Gabriel Mec. O jovem talento brasileiro de 18 anos deixa o Grêmio para reforçar os dragões por 11 milhões de euros, numa aposta que olha claramente também para o futuro. 

    Mec enquadra-se num perfil que o FC Porto conhece bem: talento sul-americano ainda numa fase precoce da carreira, contratado não apenas pelo que já oferece, mas sobretudo pelo jogador em que poderá transformar-se. Veremos é se a sua imprevisibilidade e qualidade técnica serão entendidas e respeitadas por Farioli, que não deve voltar a cometer o erro de querer formatar jogadores.

    Gabriel Mec – Foto: FC Porto

    Entre a perda de Rodrigo Mora e a chegada de jogadores com características bastante diferentes, o FC Porto também entra fortemente exigido por voltar a disputar a Champions League na nova temporada, e com uma identidade ofensiva por descobrir.

    Se os três grandes tiveram de lidar com despedidas importantes, o SC Braga perdeu dois protagonistas absolutos da excelente temporada anterior: Lukáš Horníček e Rodrigo Zalazar.

    Horníček afirmou-se como uma das grandes figuras arsenalistas antes de partir para o Newcastle. O internacional checo assinou um contrato válido por cinco temporadas com o clube da Premier League, depois de se valorizar de forma extraordinária em Braga.

    Zalazar representava outra dimensão do jogo arsenalista. Os 23 golos e oito assistências em 47 partidas ajudam a explicar aquilo que Carlos Vicens perdeu com a transferência do uruguaio para Alvalade.

    Perder guarda-redes e médio ofensivo no mesmo verão seria sempre um desafio, sobretudo quando ambos estavam perfeitamente estabelecidos como referências.

    Ainda assim, o Braga tem mostrado capacidade para se reinventar. E jogadores como Diego Rodrigues, decisivo no dérbi minhoto, começam já a procurar o espaço deixado por quem partiu.

    Diego Rodrigues – Foto: SC Braga

    As movimentações interessantes não ficaram limitadas aos clubes de maior poder financeiro.

    O Famalicão, por exemplo, voltou a procurar talento jovem no estrangeiro e contratou Georgios Koutsias. O avançado grego chegou do Lugano numa transferência avaliada em cerca de €2,5 milhões e acrescenta mais um nome interessante a um plantel famalicense habituado a apostar em jogadores com margem de valorização.

    Georgios Koutsias – Foto: FC Famalicão

    É precisamente esta capacidade de procurar talento em mercados diferentes que continua a tornar o campeonato português particularmente interessante. Para muitos destes jogadores, Portugal representa simultaneamente uma oportunidade competitiva e uma montra para os principais campeonatos europeus.

    Todos os anos partem protagonistas. Todos os anos parece necessário encontrar os próximos. Portugal continua a perder estrelas, mas continua a encontrá-las Talvez seja esta a melhor conclusão possível depois de um verão tão agitado.

    Trincão, Quenda, Hjulmand, Pote e Daniel Bragança deixaram o Sporting. António Silva saiu do Benfica. Rodrigo Mora despediu-se do FC Porto. Horníček e Zalazar abandonaram Braga.

    São jogadores de perfis e momentos de carreira diferentes, mas todos tinham influência significativa nas respetivas equipas. E, no entanto, chegam outros. Tal como a vida, o futebol é feito de ciclos.

    Zalazar muda para um candidato ao título e assume um novo desafio em Alvalade. Echeverri aterra na Luz carregado de talento e expectativa. El Karouani aumenta as opções encarnadas. Santi Giménez procura golos no Dragão e Gabriel Mec representa uma aposta portista no futuro. Koutsias tenta ser o próximo jovem estrangeiro a utilizar Portugal como palco de afirmação.

    É um ciclo que o futebol português conhece demasiado bem. Vendê-los quando se tornam estrelas. Encontrar outros antes de o serem.

