Categoria: Opinião

Nos nossos artigos de opinião apresentamos-te análises profundas, perspectivas únicas e reflexões de autor sobre os temas mais quentes do mundo desportivo.

  • Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

    Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

    Quatro medalhas, quatro disciplinas e a melhor participação portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista. Iúri Leitão voltou a vestir a camisola arco-íris, mas Xangai mostrou que há cada vez mais Portugal para além do seu maior nome.

    Durante muito tempo, cada medalha portuguesa num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista podia ser encarada como um acontecimento extraordinário. Em Xangai, Portugal começou a transformar o extraordinário em hábito. Uma medalha de ouro, uma de prata e duas de bronze fizeram de 2026 a melhor participação nacional de sempre na competição. Quatro pódios, o dobro do anterior máximo português numa única edição.

    O grande protagonista voltou a ser Iúri Leitão. O ciclista de Viana do Castelo sagrou-se campeão mundial de omnium, recuperando um título que já tinha conquistado em 2023. Vice-campeão olímpico da disciplina em Paris 2024 e campeão europeu em 2026, Leitão voltou a mostrar em Xangai por que razão se tornou uma das grandes referências internacionais do ciclismo de pista.

    E fê-lo com autoridade. O português começou o omnium a vencer o scratch, depois de ganhar uma volta ao pelotão, e terminou em terceiro tanto na corrida por tempo, como na eliminação. Chegou, por isso, à decisiva corrida por pontos na liderança. Fabio Van den Bossche ainda conseguiu ultrapassá-lo provisoriamente ao ganhar uma volta ao pelotão, mas Leitão respondeu da mesma forma e recuperou o comando. Terminou com 143 pontos, à frente do belga, segundo com 129, e do alemão Tim Torn Teutenberg, terceiro com 115.

    Iuri Leitão Foto: FPC

    Era o segundo título mundial de omnium da carreira e mais uma página de uma história que o próprio Iúri começou a escrever em 2023, quando se tornou o primeiro português campeão mundial de ciclismo de pista. Três anos depois, voltou ao lugar mais alto do pódio, e a sua emoção no fim da competição e quando ouvia o nosso hino, é bem revelador da importância que o ciclista vianense atribui a esta conquista.

    Mas o Mundial de Iúri Leitão ainda não tinha terminado. No último dia da competição, juntou-se a Ivo Oliveira para atacar o madison. Portugal chegou a liderar a prova e esteve na discussão das medalhas desde cedo, somando pontos nos sprints e conseguindo uma volta de avanço sobre o pelotão.

    A Dinamarca, porém, elevou a fasquia. Carl-Frederik Bevort e Lasse Leth conseguiram três voltas de avanço e terminaram com 88 pontos. Portugal continuou a lutar, pontuou nos quatro últimos sprints e segurou a medalha de prata com 67 pontos, deixando a Alemanha no bronze, com 52.

    Iuri Leitão e Ivo Oliveira Foto: FPC

    Mais do que outra medalha para Iúri, o resultado representou um novo marco para o ciclismo nacional: foi a primeira medalha portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de madison. Uma disciplina na qual Portugal já tinha conquistado o ouro olímpico em Paris 2024, então através de Iúri Leitão e Rui Oliveira.

    Iúri saiu, assim, de Xangai com duas das quatro medalhas portuguesas: ouro no omnium e prata no madison.

    Antes de Iúri subir ao lugar mais alto do pódio, já Maria Martins tinha mostrado que Portugal estava em Xangai para lutar por medalhas.

    A portuguesa foi a primeira representante nacional a entrar em competição e conquistou o bronze no scratch, terminando apenas atrás da neerlandesa Lorena Wiebes e da irlandesa Lara Gillespie. Foi a terceira medalha da carreira de Maria Martins em Campeonatos do Mundo, depois do bronze no scratch em 2020 e no omnium em 2022.

    Aos 27 anos, “Tata” voltou assim ao pódio mundial quatro anos depois e deu o primeiro sinal de uma semana que acabaria por se tornar histórica para Portugal.

    Maria Martins Foto: FPC

    Se o bronze de Maria Martins confirmou uma atleta habituada aos grandes palcos, o de Miguel Salgueiro teve um sabor diferente.

    Em fevereiro, na estreia em Campeonatos da Europa de pista, uma queda na prova de eliminação provocou-lhe quatro costelas e duas vértebras fraturadas, além de uma contusão pulmonar, obrigando-o a passar dois dias nos cuidados intensivos. Oito meses depois, em Xangai, conquistou a primeira medalha portuguesa de sempre na corrida por pontos de um Campeonato do Mundo.

    Salgueiro pontuou em sete dos 16 sprints das 160 voltas e venceu quatro deles. Chegou ao último sprint em posição de conquistar a prata e terminou com 27 pontos, apenas um atrás do francês Benjamin Thomas. O britânico Mark Stewart sagrou-se campeão mundial, com 35.

    Miguel Salgueiro Foto: FPC

    O bronze ganha ainda maior dimensão por ter surgido precisamente na única prova disputada pelo português nestes Mundiais.

    No final, as contas são simples, mas dizem muito sobre a dimensão do que aconteceu em Xangai: ouro para Iúri Leitão no omnium; prata para Iúri Leitão e Ivo Oliveira no madison; bronze para Maria Martins no scratch; bronze para Miguel Salgueiro na corrida por pontos.

    Quatro medalhas numa única edição, quando o anterior máximo português eram duas. E há outro dado particularmente significativo: os quatro pódios chegaram em quatro disciplinas diferentes, através de quatro ciclistas portugueses.

    Iúri Leitão continua inevitavelmente a ser o rosto maior desta geração. É bicampeão mundial de omnium, campeão europeu da disciplina, campeão olímpico de madison e vice-campeão olímpico de omnium. Mas talvez seja precisamente aí que esteja a principal conclusão destes Mundiais: Portugal já não depende exclusivamente de Iúri para chegar ao pódio.

    Maria Martins voltou a fazê-lo. Miguel Salgueiro estreou-se entre os medalhados. Ivo Oliveira juntou uma medalha mundial ao currículo. E Iúri, claro, voltou a fazer aquilo que nos últimos anos tornou cada vez menos surpreendente: ganhar medalhas.

    Xangai não foi apenas o melhor Mundial da história do ciclismo de pista português. Foi mais um sinal de que aquilo que há alguns anos parecia excecional começa a ganhar consistência.

    Portugal já não vai ao velódromo apenas à procura de fazer história. Começa a entrar nele como um país de medalhas.

  • Champions League: Sporting faz história, FC Porto volta a expor fragilidades

    Champions League: Sporting faz história, FC Porto volta a expor fragilidades

    A segunda jornada trouxe sortes distintas para os portugueses, uma noite louca entre Manchester City e PSG, mais uma remontada do Real Madrid e muitos golos pela Europa.

    A segunda jornada da Liga dos Campeões voltou a confirmar que, neste nível, os erros custam caro. O Sporting saiu de Lens com uma grande vitória (0-2), enquanto o FC Porto perdeu por 3-2 em Sevilha e voltou a deixar dúvidas sobre a capacidade da equipa de Francesco Farioli para se impor perante adversários de um superior grau de exigência.

    Mais preocupante do que a derrota do FC Porto foi a forma como os dragões voltaram a demonstrar dificuldades quando precisam de ter bola, controlar o ritmo e assumir o jogo diante de oposição de nível Champions.

    Foto: FC Porto

    Farioli tem também outro problema: este FC Porto não parece ter profundidade suficiente para promover grandes rotações sem perder qualidade. E aqui convém perceber rapidamente uma diferença fundamental: a Champions não é a Liga Europa. Neste patamar, mexer demasiado na equipa e entregar iniciativa ao adversário pode ser fatal.

    Os dragões ainda conseguiram competir e criar problemas ao adversário, mas voltaram a revelar uma equipa muito mais confortável a reagir do que a mandar. E isso, na Liga dos Campeões, poderá tornar-se um problema recorrente.

    Em França, cenário completamente diferente. O Sporting conquistou uma excelente vitória em Lens e voltou a demonstrar capacidade para transportar o seu futebol para o palco europeu.

    E houve história: Luis Suárez tornou-se o melhor marcador de sempre do Sporting na Liga dos Campeões. Mais um capítulo numa passagem estratosférica por Alvalade.

    Luis Suárez Foto: Sporting CP

    Os leões não foram apenas competitivos. Foram uma equipa madura, capaz de perceber os diferentes momentos do encontro e de responder às exigências de uma deslocação complicada. Uma diferença importante em relação àquilo que se viu do lado do FC Porto.

    Em Manchester, Manchester City e PSG protagonizaram uma loucura de seis golos, com os franceses a vencerem por 4-2.

