Um dia, ainda enquanto treinador do FC Porto, José Mourinho surpreendeu toda a gente ao anunciar em conferência de imprensa o onze inicial da sua equipa para o jogo do dia seguinte. E não era um jogo qualquer: era um clássico!
Mas, na era dourada dos ‘mind games’, Mourinho chegou a ir ainda mais longe. Imagine-se que, em certa ocasião, chegou a anunciar… o onze inicial da equipa adversária.
Já foi há muitos anos, é verdade, mas a essência de José Mourinho é a mesma. Continua a apresentar-se em cada conferência de imprensa com a perfeita consciência de que é nesse momento que cada jogo começa. E sabendo que também não acaba quando o árbitro pela última vez: termina, apenas, quando Mourinho vai à sala de imprensa, após o jogo, para explicar porque ganhou, empatou ou perdeu.
É verdade que, ao longo da carreira, ganhou muito mais vezes do que perdeu: 738 vitórias, 250 empates, 207 derrotas. Não é preciso ‘Googlar’, nem perder muito tempo à procura de vídeos no Youtube para ter a certeza de que as conferências de imprensa de Mourinho mais marcantes estão naquele conjunto de 207 derrotas.
Quase sempre – fosse no Benfica, na União de Leiria, no FC Porto, no Chelsea, no Inter, no Real Madrid, no Manchester United, no Tottenham, na Roma ou no Fenerbahçe – a versão mais explosiva de Mourinho foi sempre vista nesses momentos de derrota e, por consequência, desilusão.
Mourinho é, assumidamente, alguém que tem pouco fair-play. Foi o próprio, ainda agora, ao ser apresentado no Seixal, que sublinhou ser alguém que lida muito mal com os desaires e que, por vezes, reage mal. Ou, até, muito mal.
Nos últimos anos, de resto, têm sido mais impactantes os momentos de comunicação de José Mourinho do que propriamente a qualidade do ‘jogar’ das suas equipas. Mourinho tem sido mais vezes notícia pelas chorudas indemnizações que tem recebido do que pelos títulos conquistados.
Há 20 anos, quando foi – justamente – considerado o melhor treinador do Mundo, Mourinho era brilhante em tudo: nas salas de imprensa e no campo. As coisas mudaram e é difícil saber exatamente porquê e quando. Mas foi há muito tempo.
De regresso a Portugal e, também, de regresso ao Benfica, a expetativa para as próximas semanas é gigantesca. Trata-se, indiscutivelmente, de uma das três maiores figuras da história do futebol português (juntamente com Eusébio e Cristiano Ronaldo) e, só por isso, estes momentos que estamos a viver são… história.
Não é fácil ser Mourinho. Nem, sequer, é fácil tentar ser Mourinho. Mas, se o fosse, terminaria este texto… “à Mourinho”. Dizendo o onze do Benfica no jogo que marca a sua estreia nesta sua ‘segunda vida’ de águia ao peito:
Trubin; Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Dahl; Enzo, Ríos; Aursnes, Sudakov, Schjelderup; Pavlidis.

Deixe um comentário