    O verão de 2026 levou algumas das caras mais reconhecíveis do nosso campeonato e obrigou os principais clubes a mudar. Uns parecem ter encontrado substitutos imediatos; outros precisarão de tempo para reconstruir aquilo que perderam.

    Os milhões já mudaram de mãos. Os contratos estão assinados e as fotografias com as novas camisolas já foram tiradas. Agora fala o relvado.

  • No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    Sai de cena com 207 jogos, 125 golos e todos os grandes títulos conquistados. Mas o maior triunfo de Lionel Messi talvez tenha sido outro: transformar um país que questionou a sua identidade num país que acabou rendido aos seus pés.

    Durante anos, Lionel Messi teve de responder a uma acusação particularmente cruel: não ser suficientemente argentino.

    Diziam que era espanhol. Que não cantava o hino. Que não sentia a camisola como Maradona. Que aquilo que fazia pelo Barcelona nunca conseguia fazer pela Argentina. Saiu de Rosario aos 13 anos e, para alguns, essa distância geográfica transformou-se numa espécie de pecado original que nenhuma estelar exibição parecia conseguir apagar.

    A ironia é extraordinária: Messi podia realmente ter representado a Espanha.

    Quando começava a destacar-se nas camadas jovens do Barcelona, a possibilidade foi-lhe colocada. O próprio confirmou recentemente que existiram aproximações espanholas e que, pelas circunstâncias da sua formação, poderia ter acontecido. Mas havia uma coisa que nunca esteve verdadeiramente em discussão para Leo e sempre o transmitiu ao seu recém-falecido pai: «Papá, quero jogar pela Argentina.»

    E escolheu a Argentina antes de ela o escolher verdadeiramente.

    Messi passou os últimos anos da sua juventude em Barcelona, mas há coisas que a distância nunca conseguiu levar.

    O miúdo argentino que chegou à Catalunha continuou a falar como um rosarino. O castelhano nunca perdeu aquela musicalidade tão peculiar da Argentina, nem os seus “vos”, os “tenés”, os “querés”.

    Continuou ligado a Rosario, ao mate, aos churrascos, à família e aos amigos de infância. Uma reportagem da TIME já sublinhava, em 2012, algo particularmente simbólico: depois de tantos anos em Espanha, o sotaque de Messi praticamente não tinha mudado.

    Foto: CHRISTOPHER MORRIS . VII FOR TIME

    Mesmo assim, teve de passar anos a provar de onde era.

    Talvez porque os argentinos nunca o tinham visto crescer diante deles. Maradona tinha sido Argentinos Juniors, Boca Juniors, rua, bairro, Buenos Aires. Messi cresceu futebolisticamente do outro lado do Atlântico. Quando a Argentina começou verdadeiramente a conhecê-lo, o Barcelona já começava a perceber que tinha encontrado algo extraordinário.

    E isso criou uma distância que Messi demoraria anos a vencer.

    Quanto melhor era em Barcelona, maior parecia tornar-se a dívida imaginária com a seleção.

    Se fazia três golos em Espanha, perguntava-se por que não fazia o mesmo pela Argentina. Se sorria no Camp Nou e aparecia sério com a Albiceleste, dizia-se que não sentia o mesmo. Se não cantava o hino, questionava-se o patriotismo.

    E havia sempre a comparação impossível com Diego Armando Maradona. Messi não tinha apenas de ser Messi. Para uma parte do país, tinha também de ser Diego.

    AMAR ABDALLAH DALSH / REUTERS

    A Argentina chegou à final do Mundial de 2014 e perdeu em detalhes para a Alemanha. Messi ficou a centímetros daquilo que lhe exigiam.

    Depois perdeu a Copa América de 2015. E voltou a perdê-la em 2016, contra o mesmo adversário, e ambas após desempate por grandes penalidades.

    Nessa noite, diante do Chile, falhou uma grande penalidade e desabou. As lágrimas de Messi talvez tenham sido a resposta mais evidente a todos aqueles que durante anos disseram que aquela camisola não lhe doía. Doía-lhe tanto que decidiu deixá-la.