    Foto: PSG

    E até parece pouco. O jogo poderia perfeitamente ter terminado 5-7, tal foi a quantidade de oportunidades, e criatividade ofensiva dos dois lados. Foi provavelmente o melhor espetáculo da jornada e uma demonstração do potencial ofensivo de dois candidatos a chegar longe.

    Quem também continua imparável é o Barcelona. Os catalães venceram na Turquia e já levam uns impressionantes 43 golos em dez jogos oficiais. No centro do espetáculo continua Lamine Yamal, agora com a Bola de Ouro nas mãos e cada vez mais influente no futebol ofensivo blaugrana.

    Foto: FC Barcelona

    Se há algo que já deixou de surpreender na Champions são as remontadas do Real Madrid. Em Roma, os merengues perdiam por 3-1 já perto do final e acabaram a vencer por 3-4.

    Arda Güler foi fundamental na reação madrilena, enquanto a equipa italiana pagou muito caro uma abordagem deficiente às bolas paradas defensivas, sofrendo 3 golos na sequência de 3 (!) cantos em menos de 10 minutos. Mais uma noite para acrescentar à coleção quase inexplicável do Real Madrid nesta competição.

    Foto: Real Madrid

    Uma das surpresas chegou da Noruega, onde o Bayern Munique empatou com o Viking. Os bávaros fizeram uma péssima primeira parte, reagiram depois do intervalo, operaram a reviravolta no marcador, mas acabaram condicionados pela expulsão patética de Michael Olise, desperdiçando pontos inesperados.

    Foto: FC Bayern

    Também não faltou espetáculo em San Siro, com o Club Brugge a vencer por 4-3 num dos jogos mais emocionantes da ronda. A equipa belga joga um futebol bastante atractivo, e conseguiu uma vitória muito prestigiante, com Nicòlo Tresoldi (actualmente um dos avançados de maior cartel na Europa) em grande evidência, ao completar um hat-trick.

    Foto: Club Brugge

    Em Linz houve ainda mais: LASK 3-6 Liverpool, com o reforço sonante Bradley Barcola a assinar igualmente um hat-trick e a assumir o protagonismo numa noite de nove golos.

    Foi apenas a segunda jornada, mas a Champions já deixou vários avisos. O Sporting parece cada vez mais confortável neste palco; o FC Porto precisa rapidamente de encontrar soluções para competir de outra forma contra adversários deste nível.

    E lá por cima, Barcelona e PSG começam a mostrar os dentes, e a assumirem-se como os actuais alvos a abater por parte dos outros adversários .

    Ainda estamos no início da competição, mas começam a surgir tendências que merecem atenção.

    Porque a Liga dos Campeões não se ganha em outubro. Mas pode começar a perder-se muito antes de chegar a primavera.

  • O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa

    Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de todos os tempos. Isso não está em discussão. É o maior marcador da história da Seleção, o jogador com mais internacionalizações e a figura que durante duas décadas carregou consigo boa parte dos sonhos de um país. Precisamente por tudo isso, aquilo que aconteceu na Dinamarca é ainda mais difícil de compreender.

    O capitão abandonou o barco.

    Cristiano Ronaldo

    Não depois de Portugal ser eliminado. Não por lesão. Não no final de uma competição. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional na véspera de um jogo oficial frente à Dinamarca, depois de ter ficado no banco diante da Noruega e de Jorge Jesus ter deixado claro que Gonçalo Ramos seria o titular no encontro seguinte. A Federação confirmou a saída e o próprio jogador anunciou que, “a seu tempo”, explicaria aos portugueses as razões da decisão.

    Pode existir muito contexto ainda por conhecer. Pode haver conversas privadas que nunca chegaram ao domínio público. E Cristiano terá naturalmente direito à sua versão.

    Mas existe um facto indesmentível que nenhuma explicação futura poderá apagar: quando os seus companheiros se preparavam para representar Portugal, o capitão decidiu chamar o seu avião privado, e ir embora. E isso é inadmissível.

    O nosso melhor jogador de todos os tempos, mas que teve um comportamento de menino mimado, e que agora tem o beneplácito incompreensível de Jorge Jesus e de Pedro Proença para que possa regressar à Seleção quando assim o entender, sendo que estes protagonistas apenas disseram que foi um “mal-entendido” e que são problemas que se resolvem rápido. Parece uma piada de mau gosto ou algo que nos remete aos tempos da escola preparatória.

    Jorge Jesus abriu explicitamente a porta: se Cristiano quiser regressar, poderá fazê-lo. Pedro Proença também classificou a situação como um mal-entendido e defendeu serenidade na resolução do caso.

    Jorge Jesus

    É aqui que a gestão do episódio se torna difícil de compreender. Porque representar Portugal não pode funcionar como uma porta giratória cuja utilização depende da vontade de um jogador. Nem sequer quando esse jogador se chama Cristiano Ronaldo. Sobretudo quando falamos do capitão.

    A braçadeira não é apenas uma homenagem ao passado. Também representa responsabilidade no presente.

    E um capitão é precisamente aquele que não abandona o barco quando deixa de ocupar o lugar que gostaria de ocupar nele.

    Nas horas seguintes surgiu uma narrativa diferente através de pessoas próximas de Ronaldo. Edu Aguirre, jornalista espanhol e amigo do internacional português, afirmou que Cristiano se sentiu “traído” por Jorge Jesus. Segundo essa versão, teria existido uma reunião entre jogador, selecionador e presidente da FPF na qual Jesus reconhecera um erro na gestão do episódio da Noruega e teria prometido um pedido de desculpas público. Esse pedido nunca aconteceu.

    Mais tarde, o próprio Jorge Jesus negou que tivesse pedido desculpa ou prometido fazê-lo publicamente, contrariando diretamente a narrativa divulgada pelo círculo próximo do jogador.

    Importa estabelecer essa diferença: não sabemos o que foi dito naquela reunião privada. Sabemos aquilo que Edu Aguirre afirmou ter acontecido e sabemos que Jesus posteriormente o negou.

    Mas a ideia de que o selecionador deveria apresentar publicamente desculpas ao jogador por ter tomado uma decisão técnica, representaria, a confirmar-se, uma infame inversão de papéis.

    Jorge Jesus pode ter gerido mal Cristiano Ronaldo. Pode ter errado ao colocá-lo durante largos minutos a aquecer sem depois o utilizar, apesar de que a sua decisão foi completamente legitimada pelo facto de Portugal estar a ganhar por apenas um golo de diferença diante da Noruega, uma seleção muito forte e que tem jogadores de muita qualidade.

    Jesus pode ter comunicado melhor ou pior. Tudo isso é discutível. O princípio não é. O selecionador escolhe quem joga. O jogador aceita.

    Jorge Jesus

    Se deixarmos de conseguir estabelecer algo tão elementar numa Seleção Nacional, então o problema deixou de ser Ronaldo, Jesus ou qualquer outro nome. Passou a ser institucional.

    Depois veio outro episódio desnecessário. Cristiano Ronaldo colocou um “gosto” numa publicação que reproduzia declarações de Felipe Melo em sua defesa, numa intervenção que estabelecia uma comparação entre a forma como Portugal tratava Cristiano e a forma como a Argentina tratava Lionel Messi e que atingia também os próprios jogadores portugueses, defendendo que nenhum deles estava sequer próximo do nível do capitão.

    Um simples “gosto” numa rede social não deve ser transformado numa declaração oficial. Mas também não existe necessidade de fingir que não significa absolutamente nada.

    Sobretudo quando acontece no meio de uma crise desta dimensão e quando os homens indiretamente diminuídos naquela publicação são os mesmos companheiros que Ronaldo acabara de deixar para trás na Dinamarca.

    E foram precisamente esses jogadores que responderam da única forma que verdadeiramente interessava, fazendo o que melhor sabem: jogando.

    Enquanto se discutia Ronaldo, nasceu uma equipa. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2, e esse resultado deve ter azedado muitas das refeições dos profetas da desgraça e daqueles portugueses que são apoiantes do Cristiano Ronaldo FC, e não da seleção nacional, a equipa de todos nós.

    Portugal

    Depois venceu novamente a Noruega, desta vez no Dragão, por 2-1, garantindo antecipadamente o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Jorge Jesus termina os primeiros quatro encontros como selecionador com quatro vitórias em quatro jogos.

    E talvez esta seja a parte mais importante de toda esta história. Portugal não colapsou sem Cristiano Ronaldo. Portugal jogou como equipa.

    Vitinha assumiu o controlo dos ritmos. Bruno Fernandes encontrou liberdade para acelerar e procurar zonas de criação. João Félix reapareceu como uma peça capaz de ligar setores e encontrar espaços interiores. E Gonçalo Ramos recebeu finalmente aquilo que há demasiado tempo merecia na Seleção: minutos.