    Aos 29 anos anunciou a saída da seleção. Estava esgotado de perder, mas talvez também de ser permanentemente julgado por um país ao qual nunca conseguira demonstrar suficientemente que pertencia.

    Regressou pouco depois. E essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes de toda a sua carreira.

    A segunda metade da história seria completamente diferente. A própria dimensão da carreira internacional de Messi depois dos 30 anos é extraordinária: 95 internacionalizações, 70 golos e uma Argentina que passou das derrotas sucessivas para uma era de domínio sob o comando de Lionel Scaloni (que havia sido companheiro de Messi na selecção enquanto jogador), conquistando duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial.

    A Copa América de 2021 mudou tudo.

    Em 2021, Messi conquistou finalmente um grande título pela seleção principal, num Maracanã despido (devido à pandemia), e diante do arquirrival Brasil. Uma das imagens mais impactantes da sua carreira foi a dele a afastar os seus colegas que estavam a querer “picar” Neymar devido à rivalidade histórica que há entre argentinos e brasileiros, e fundir-se num sentido abraço com um dos seus melhores amigos no futebol e seu ex-companheiro no Barcelona.

    Também por isso, foi severamente criticado na Argentina. Como se o futebol fosse uma guerra, uma ideia completamente estapafúrdia.

    Seguiu-se a Finalíssima contra a campeã europeia Itália. Mas faltava a imagem que parecia perseguir toda a sua carreira: o troféu dourado de campeão do mundo.

    No Qatar, em 2022, Messi fez aquilo que durante anos lhe disseram que precisava de fazer para poder sentar-se definitivamente à mesa dos imortais do futebol. Marcou sete golos, foi eleito o melhor jogador do torneio e levantou o Mundial depois de uma final irrepetível e icónica diante da França.

    Campeonato do mundo – Foto: Reuters/Paul Childs

    E Peter Drury encontrou as palavras certas para um momento que parecia impossível de traduzir:

    “Lionel Messi conquistou o seu último cume. Lionel Messi apertou a mão ao paraíso. O menino de Rosario, Santa Fe, acaba de chegar ao céu e chegar a um patamar só dele: o de melhor de todos os tempos.”

    Talvez o mais bonito seja que Messi já não precisava daquele Mundial para provar que era argentino. Mas a Argentina talvez precisasse daquele Mundial para perceber definitivamente que Messi sempre tinha sido seu.

    Depois do Qatar desapareceram muitas das acusações. Já ninguém queria saber se cantava o hino (curiosamente depois de conquistar a taça mais desejada, Messi soltou-se e começou a ser dos mais sonoros ao entoá-lo). Barcelona deixou de ser utilizada contra ele. A comparação com Maradona deixou de funcionar como arma.

    Messi não substituiu Diego. A Argentina simplesmente abriu espaço para os dois.

    Agora os números ficam para a história. 207 jogos. 125 golos.

    Nenhum argentino vestiu mais vezes aquela camisola. Nenhum marcou mais golos por ela. Javier Mascherano, segundo em internacionalizações, ficou pelos 147 jogos. Gabriel Batistuta, durante tanto tempo referência goleadora do país, terminou com 56 golos. Messi despede-se também como recordista sul-americano de jogos e golos por uma seleção.

    Conquistou um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Campeonato do Mundo. Disputou seis Mundiais e três finais da maior competição de seleções.

    Mas talvez haja um número ainda mais bonito. 21 anos. Duas décadas a representar um país que primeiro o questionou, depois o exigiu, por vezes o maltratou e, finalmente, o passou a idolatrar.

    Lionel Messi despede-se aos 39 anos. E há uma espécie de justiça poética na forma como tudo termina.

    O menino que podia ter escolhido Espanha, escolheu a Argentina. O homem acusado de não parecer argentino nunca perdeu a maneira argentina de falar.