    Gonçalo Ramos

    Não foram minutos residuais. Não entrou quando faltavam apenas dez minutos. Não esperou eternamente atrás de uma hierarquia construída sobre aquilo que aconteceu no passado.

    Teve minutos para ser o ponta de lança de Portugal. E respondeu. Só alguém que perdeu toda e qualquer noção de futebol ou impregnado de um fanatismo doentio, poderá admitir que neste momento, Gonçalo Ramos não é o melhor avançado português.

    Gonçalo oferece à equipa algo que vai muito além do golo. Pressiona centrais, condiciona a primeira fase de construção adversária, ataca a profundidade, participa no jogo associativo da equipa, fixa defesas e cria espaço para as entradas dos médios e dos jogadores que partem dos corredores.

    Neste momento, é o melhor avançado português da atualidade e Jorge Jesus teve a coragem que Roberto Martínez demasiadas vezes não demonstrou: escolher em função daquilo que considera melhor para a equipa e não do peso de um nome, ou melhor dizendo, de uma marca global.

    Quatro jogos ainda são pouco para conclusões definitivas, mas já permitem encontrar uma identidade.

    Portugal joga mais depressa. Há menos circulação pela circulação. Vitinha continua a oferecer pausa e critério, mas existem mais soluções à frente da bola.

    Bruno Fernandes procura constantemente o passe vertical. Félix aproxima-se de Ramos e aparece entre linhas. Os laterais projetam-se e dão largura e profundidade, enquanto os jogadores da frente trocam frequentemente de posição.

    Quando perde a bola, Portugal procura recuperá-la imediatamente. É um futebol de risco. E esse risco também mostrou aquilo que precisa de ser corrigido.

    A Seleção continua demasiado vulnerável quando a primeira pressão é ultrapassada. A projeção simultânea de vários jogadores deixa os centrais expostos e aparecem espaços entre a linha média e a defensiva que adversários de maior qualidade poderão explorar com muito mais crueldade.

    Jorge Jesus não precisa de retirar a ambição à equipa. Precisa de lhe acrescentar controlo.

    Porque esta Seleção tem talento suficiente para assumir jogos sem precisar de viver permanentemente no limite.

    Nenhum nome pode ser maior do que Portugal, seja a personalidade mais seguida e idolatrada do mundo, ou não. Seria absurdo apagar Cristiano Ronaldo da história da Seleção por causa de uma semana.

    Não se apagam mais de duas décadas. Não se apagam os golos. Não se apaga o Europeu de 2016. Não se apaga tudo aquilo que fez pela camisola portuguesa.

    Mas também seria igualmente absurdo utilizar essa história para desculpar tudo aquilo que fizer daqui para a frente.

    Gratidão não significa submissão. Cristiano Ronaldo merece respeito pelo que deu a Portugal. Portugal não lhe deve, em troca, o direito vitalício de decidir quando joga, quando fica, quando parte ou quando regressa.

    E talvez a grande ironia destes últimos dias seja precisamente essa. No momento em que o capitão abandonou o barco, esperava-se uma tempestade. Em vez disso, Portugal continuou a navegar.

    Cristiano Ronaldo

    Ganhou na Dinamarca. Ganhou à Noruega. Apurou-se. Gonçalo Ramos marcou. João Félix brilhou. Vitinha ditou os tempos de jogo. Bruno Fernandes criou. E Jorge Jesus começou a construir uma equipa em que o coletivo parece finalmente voltar a estar acima das individualidades.

    Cristiano Ronaldo poderá regressar. Provavelmente regressará. E, se o fizer, continuará a ser uma lenda do futebol português.

    Mas deveria regressar com uma certeza muito simples: a braçadeira pode pertencer ao capitão. O barco pertence a Portugal.

  • Lúcia Alves embalou e as águias voaram para a conquista da Supertaça

    Lúcia Alves embalou e as águias voaram para a conquista da Supertaça

    O primeiro troféu da época 2026/27 veste de vermelho. O Benfica venceu o FC Porto por 5-1, no Estádio Municipal do Fontelo, e conquistou assim a 4ª Supertaça Feminina da sua história numa tarde em que a resistência portista durou essencialmente até ao intervalo.


    Lúcia Alves foi a grande figura de uma equipa encarnada que acelerou definitivamente na segunda parte e transformou um clássico equilibrado numa goleada.

    Lúcia Alves – Foto: SL Benfica

    Sob um sol abrasador de mais de 30 graus em Viseu, Ivan Baptista apresentou o Benfica esperado, enquanto Daniel Chaves lançou Morgan Stone, Daniela Santos e Fatumata Sissé no onze portista.

    Sem as lesionadas Lara Perruca e Alex Kerr, o FC Porto procurava discutir o primeiro troféu da época antes da estreia na elite do futebol feminino português, mas encontrou desde cedo dificuldades perante a pressão alta das encarnadas.

    O Benfica assumiu a iniciativa, mas foi o FC Porto quem festejou primeiro. Aos sete minutos, Maria Negrão colocou um livre na área e Morgan Stone desviou para a baliza, num golo que acabaria anulado por fora de jogo milimétrico após uma longa análise do VAR.

    Pouco depois, a resposta encarnada foi cruel. Lúcia Alves encontrou Frøya Dorsin em profundidade e a norueguesa aproveitou uma abordagem infeliz de Daniela Santos (exibição para esquecer da antiga jogadora do Benfica) para inaugurar o marcador para as encarnadas aos 13 minutos.

    As águias continuaram por cima, com Caroline Møller particularmente influente no ataque, enquanto o FC Porto apresentava dificuldades em ligar o meio-campo às três jogadoras mais adiantadas.

    As bolas paradas, porém, davam outra vida às portistas. Foi precisamente daí que nasceu o empate: depois de uma mão de Møller na área, Fátima Pinto assumiu a grande penalidade e fez o 1-1 aos 33 minutos.

    Fátima Pinto – Foto: FC Porto

    O golo coincidiu com o melhor período azul e branco. O FC Porto subiu a pressão e conseguiu finalmente perturbar a construção encarnada, mas quando parecia ter equilibrado definitivamente a final, o Benfica voltou a castigar.

    Aos 42 minutos, Diana Gomes lançou Nycole Raysla nas costas da defesa e a brasileira percebeu o adiantamento de Cora Brendle, assinando com qualidade o 2-1.

    Ainda antes do intervalo, Maria Negrão esteve muito perto de empatar diretamente de canto, obrigando Lena Pauels a uma grande defesa. As portistas chegavam vivas ao descanso. Não sabiam ainda que o pior estava para vir.

    O Benfica regressou dos balneários disposto a terminar rapidamente com as dúvidas. A pressão voltou a sufocar a saída portista e, aos 55 minutos, uma carga de Daniela Santos sobre Catarina Amado valeu grande penalidade. Marit Lund não desperdiçou e colocou o resultado em 3-1.

    A partir daí, houve praticamente apenas Benfica. Carolina Tristão (jovem de apenas 17 anos, mas que joga como se fosse uma veterana) tomou conta do meio-campo, recuperando, aparecendo em diferentes zonas e dando continuidade ao domínio das águias.

    À sua frente, Møller continuava a oferecer qualidade entre linhas e Lúcia Alves fazia do corredor direito a sua autoestrada particular. A portuguesa acumulou metros, desequilíbrios e cruzamentos perante uma defesa portista incapaz de travar a sua profundidade.

    Dorsin ainda obrigou Cora Brendle a uma excelente defesa antes de, aos 66 minutos, surgir um dos melhores lances da tarde. Lúcia Alves voltou a romper pela direita e ofereceu a Caroline Møller o 4-1.

    Era o retrato perfeito da segunda parte: uma equipa a encontrar espaços por todo o lado e outra já sem capacidade para acompanhar o ritmo.

    As substituições não diminuíram a intensidade encarnada. Andreia Norton (regressando aos relvados depois de uma ausência de mais de 470 dias) obrigou Brendle a nova intervenção e, aos 82 minutos, duas jogadoras saídas do banco construíram o quinto: Chandra Davidson assistiu e Anna Csiki colocou a “manita” no marcador.

    Já nos descontos, Lúcia Alves procurou o golo que faltava à sua exibição, com um remate em arco que passou perto da baliza. Não marcou, mas também não precisava. A internacional portuguesa já tinha deixado a assinatura espalhada por praticamente todo o corredor direito do Fontelo.

    O FC Porto conseguiu competir durante parte do primeiro tempo e encontrou nas bolas paradas a melhor forma de ameaçar o adversário, mas a segunda parte revelou a distância que ainda existe para uma equipa que está a dar os primeiros passos entre a elite. O Benfica, mesmo depois das mudanças sofridas no verão, respondeu com uma demonstração de força.

    5 golos, uma Supertaça e um primeiro aviso às suas rivais: o Benfica começou 2026/27 como tantas vezes terminou nos últimos anos: a levantar um troféu.

    Conquista Supertaça – Foto: SL Benfica
  • No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

    Sai de cena com 207 jogos, 125 golos e todos os grandes títulos conquistados. Mas o maior triunfo de Lionel Messi talvez tenha sido outro: transformar um país que questionou a sua identidade num país que acabou rendido aos seus pés.

    Durante anos, Lionel Messi teve de responder a uma acusação particularmente cruel: não ser suficientemente argentino.

    Diziam que era espanhol. Que não cantava o hino. Que não sentia a camisola como Maradona. Que aquilo que fazia pelo Barcelona nunca conseguia fazer pela Argentina. Saiu de Rosario aos 13 anos e, para alguns, essa distância geográfica transformou-se numa espécie de pecado original que nenhuma estelar exibição parecia conseguir apagar.

    A ironia é extraordinária: Messi podia realmente ter representado a Espanha.

    Quando começava a destacar-se nas camadas jovens do Barcelona, a possibilidade foi-lhe colocada. O próprio confirmou recentemente que existiram aproximações espanholas e que, pelas circunstâncias da sua formação, poderia ter acontecido. Mas havia uma coisa que nunca esteve verdadeiramente em discussão para Leo e sempre o transmitiu ao seu recém-falecido pai: «Papá, quero jogar pela Argentina.»

    E escolheu a Argentina antes de ela o escolher verdadeiramente.

    Messi passou os últimos anos da sua juventude em Barcelona, mas há coisas que a distância nunca conseguiu levar.

    O miúdo argentino que chegou à Catalunha continuou a falar como um rosarino. O castelhano nunca perdeu aquela musicalidade tão peculiar da Argentina, nem os seus “vos”, os “tenés”, os “querés”.

    Continuou ligado a Rosario, ao mate, aos churrascos, à família e aos amigos de infância. Uma reportagem da TIME já sublinhava, em 2012, algo particularmente simbólico: depois de tantos anos em Espanha, o sotaque de Messi praticamente não tinha mudado.

    Foto: CHRISTOPHER MORRIS . VII FOR TIME

    Mesmo assim, teve de passar anos a provar de onde era.

    Talvez porque os argentinos nunca o tinham visto crescer diante deles. Maradona tinha sido Argentinos Juniors, Boca Juniors, rua, bairro, Buenos Aires. Messi cresceu futebolisticamente do outro lado do Atlântico. Quando a Argentina começou verdadeiramente a conhecê-lo, o Barcelona já começava a perceber que tinha encontrado algo extraordinário.

    E isso criou uma distância que Messi demoraria anos a vencer.

    Quanto melhor era em Barcelona, maior parecia tornar-se a dívida imaginária com a seleção.

    Se fazia três golos em Espanha, perguntava-se por que não fazia o mesmo pela Argentina. Se sorria no Camp Nou e aparecia sério com a Albiceleste, dizia-se que não sentia o mesmo. Se não cantava o hino, questionava-se o patriotismo.

    E havia sempre a comparação impossível com Diego Armando Maradona. Messi não tinha apenas de ser Messi. Para uma parte do país, tinha também de ser Diego.

    AMAR ABDALLAH DALSH / REUTERS

    A Argentina chegou à final do Mundial de 2014 e perdeu em detalhes para a Alemanha. Messi ficou a centímetros daquilo que lhe exigiam.

    Depois perdeu a Copa América de 2015. E voltou a perdê-la em 2016, contra o mesmo adversário, e ambas após desempate por grandes penalidades.

    Nessa noite, diante do Chile, falhou uma grande penalidade e desabou. As lágrimas de Messi talvez tenham sido a resposta mais evidente a todos aqueles que durante anos disseram que aquela camisola não lhe doía. Doía-lhe tanto que decidiu deixá-la.

    Aos 29 anos anunciou a saída da seleção. Estava esgotado de perder, mas talvez também de ser permanentemente julgado por um país ao qual nunca conseguira demonstrar suficientemente que pertencia.

    Regressou pouco depois. E essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes de toda a sua carreira.

    A segunda metade da história seria completamente diferente. A própria dimensão da carreira internacional de Messi depois dos 30 anos é extraordinária: 95 internacionalizações, 70 golos e uma Argentina que passou das derrotas sucessivas para uma era de domínio sob o comando de Lionel Scaloni (que havia sido companheiro de Messi na selecção enquanto jogador), conquistando duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial.

    A Copa América de 2021 mudou tudo.

    Em 2021, Messi conquistou finalmente um grande título pela seleção principal, num Maracanã despido (devido à pandemia), e diante do arquirrival Brasil. Uma das imagens mais impactantes da sua carreira foi a dele a afastar os seus colegas que estavam a querer “picar” Neymar devido à rivalidade histórica que há entre argentinos e brasileiros, e fundir-se num sentido abraço com um dos seus melhores amigos no futebol e seu ex-companheiro no Barcelona.

    Também por isso, foi severamente criticado na Argentina. Como se o futebol fosse uma guerra, uma ideia completamente estapafúrdia.

    Seguiu-se a Finalíssima contra a campeã europeia Itália. Mas faltava a imagem que parecia perseguir toda a sua carreira: o troféu dourado de campeão do mundo.

    No Qatar, em 2022, Messi fez aquilo que durante anos lhe disseram que precisava de fazer para poder sentar-se definitivamente à mesa dos imortais do futebol. Marcou sete golos, foi eleito o melhor jogador do torneio e levantou o Mundial depois de uma final irrepetível e icónica diante da França.

    Campeonato do mundo – Foto: Reuters/Paul Childs

    E Peter Drury encontrou as palavras certas para um momento que parecia impossível de traduzir:

    “Lionel Messi conquistou o seu último cume. Lionel Messi apertou a mão ao paraíso. O menino de Rosario, Santa Fe, acaba de chegar ao céu e chegar a um patamar só dele: o de melhor de todos os tempos.”

    Talvez o mais bonito seja que Messi já não precisava daquele Mundial para provar que era argentino. Mas a Argentina talvez precisasse daquele Mundial para perceber definitivamente que Messi sempre tinha sido seu.

    Depois do Qatar desapareceram muitas das acusações. Já ninguém queria saber se cantava o hino (curiosamente depois de conquistar a taça mais desejada, Messi soltou-se e começou a ser dos mais sonoros ao entoá-lo). Barcelona deixou de ser utilizada contra ele. A comparação com Maradona deixou de funcionar como arma.

    Messi não substituiu Diego. A Argentina simplesmente abriu espaço para os dois.

    Agora os números ficam para a história. 207 jogos. 125 golos.

    Nenhum argentino vestiu mais vezes aquela camisola. Nenhum marcou mais golos por ela. Javier Mascherano, segundo em internacionalizações, ficou pelos 147 jogos. Gabriel Batistuta, durante tanto tempo referência goleadora do país, terminou com 56 golos. Messi despede-se também como recordista sul-americano de jogos e golos por uma seleção.

    Conquistou um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Campeonato do Mundo. Disputou seis Mundiais e três finais da maior competição de seleções.

    Mas talvez haja um número ainda mais bonito. 21 anos. Duas décadas a representar um país que primeiro o questionou, depois o exigiu, por vezes o maltratou e, finalmente, o passou a idolatrar.

    Lionel Messi despede-se aos 39 anos. E há uma espécie de justiça poética na forma como tudo termina.

    O menino que podia ter escolhido Espanha, escolheu a Argentina. O homem acusado de não parecer argentino nunca perdeu a maneira argentina de falar.

    O homem acusado de não sentir a camisola, chorou compulsivamente por ela. Deu tudo de si em todos os momentos, tal como ele mencionou na sua carta emocionante de despedida à selecção na rede social Instagram:

    “«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção.Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».”

    O homem que disseram não conseguir ganhar pela Argentina, ganhou tudo. Caiu várias vezes, levantou-se outras tantas. Uma história digna do melhor dos documentários ou filmes autobiográficos de Hollywood.

    E aquele a quem durante tantos anos perguntaram se conseguiria ser como Maradona acabou por não precisar de ser ninguém além de Lionel Andrés Messi.

    No Qatar, Peter Drury disse que o menino de Rosario tinha chegado ao céu.

    Quatro anos depois, sabemos que não voltou de lá. A Argentina demorou a aceitá-lo como seu. Messi passou uma vida inteira a provar que nunca tinha sido de outro lugar.

    https://www.instagram.com/reel/DctYV2qt6S5/?igsi=ZjQxY3JwYW56YnN6

  • Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

    A prata de Camila Rebelo foi o ponto mais alto da participação portuguesa, mas as inúmeras finais, recordes e excelentes classificações demonstraram que a natação nacional atravessa um dos momentos mais promissores da sua história

    Estes Europeus de Natação foram a confirmação de uma geração que começa a afirmar-se de forma consistente entre a elite europeia. A comitiva nacional regressou a casa com apenas uma medalha, mas dificilmente poderia pedir muito mais à maioria dos seus atletas. Entre recordes nacionais, presenças em finais e excelentes classificações, ficou a sensação de que a natação portuguesa continua claramente em crescimento.