    O homem acusado de não sentir a camisola, chorou compulsivamente por ela. Deu tudo de si em todos os momentos, tal como ele mencionou na sua carta emocionante de despedida à selecção na rede social Instagram:

    “«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção.Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».”

    O homem que disseram não conseguir ganhar pela Argentina, ganhou tudo. Caiu várias vezes, levantou-se outras tantas. Uma história digna do melhor dos documentários ou filmes autobiográficos de Hollywood.

    E aquele a quem durante tantos anos perguntaram se conseguiria ser como Maradona acabou por não precisar de ser ninguém além de Lionel Andrés Messi.

    No Qatar, Peter Drury disse que o menino de Rosario tinha chegado ao céu.

    Quatro anos depois, sabemos que não voltou de lá. A Argentina demorou a aceitá-lo como seu. Messi passou uma vida inteira a provar que nunca tinha sido de outro lugar.

    https://www.instagram.com/reel/DctYV2qt6S5/?igsi=ZjQxY3JwYW56YnN6

  • Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    A prata de Camila Rebelo foi o ponto mais alto da participação portuguesa, mas as inúmeras finais, recordes e excelentes classificações demonstraram que a natação nacional atravessa um dos momentos mais promissores da sua história

    Estes Europeus de Natação foram a confirmação de uma geração que começa a afirmar-se de forma consistente entre a elite europeia. A comitiva nacional regressou a casa com apenas uma medalha, mas dificilmente poderia pedir muito mais à maioria dos seus atletas. Entre recordes nacionais, presenças em finais e excelentes classificações, ficou a sensação de que a natação portuguesa continua claramente em crescimento.

    O grande destaque português pertenceu naturalmente a Camila Rebelo. A nadadora conquistou uma brilhante medalha de prata nos 200 metros costas, oferecendo a Portugal o único pódio da competição, e voltou ainda a confirmar a sua enorme consistência ao alcançar outra final europeia, desta vez nos 100 metros costas. Mais do que a medalha, Camila confirmou definitivamente o estatuto de uma das melhores especialistas europeias da disciplina.

    Camila Rebelo foto:FPN

    Se Camila foi a medalha, Francisca Martins foi talvez o maior símbolo da profundidade da equipa portuguesa. A jovem nadadora esteve presente em quatro finais europeias (!) – 200 metros livres, 400 metros livres, 800 metros livres e estafeta de 4×200 metros livres — terminando num extraordinário quarto lugar nos 400 metros livres e com recorde nacional (4.06.93), resultado que confirma a sua afirmação entre a elite continental.

    Também Diogo Ribeiro voltou a demonstrar porque continua a ser um dos maiores talentos da natação portuguesa. O olímpico terminou em quinto lugar nos 50 metros mariposa e estabeleceu um novo recorde nacional dos 50 metros livres, com 21,72 segundos, ficando a apenas uma centésima de segundo do quinto classificado. Uma margem mínima que ilustra bem o equilíbrio do mais alto nível europeu.

    Diogo Ribeiro foto:FPN

    Entre os restantes portugueses, merece igualmente destaque Vasco Morgado, que alcançou as meias-finais dos 200 metros mariposa, continuando a afirmar-se entre os jovens nadadores nacionais com maior potencial.

    Portugal também voltou a mostrar evolução na natação artística. A seleção nacional alcançou um meritório sétimo lugar no Esquema Acrobático, graças à prestação de Daniel Ascenso, Elisabete Fortunato, Joana Rosa, Lara Botelho, Lara Rolo, Maria Fonseca, Marta Abreu e Rodrigo Carvalho, que apresentaram uma rotina consistente e tecnicamente muito exigente, confirmando o crescimento da modalidade.

    A participação portuguesa ficou ainda enriquecida pelos excelentes resultados da seleção paralímpica. Marco Meneses conquistou duas medalhas de bronze, nos 50 e 100 metros livres da classe S11, enquanto Susana Veiga e Diogo Cancela voltaram igualmente a marcar presença nas finais das respetivas categorias (S9 e S8), demonstrando a elevada competitividade da natação adaptada portuguesa.