    O grande destaque português pertenceu naturalmente a Camila Rebelo. A nadadora conquistou uma brilhante medalha de prata nos 200 metros costas, oferecendo a Portugal o único pódio da competição, e voltou ainda a confirmar a sua enorme consistência ao alcançar outra final europeia, desta vez nos 100 metros costas. Mais do que a medalha, Camila confirmou definitivamente o estatuto de uma das melhores especialistas europeias da disciplina.

    Camila Rebelo foto:FPN

    Se Camila foi a medalha, Francisca Martins foi talvez o maior símbolo da profundidade da equipa portuguesa. A jovem nadadora esteve presente em quatro finais europeias (!) – 200 metros livres, 400 metros livres, 800 metros livres e estafeta de 4×200 metros livres — terminando num extraordinário quarto lugar nos 400 metros livres e com recorde nacional (4.06.93), resultado que confirma a sua afirmação entre a elite continental.

    Também Diogo Ribeiro voltou a demonstrar porque continua a ser um dos maiores talentos da natação portuguesa. O olímpico terminou em quinto lugar nos 50 metros mariposa e estabeleceu um novo recorde nacional dos 50 metros livres, com 21,72 segundos, ficando a apenas uma centésima de segundo do quinto classificado. Uma margem mínima que ilustra bem o equilíbrio do mais alto nível europeu.

    Diogo Ribeiro foto:FPN

    Entre os restantes portugueses, merece igualmente destaque Vasco Morgado, que alcançou as meias-finais dos 200 metros mariposa, continuando a afirmar-se entre os jovens nadadores nacionais com maior potencial.

    Portugal também voltou a mostrar evolução na natação artística. A seleção nacional alcançou um meritório sétimo lugar no Esquema Acrobático, graças à prestação de Daniel Ascenso, Elisabete Fortunato, Joana Rosa, Lara Botelho, Lara Rolo, Maria Fonseca, Marta Abreu e Rodrigo Carvalho, que apresentaram uma rotina consistente e tecnicamente muito exigente, confirmando o crescimento da modalidade.

    A participação portuguesa ficou ainda enriquecida pelos excelentes resultados da seleção paralímpica. Marco Meneses conquistou duas medalhas de bronze, nos 50 e 100 metros livres da classe S11, enquanto Susana Veiga e Diogo Cancela voltaram igualmente a marcar presença nas finais das respetivas categorias (S9 e S8), demonstrando a elevada competitividade da natação adaptada portuguesa.

    Se Portugal apresentou argumentos muito positivos, o panorama internacional ofereceu algumas das melhores histórias do campeonato.

    A italiana Simona Quadarella voltou a demonstrar porque continua a ser uma das grandes referências da natação mundial ao conquistar um extraordinário triplete nos 400, 800 e 1500 metros livres, dominando por completo as provas de fundo.

    Simona Quadarella Photo Courtesy:Giorgio Scala/DeepBlueMedia

    Também David Popovici voltou a fazer história. O fenómeno romeno conquistou pela terceira vez consecutiva a dobradinha dos 100 e 200 metros livres, confirmando-se como um dos maiores especialistas da atualidade nas distâncias de velocidade prolongada, com apenas 21 anos.

    A Hungria foi outra das grandes protagonistas. Kristóf Milák voltou ao mais alto nível ao vencer os 100 metros mariposa, terminando a apenas três centésimos do recorde do mundo, além de contribuir para o ouro da estafeta húngara 4×100 metros livres. O compatriota Hubert Kós brilhou igualmente ao conquistar os títulos dos 200 metros costas, 200 metros estilos e da mesma estafeta.

    Um dos momentos mais emocionantes aconteceu nos 50 metros bruços. A experiente lituana Rūta Meilutytė, recordista mundial da especialidade, derrotou a grande favorita Benedetta Pilato por apenas um centésimo de segundo, demonstrando que continua perfeitamente capaz de competir ao mais alto nível.

    Mesmo limitado por uma lesão no adutor, Léon Marchand voltou a impressionar e a colocar Paris em efervescência. O francês foi obrigado a abdicar de várias provas, mas ainda conquistou os títulos dos 200 metros mariposa e dos 400 metros livres, ajudando igualmente a França a alcançar o bronze na estafeta 4×100 metros estilos.

    Léon Marchand foto: Salomon Micko Benrimoh

    Os Europeus ficaram também marcados por novos talentos. O húngaro Oliver Papai, com apenas 16 anos, deslumbrou nos 400 metros livres conquistando a medalha de prata, enquanto a britânica Amalie Smith, nascida igualmente em 2009, garantiu uma estupenda medalha de prata nos 400 metros estilos. Na mesma disciplina, a irlandesa Ellen Walshe confirmou o favoritismo ao vencer tanto os 200 como os 400 metros estilos.

    Outro dos momentos altos da competição surgiu nos 100 metros costas, onde o grego Apostolos Christou surpreendeu tudo e todos ao derrotar o recordista mundial Thomas Ceccon por apenas um centésimo de segundo, numa das finais mais emocionantes destes campeonatos.

    Os recordes também fizeram parte do espetáculo. A italiana Sara Curtis estabeleceu um novo recorde do mundo dos 50 metros costas, com 26,56 segundos, enquanto o alemão de apenas 19 anos Johannes Liebmann assinou uma das maiores exibições da competição ao vencer os 1500 metros livres em 14.26,79 minutos, melhorando em 13 segundos o seu recorde pessoal e retirando quase quatro segundos ao anterior recorde mundial pertencente a Bobby Finke desde os Jogos Olímpicos de Paris.

    No medalheiro, foi o Reino Unido quem terminou na liderança, graças a mais uma medalha de ouro do que a Itália, apesar de os italianos terem conquistado mais 17 (!) medalhas no total.

    Portugal regressa destes Campeonatos da Europa com apenas uma medalha, mas com muito mais do que isso. Regressa com finais, recordes, jovens em clara ascensão e a certeza de que a natação nacional nunca teve tanta qualidade distribuída por tantas disciplinas diferentes. E, tal como aconteceu no atletismo, talvez esse seja o melhor indicador de que o futuro continua a sorrir ao desporto português.

  • Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

    Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

    Três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e algumas desilusões marcaram uma prestação muito positiva de Portugal nos Campeonatos da Europa de Atletismo. Num Europeu recheado de momentos memoráveis, a seleção nacional voltou a provar que pertence à elite continental

    Findos os Campeonatos da Europa de Atletismo, Portugal regressa a casa com três medalhas, mas também com a sensação de que poderia perfeitamente ter alcançado um resultado ainda mais expressivo.

    A medalha de prata de Pedro Pichardo voltou a confirmar a extraordinária consistência de um dos maiores atletas da história do atletismo português. O campeão olímpico voltou a responder presente num grande palco internacional, mantendo-se como uma das maiores referências do triplo salto mundial, a que só um salto inesperado e igualmente monstruoso (18,15m) do italiano Andy Díaz impediu de que Pichardo se sagrasse novamente campeão europeu.

    Pedro Pichardo Foto: FPA

    Também Fatoumata Diallo (com um fantástico recorde pessoal de 53.55) confirmou a sua enorme evolução ao conquistar a medalha de bronze nos 400 metros barreiras. Um resultado que recompensa anos de crescimento sustentado e que a coloca definitivamente entre as principais especialistas europeias da disciplina.

    Fatoumata Diallo Foto: Julian Finney/Getty images

    Já Patrícia Silva voltou a demonstrar toda a sua inteligência competitiva e capacidade de sofrimento ao conquistar a medalha de bronze nos 1500 metros na recta da meta. Num dos meios-fundos mais exigentes do programa, a portuguesa voltou a responder da melhor forma quando a competição mais o exigia.

    Patrícia Silva Foto: FPA

    Mas o Europeu de Birmingham deixou igualmente algumas desilusões. Poucos esperariam ver Isaac Nader, campeão do mundo dos 1500 metros em 2025, terminar a final na última posição. O português nunca conseguiu entrar verdadeiramente na luta pelas medalhas e pareceu perder intensidade na fase decisiva da corrida quando percebeu que o pódio lhe escapava. Também Salomé Afonso, depois de um percurso muito consistente até à final, acabou por quebrar nos derradeiros metros, terminando longe dos lugares cimeiros.

    Mais ingratos foram ainda os quartos lugares de Gerson Baldé e Agate de Sousa, ambos campeões mundiais de pista coberta em fevereiro. No caso da saltadora portuguesa, fica uma enorme sensação de injustiça. Um dos seus ensaios foi claramente mal medido e a marca oficial de 6,89 metros dificilmente correspondeu ao salto efetuado. Agate (6,96m) terminou a apenas dois centímetros da medalha de bronze e quatro centímetros do ouro (7,00) da italiana Larissa Iapichino, numa situação que inevitavelmente marcou o concurso.

    Entre os muitos motivos de orgulho esteve também Delvis Santos. O velocista português estabeleceu um novo recorde pessoal de 20,23 segundos, qualificou-se para a final dos 200 metros e alcançou um excelente sexto lugar europeu, confirmando o crescimento que tem vindo a evidenciar nas últimas temporadas.

    Delvis Santos Foto: FPA

    Outro dos destaques da participação portuguesa foi Joana Pontes, que alcançou um meritório 10.º lugar na maratona de marcha. A atleta concluiu a prova em 3h41m36s, estabelecendo um novo recorde pessoal e confirmando a evolução que tem vindo a demonstrar numa disciplina cada vez mais competitiva ao mais alto nível.

    Também as estafetas nacionais deixaram excelentes indicadores. Tanto a equipa feminina dos 4×100 metros como a estafeta mista dos 4×100 metros garantiram presença nas respetivas finais, confirmando a evolução coletiva da velocidade portuguesa e demonstrando que Portugal começa igualmente a afirmar-se nas provas por equipas.

    Se Portugal voltou a mostrar a sua força, o panorama europeu ofereceu igualmente momentos absolutamente inesquecíveis.

    Poucas atletas dominaram tanto uma competição como Nadia Battocletti. A italiana conquistou um extraordinária dobradinha nos 5000 e 10000 metros, assumindo-se como uma das grandes figuras destes Campeonatos da Europa. Foi precisamente a Itália quem acabaria por conquistar o medalheiro geral, graças ao triunfo alcançado na derradeira prova do programa, a estafeta masculina dos 4×400 metros, por escassos milésimos de segundo.

    Também a Noruega regressou ao topo. Karsten Warholm voltou à sua melhor versão para conquistar mais um título europeu de forma muito autoritária nos 400 metros barreiras, enquanto Jakob Ingebrigtsen confirmou o regresso à melhor forma ao dominar os 5000 metros com a autoridade habitual, permanecendo invencível nesta distância a nível europeu. A quatrocentista muito jovem Henriette Jæger de apenas 23 anos, foi essencial para que a Noruega ganhasse a estafeta 4×400 mista, e somou o ouro dos 400m individuais com uma recta final estupenda.

    Perante o seu público, Amy Hunt transformou-se numa das grandes estrelas da competição. A velocista britânica conquistou quatro medalhas de ouro — nos 100 metros, 200 metros, estafeta feminina 4×100 metros e estafeta mista 4×100 metros — assinando uma das campanhas individuais mais impressionantes de sempre em Campeonatos da Europa.

    Amy Hunt EPA

    Mas se houve um momento verdadeiramente cinematográfico, esse pertenceu a Gianmarco Tamberi. O italiano chegava a Birmingham vindo de um período de várias lesões, e tendo ultrapassado apenas 2,23 metros durante toda a temporada, mas voltou a provar porque continua a ser um dos atletas mais carismáticos do atletismo mundial. No último ensaio, superou 2,32 metros e conquistou dramaticamente mais um título europeu, perante o olhar incrédulo do ucraniano Oleh Doroshchuk, que cedeu à pressão e não conseguiu superar essa fasquia.

    Também Audrey Werro protagonizou uma das histórias mais bonitas da competição. Depois de ter sido justamente repescada para a final dos 800 metros, devido a uma queda provocada por outra atleta nas meias-finais, a suíça respondeu da melhor forma possível ao derrotar a grande favorita Keely Hodgkinson e conquistar um memorável título europeu.

    Na marcha, María Pérez voltou a confirmar a sua supremacia ao conquistar o ouro com um extraordinário recorde do mundo, enquanto Armand “Mondo” Duplantis fez aquilo que já parece rotina: conquistou mais um título europeu no salto com vara, vencendo com 6,15 metros, sem sequer necessitar de atacar um novo recorde mundial.

    Maria Pérez 2026 Getty Images

    No final, Portugal regressa de Birmingham com três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e a confirmação de uma geração extremamente competitiva. Houve desilusões, houve injustiças e houve oportunidades perdidas, mas houve sobretudo qualidade. E quando um país termina um Campeonato da Europa com a sensação de que podia ter conquistado ainda mais medalhas, talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer ao momento atual do atletismo português. Este Europeu confirmou que Portugal pertence, sem qualquer complexo, à primeira linha do atletismo europeu.

  • Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

    Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

    O FC Porto conquistou a Supertaça. Daqui a alguns anos, ficará apenas registado que venceu mais um troféu. As estatísticas não contam exibições, não registam a qualidade do futebol praticado nem refletem as dúvidas que uma equipa consegue deixar mesmo quando ergue uma taça.

    Mas quem viu os noventa minutos diante do Torreense dificilmente saiu descansado. Porque o resultado foi positivo. A exibição esteve muito longe de o ser.

    Antes de olhar para o FC Porto, importa fazer justiça ao Torreense. A equipa de Torres Vedras realizou uma exibição extraordinária. Em muitos momentos, foi difícil perceber que um dos emblemas pertence à Primeira Liga e o outro milita na Liga Portugal 2. Houve coragem, personalidade, organização e uma enorme capacidade para criar dificuldades a um adversário teoricamente muito superior.

    Aliás, continuo convencido de que, caso tivesse beneficiado de um calendário mais equilibrado antes da segunda mão do play-off frente ao Casa Pia , o Torreense (depois da brilhante conquista da Taça de Portugal) teria hoje lugar entre os principais clubes do futebol português.

    Não perdeu porque lhe faltou ambição. Não foi eficaz em momentos capitais do jogo. Dany Jean foi um quebra-cabeças durante todo o encontro para a equipa portista, é um jogador interessante, mas tem de melhorar imenso na tomada de decisão. Uma menção honrosa ao lateral-esquerdo Javi Vásquez, cujo talento não pode andar perdido pelas divisões secundárias do nosso futebol. A equipa do Oeste (muitíssimo bem trabalhada por Luís Tralhão) perdeu essencialmente porque teve pela frente um dos melhores guarda-redes do mundo.

    Diogo Costa voltou a ser decisivo. Mais uma vez. E talvez isso devesse preocupar os portistas. Porque quando o melhor jogador da equipa é, sistematicamente, o guarda-redes, normalmente existe um problema coletivo que continua por resolver.

    Foto: Victor Sousa/Movephoto

    Os primeiros 10 minutos do FC Porto foram absolutamente inadmissíveis para uma equipa com as suas ambições. Houve dificuldades na saída de bola, erros posicionais, enorme displicência de alguns dos seus jogadores, e uma intranquilidade defensiva que permitiu ao Torreense acreditar desde o primeiro minuto.

    O problema é que estes sinais não são novos. Já tinham aparecido no final da época passada. Na altura, muitos preferiram desvalorizá-los porque os resultados iam aparecendo.

    A história do futebol ensina-nos, contudo, que nem sempre vencer significa que tudo está bem. O melhor exemplo continua a ser a temporada 2012/13.

    O inesquecível golo de Kelvin, aos 92 minutos frente ao Benfica, deu ao FC Porto um campeonato absolutamente épico. Mas também escondeu problemas que a estrutura optou por ignorar. A ideia de que bastava continuar pelo mesmo caminho revelou-se ilusória e os anos seguintes acabaram por confirmar isso mesmo.

    Não pretendo estabelecer um paralelismo absoluto. Mas o futebol tem memória. E, por vezes, os resultados mascaram problemas que acabam inevitavelmente por regressar.

    Será Farioli o homem ideal para uma equipa destes pergaminhos? Um treinador receoso, que tem um modelo de jogo bastante previsível, pouco fiável a longo prazo, e com uma aversão ao jogo ofensivo? Eu considero que não pode ser essa a mentalidade de um treinador de um clube da dimensão do FC Porto, e já o considerava antes de ter sido campeão.

    É precisamente isso que me preocupa neste FC Porto. Continuo sem perceber qual é a verdadeira ideia ofensiva de Francesco Farioli.

    A pressão alta funciona em muitos momentos e continua a ser uma arma importante. Quando a frescura física (natural que não a haja neste início de época) não é a melhor, a equipa passa a suster o seu jogo na solidez defensiva, igualmente ausente num jogo contra uma equipa de valia inferior, mas com uma identidade muito vincada no seu jogo, e extremamente personalizada.

    A circulação é lenta. A criatividade é inexistente (com claro destaque negativo para a exibição muito fraca de Gabri Veiga). Há pouca mobilidade entre linhas. Os movimentos ofensivos repetem-se, apesar de um maior jogo associativo com a presença de André Silva, mas claramente mais talhado para jogar num modelo 4-4-2 dadas as suas características.