    Se Portugal apresentou argumentos muito positivos, o panorama internacional ofereceu algumas das melhores histórias do campeonato.

    A italiana Simona Quadarella voltou a demonstrar porque continua a ser uma das grandes referências da natação mundial ao conquistar um extraordinário triplete nos 400, 800 e 1500 metros livres, dominando por completo as provas de fundo.

    Simona Quadarella Photo Courtesy:Giorgio Scala/DeepBlueMedia

    Também David Popovici voltou a fazer história. O fenómeno romeno conquistou pela terceira vez consecutiva a dobradinha dos 100 e 200 metros livres, confirmando-se como um dos maiores especialistas da atualidade nas distâncias de velocidade prolongada, com apenas 21 anos.

    A Hungria foi outra das grandes protagonistas. Kristóf Milák voltou ao mais alto nível ao vencer os 100 metros mariposa, terminando a apenas três centésimos do recorde do mundo, além de contribuir para o ouro da estafeta húngara 4×100 metros livres. O compatriota Hubert Kós brilhou igualmente ao conquistar os títulos dos 200 metros costas, 200 metros estilos e da mesma estafeta.

    Um dos momentos mais emocionantes aconteceu nos 50 metros bruços. A experiente lituana Rūta Meilutytė, recordista mundial da especialidade, derrotou a grande favorita Benedetta Pilato por apenas um centésimo de segundo, demonstrando que continua perfeitamente capaz de competir ao mais alto nível.

    Mesmo limitado por uma lesão no adutor, Léon Marchand voltou a impressionar e a colocar Paris em efervescência. O francês foi obrigado a abdicar de várias provas, mas ainda conquistou os títulos dos 200 metros mariposa e dos 400 metros livres, ajudando igualmente a França a alcançar o bronze na estafeta 4×100 metros estilos.

    Léon Marchand foto: Salomon Micko Benrimoh

    Os Europeus ficaram também marcados por novos talentos. O húngaro Oliver Papai, com apenas 16 anos, deslumbrou nos 400 metros livres conquistando a medalha de prata, enquanto a britânica Amalie Smith, nascida igualmente em 2009, garantiu uma estupenda medalha de prata nos 400 metros estilos. Na mesma disciplina, a irlandesa Ellen Walshe confirmou o favoritismo ao vencer tanto os 200 como os 400 metros estilos.

    Outro dos momentos altos da competição surgiu nos 100 metros costas, onde o grego Apostolos Christou surpreendeu tudo e todos ao derrotar o recordista mundial Thomas Ceccon por apenas um centésimo de segundo, numa das finais mais emocionantes destes campeonatos.

    Os recordes também fizeram parte do espetáculo. A italiana Sara Curtis estabeleceu um novo recorde do mundo dos 50 metros costas, com 26,56 segundos, enquanto o alemão de apenas 19 anos Johannes Liebmann assinou uma das maiores exibições da competição ao vencer os 1500 metros livres em 14.26,79 minutos, melhorando em 13 segundos o seu recorde pessoal e retirando quase quatro segundos ao anterior recorde mundial pertencente a Bobby Finke desde os Jogos Olímpicos de Paris.

    No medalheiro, foi o Reino Unido quem terminou na liderança, graças a mais uma medalha de ouro do que a Itália, apesar de os italianos terem conquistado mais 17 (!) medalhas no total.

    Portugal regressa destes Campeonatos da Europa com apenas uma medalha, mas com muito mais do que isso. Regressa com finais, recordes, jovens em clara ascensão e a certeza de que a natação nacional nunca teve tanta qualidade distribuída por tantas disciplinas diferentes. E, tal como aconteceu no atletismo, talvez esse seja o melhor indicador de que o futuro continua a sorrir ao desporto português.