    As substituições parecem obedecer mais a um ficheiro de Excel do que ao próprio jogo. Substituir ao minuto 60 tornou-se quase um automatismo, independentemente daquilo que a partida pede.

    Mais difícil ainda de compreender foi ver o FC Porto baixar o bloco durante largos períodos frente a uma equipa da segunda divisão, jogando num inconcebível esquema de 5-3-2. Num clube cuja identidade sempre passou por assumir os jogos, pressionar alto e sufocar os adversários, essa postura parece contradizer a própria história portista.

    E depois há Rodrigo Mora. É impossível ignorar o que está a acontecer. Desde a chegada de Farioli, um dos maiores talentos recentes da formação portista desapareceu praticamente das opções. Um jogador com criatividade, imprevisibilidade e capacidade para desbloquear jogos continua sem espaço numa equipa que revela precisamente enormes dificuldades na construção ofensiva.

    Foto: Miguel Pereira

    Será apenas uma questão física? Será uma opção técnica? Ou simplesmente um jogador que não encaixa nas ideias do treinador? O que motiva este ostracismo de Farioli a um dos filhos da casa?

    Independentemente da resposta, torna-se difícil compreender que um futebolista com aquelas características permaneça praticamente ausente enquanto a equipa revela tanta dificuldade em criar ocasiões de golo. A entrada do sul-coreano Hwang In-beom (um dos reforços para esta temporada) mexeu com o jogo, e poderá ser uma excelente adição para esta equipa portista.

    Foto: FC Porto

    Mas é curto. O FC Porto foi campeão devido a uma fulgurante primeira volta, secundado por um fantástico golpe de asa do presidente André Villas-Boas, num cirúrgico mercado de Inverno onde foi recrutar o experientíssimo defesa-central Thiago Silva (com pouca utilização, mas cujo ADN vencedor ajudou muito uma equipa na qual escasseava esse aspecto).

    Contudo, foram os ingressos do costa-marfinense Seko Fofana e do prodígio polaco Oskar Pietusewski, o motivo principal para que os portistas voltassem a ser campeões nacionais ao fim de 4 anos.

    Também a arbitragem merece referência. A decisão de não recorrer ao VAR num dos lances mais polémicos da partida (possível infração dentro da área de Hwang In-beom sobre um jogador do Torreense já dentro do tempo de descontos), deixa legítimas dúvidas e dificilmente contribui para a credibilização do próprio sistema, tão discutido durante esta última semana, devido às declarações infames provindas de uns áudios de Pedro Proença (presidente da Federação Portuguesa de Futebol e ex-árbitro internacional) sobre o colectivo arbitral.

    O máximo dirigente do futebol nacional já estava sob um grande escrutínio devido à instabilidade no seio da nossa federação, mas afirmações estapafúrdias como: “Opiniões do cidadão Pedro Proença não se confundem com as do presidente”, proferidas no fim do jogo da Supertaça, não ajudam minimamente a baixar este ruído ensurdecedor que está instalado no futebol português.

    Por fim, há outro tema que paira inevitavelmente sobre o Dragão: o futuro de Diogo Costa. A confirmar-se a sua saída, o FC Porto perderá muito mais do que um guarda-redes. Perderá o capitão, uma das vozes do balneário e, um dos melhores guarda-redes do futebol mundial.

    É legítimo que queira dar o salto para um campeonato mais competitivo, mas a SAD terá de encontrar rapidamente uma solução capaz de oferecer garantias, porque substituir um jogador desta dimensão está longe de ser uma tarefa simples.

    A mesma preocupação existe relativamente a Victor Froholdt. O médio dinamarquês tornou-se uma peça absolutamente nuclear para este modelo de jogo de Farioli, sobretudo pela intensidade na pressão e pela capacidade de ligar setores. Perder simultaneamente Diogo Costa e Froholdt seria um golpe enorme para uma equipa que já revela dificuldades em consolidar processos.

    A época ainda agora começou. Há tempo para crescer. Há tempo para melhorar. Mas também há sinais que não podem continuar a ser ignorados.

    Os tímidos assobios que já se ouviram na Supertaça são apenas um aviso. A paciência dos adeptos dificilmente será a mesma da época passada. Porque ganhar continua a ser importante.

    Mas, num clube da dimensão do FC Porto, ganhar também implica convencer. E, neste momento, o FC Porto está muito longe de o conseguir.

  • O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

    O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

    Nem todos os campeões entram para a história. Alguns tornam-se a própria história. Tadej Pogačar pertence a essa raríssima categoria. Ontem, em Paris, o indomável ciclista esloveno deixou definitivamente de correr contra os adversários para passar a correr ao lado dos deuses do ciclismo.

    O quinto Tour de France da carreira não representa apenas mais um triunfo. Representa a entrada definitiva num círculo que parecia reservado à eternidade: Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain.

    Aos 27 anos, o esloveno tornou-se também o mais jovem ciclista da história a alcançar cinco vitórias na maior prova de ciclismo do mundo, um feito que parecia pertencer apenas aos livros de história.

    Tadej Pogacar, Foto: AFP/Loice Venance

    No entanto, olhando para a forma como corre, fica a sensação de que a história ainda está longe de terminar. Porque Pogačar não compete para administrar vantagens. Compete para atacar. Compete para ganhar.

    Compete para oferecer espetáculo até ao último segundo da corrida, como foi provado pelo seu comportamento na última etapa, onde não deixou de tentar sair com mais uma vitória, arriscando em descidas bastante perigosas, sem ter necessidade nenhuma de o fazer, apenas com o intuito de continuar a escrever história e de dar espectáculo aos milhares de espectadores presentes na cidade de Paris.

    Foi precisamente isso que voltou a fazer neste Tour. Dominou a corrida de forma avassaladora, “destroçou” o recorde de Marco Pantani na mítica subida ao Alpe d’Huez (um recorde com mais de 30 anos), venceu quando era preciso vencer e mostrou, uma vez mais, que o seu talento parece não conhecer fronteiras.

    Mas reduzir Pogačar aos números seria cometer uma enorme injustiça.

    Ao longo dos últimos anos, construiu um palmarés absolutamente ímpar. Cinco Tours de France, um Giro d’Italia, dois Campeonatos do Mundo de Estrada, medalhista olímpico, um Campeonato da Europa de Estrada, várias Liège-Bastogne-Liège, Il Lombardia, Tour de Flandres, Strade Bianche, Milan-San Remo, Tirreno-Adriático, Paris-Nice e inúmeras outras provas que fazem dele um dos ciclistas mais completos da história da modalidade.

    Veremos se irá competir na Vuelta, a única Grande Volta que não consta no seu brilhante currículo. A prova começa dentro de 4 semanas, e há muita expectativa para saber se Pogačar estará na linha de partida em Barcelona para poder completar o trio de Grandes Voltas, algo que o seu grande rival Jonas Vingegaard conseguiu há uns meses com a conquista do Giro.

    O primeiro grande resultado de Pogačar foi conquistado na Volta à Espanha, já num longínquo 2019, onde o ciclista esloveno conseguiu um surpreendente, mas fantástico 3º lugar, mas não mais voltou a correr essa prova.

    Pogačar está também próximo de ganhar o único “Monumento” que lhe falta: a Paris-Roubaix, aquela que muitos consideram a prova mais difícil do ciclismo, e que muitos consideravam que alguém com a morfologia do ciclista esloveno, jamais poderia ser competitivo ou aspirar a ganhar essa corrida.

    O que é certo é que o Pogačar não entende de impossíveis, e nas últimas edições esteve bastante perto de cortar a meta em primeiro lugar no velódromo de Roubaix, ficando em segundo lugar perante ciclistas do calibre de Mathieu van der Poel e Wout van Aert. Certamente que no próximo ano, voltará a tentar a sua sorte, e ninguém poderá deixar de o considerar um dos grandes favoritos à conquista dessa lendária prova do ciclismo.

    Mais impressionante ainda é a forma como conquistou tudo isto. Enquanto muitos campeões vencem pela força da estratégia e da contenção, Pogačar fá-lo através da criatividade.

    Ataca quando ninguém espera, acelera onde os outros hesitam, transforma etapas aparentemente previsíveis em autênticos espetáculos e parece divertir-se genuinamente em cima da bicicleta. Corre sempre com um sorriso contagiante, como se nunca tivesse esquecido que, antes de ser campeão, foi um rapaz apaixonado por ciclismo.

    É precisamente por isso que me custa compreender uma ideia que, de tempos a tempos, volta a surgir: a de que Pogačar “arruinou” um desporto tão competitivo como o ciclismo. Na minha perspetiva, aconteceu exatamente o contrário.

    A narrativa de que Pogačar “estragou” o ciclismo nunca fez muito sentido na minha modesta opinião. Um campeão pode tornar uma competição previsível; não a torna menos bela. E, no caso de Pogačar, o seu estilo ofensivo fez precisamente o contrário: devolveu ao ciclismo um espetáculo que muitos sentiam perdido.

    Os grandes campeões nunca diminuíram as suas modalidades: engrandeceram-nas. Michael Jordan não estragou a NBA. Roger Federer não estragou o ténis. Lionel Messi não estragou o futebol. E Tadej Pogačar não estragou o ciclismo.

    O seu domínio, a sua personalidade cativante e o seu estilo ofensivo devolveram ao ciclismo uma capacidade rara de apaixonar quem já era fã e, talvez mais importante, de conquistar quem se tinha afastado da modalidade. Eu próprio sou um desses exemplos.

    Depois do escandaloso caso de doping que envolveu Lance Armstrong, perdi grande parte da ligação emocional ao ciclismo. Durante anos, acompanhei a modalidade com muito menor entusiasmo. Foi Pogačar quem me fez voltar a ganhar esse interesse pela modalidade. Não apenas porque ganha, mas porque me faz sentir que cada etapa pode oferecer algo diferente.

    Esse talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um desportista. Não apenas vencer. Fazer com que mais pessoas queiram voltar a ver o seu desporto.

    E talvez por isso tenham sido ainda mais difíceis de compreender os constantes assobios que o esloveno voltou a receber ao longo desta edição do Tour.

    É inevitável pensar que parte dessa hostilidade nasce da enorme frustração do público francês por continuar sem celebrar um vencedor da sua corrida desde Bernard Hinault, em 1985. Quatro décadas de espera ajudam a explicar um ambiente por vezes pouco acolhedor para quem domina a prova ano após ano.

    Explicar, contudo, não significa justificar. Porque uma coisa é desejar fervorosamente que haja um campeão francês. Outra, muito diferente, é assobiar um atleta que apenas faz aquilo que qualquer desportista sonha fazer: competir melhor do que todos os outros.

    Pogačar nunca desrespeitou o Tour, os adversários ou o público francês. Sempre demonstrou humildade nas vitórias, respeito nas derrotas e uma simpatia que raramente abandona o seu rosto. É um campeão que vence com um sorriso e que continua a tratar os rivais como companheiros de profissão, nunca como inimigos. Este Tour voltou a ser disso exemplo.

    Na luta pela classificação geral, o belga Remco Evenepoel confirmou finalmente a evolução que tantos esperavam, alcançando um excelente segundo lugar e demonstrando que pode, no futuro, voltar a discutir Grandes Voltas até ao fim.

    Logo atrás, surgiu um extraordinário Isaac del Toro, terceiro classificado e fiel escudeiro de Pogačar, numa demonstração de enorme maturidade. O jovem mexicano beneficiou também da confiança e da proteção do próprio Pogačar em momentos decisivos, um sinal da liderança serena que o esloveno exerce dentro da UAE Emirates.

    Ainda mais surpreendente foi o Tour do francês Paul Seixas. Com apenas 19 anos, realizou uma prova memorável, discutiu os primeiros lugares da classificação geral e deixou no ar a sensação de que França poderá finalmente ter encontrado o sucessor que procura há tantos anos.

    Na última semana, o espetáculo teve ainda outro protagonista. Richard Carapaz correu como poucos se atrevem a correr nos dias de hoje. Venceu duas etapas, conquistou a camisola da montanha e lutou praticamente até ao último quilómetro pela possibilidade de conquistar quatro etapas (!) no espaço de pouco mais de uma semana. Num ciclismo cada vez mais calculado, o equatoriano recordou-nos que o espectáculo continua bem vivo.

    Nem tudo foram boas notícias. As quedas de Jonas Vingegaard e Florian Lipowitz retiraram à corrida dois protagonistas que poderiam ter enriquecido ainda mais a luta pela classificação geral. Particularmente no caso do dinamarquês, ficou sempre a sensação de que o grande duelo que todos aguardavam acabou por nunca acontecer, apesar de no momento da queda, já estar a mais de 2 minutos de Tadej Pogačar.

    Também Juan Ayuso esteve muito longe do esperado. Aos 23 anos, deixou a UAE Emirates precisamente para liderar a equipa da Lidl-Trek, e enfrentar Pogačar de igual para igual. Terminou apenas na sétima posição, a mais de 17 minutos do antigo colega de equipa, numa prestação claramente abaixo do enorme potencial que continua a possuir.

    Já a imagem mais arrepiante deste Tour aconteceu na 20.ª etapa. A queda de Sepp Kuss, numa descida enquanto rodava a alta velocidade, fez gelar milhões de espectadores. Apenas as redes de proteção impediram que o norte-americano caísse no vazio, evitando uma tragédia que poderia ter marcado para sempre esta edição da prova.

    Mas, quando o Tour terminou, todas essas histórias acabaram inevitavelmente por convergir para uma só. A de um homem que continua a redefinir aquilo que julgávamos impossível.

    Daqui a muitos anos continuar-se-á a discutir quem foi o maior ciclista de todos os tempos. Os defensores de Merckx apresentarão argumentos irrefutáveis. Os admiradores de Hinault, Indurain ou Anquetil farão o mesmo.

    Mas uma coisa já ninguém poderá negar. Tadej Pogačar conquistou definitivamente o direito de se sentar à mesma mesa. E, para muitos (entre os quais me incluo) talvez já nem se sente ao lado deles. Talvez seja, simplesmente, o homem que pedala um pouco mais à frente.

  • Quem tem medo de salvar o Boavista?

    Quem tem medo de salvar o Boavista?

    O Boavista FC está ligado às máquinas, em paragem cardiorrespiratória, e a verdade tem de ser dita com a frontalidade que o futebol moderno tanto teme. O esforço heroico do Movimento Salvar o Boavista, liderado por adeptos anónimos e figuras como Pedro Pires de Lima, que dão a cara, o corpo e o próprio bolso para juntar 55 mil euros todos os meses, é uma lição de amor ao clube. Mas sejamos realistas: isto é colocar um penso rápido numa hemorragia de 150 milhões de euros. É insustentável. É insuficiente.

    Esta situação é decorrente do investimento feito nas obras para o Europeu 2004 que modernizaram o Bessa. Nessa altura, o Estado, as autarquias, os políticos e as grande empresas que lucraram milhões, todos estavam muito felizes pela realização da competição em Portugal.

    E agora? É revoltante ver um grupo de sócios cumpridores a tentar fazer omeletes sem ovos, enquanto os verdadeiros tubarões financeiros e as entidades competentes olham para o lado. Onde estão os donos do país nesta hora de aflição? Onde estão gigantes como o Grupo Jerónimo Martins, a Galp ou a Sonae da família Azevedo, que faturam milhares de milhões de euros todos os anos no nosso território e fecham os olhos à destruição de uma das maiores instituições desportivas do Norte? Falta coragem económica a quem tem os cofres cheios para perceber que o Boavista não precisa de caridade, precisa de investimento estratégico.

    Estes adeptos e movimentos independentes que lutam diariamente nas ruas e nas redes sociais não têm a capacidade financeira, nem o poder legal que legisladores, o Estado e a Câmara Municipal do Porto detêm. O clube tem património. O Estádio do Bessa vale ouro. Se tivéssemos uma liderança política na autarquia verdadeiramente empenhada na defesa do tecido social da cidade, e não apenas na burocracia, a solução já estava a andar.

    Com a crise e especulação imobiliária que vivemos no país, a salvação do Boavista passa obrigatoriamente por transformar o perímetro do Bessa num mega-complexo urbano multiusos. Estamos a falar de rasgar o atual Plano Diretor Municipal e construir habitações de luxo nas bancadas inacabadas, projetar uma grande clínica médica privada, um hotel corporativo e espaços comerciais que gerem receitas contínuas. Uma operação imobiliária com 150 apartamentos de luxo vendidos a 1,25 milhões de euros cada geraria mais de 187 milhões de euros brutas. O lucro limpava a dívida à Somague e ao Fisco de uma assentada.

    Para isso acontecer, o Estado e a Câmara do Porto não têm de meter um único cêntimo do erário público. Só têm de fazer o seu trabalho: facilitar, reestruturar as dívidas fiscais, agilizar as licenças e alterar o PDM para que os grandes fundos de investimento privados internacionais queiram injetar aqui o capital.

    Enquanto a burocracia asfixia o clube e as maiores fortunas de Portugal assistem de camarote à insolvência, o povo boavisteiro vai fazendo milagres. Mas o tempo das desculpas acabou. O Bessa tem valor de sobra para se salvar a si próprio. Só falta saber se quem manda tem a coragem política de assinar os papéis ou se vai preferir carregar no caixão de um histórico do nosso futebol.