O labirinto de Villas-Boas

O labirinto de Villas-Boas

O dia 27 de abril de 2024 ficará para a história do FC Porto como uma das datas mais simbólicas e transformadoras da sua existência. Está agora a cumprir-se um ano sobre a surpreendente (?) vitória de André Villas-Boas sobre Jorge Nuno Pinto da Costa, que pôs fim a um estilo e a uma liderança de 42 anos. Aconteceu, pois, o impensável: os sócios decidiram-se pelo afastamento do seu líder histórico e, ainda por cima, com o esmagador resultado de 80% dos votos para a lista que se “atreveu” a concorrer contra PC.

A dimensão da vitória de Villas-Boas trouxe-lhe, igualmente, um peso proporcional na responsabilidade. O FC Porto deixara de ganhar no futebol com a frequência a que estava habituado, a hegemonia nacional desaparecera e a situação financeira atingira o seu ponto mais crítico. Bateu no fundo! O novo presidente sabia, desde a primeira hora, a missão que o aguardava: devolver a credibilidade e a respeitabilidade a um clube e a uma SAD que tinham claramente sido vítimas de gestão danosa durante longos anos. Era o início da subida de uma longa montanha.

Os problemas a resolver eram tantos (e continuam a ser…) que o mais difícil era decidir por onde iniciar a missão. André Villas-Boas começou pela decisão mais importante de todas: a escolha do treinador. Por mais competentes, valiosos e imprescindíveis que sejam CEO’s ou CFO’s, num clube/SAD de futebol, nada é mais importante do que o treinador. Não apenas por se tratar do principal porta-voz da organização (faz, no mínimo, 100 conferências de imprensa por temporada!), mas principalmente por ser ele o responsável máximo pela gestão de ativos (jogadores), que será sempre o bem mais precioso de uma Sociedade Desportiva.

O caminho que André Villas-Boas escolheu foi o da ruptura: afastou o treinador com maior sucesso na história do FC Porto (mais jogos, mais títulos e mais tempo no cargo) e escolheu… o seu adjunto. Aposta de risco? Enorme! Onze troféus, 7 épocas e 378 jogos depois, Sérgio Conceição foi trocado por aquele que era o seu braço-direito. Só havia duas hipóteses, a partir daqui: ou corria muito bem ou corria muito mal.

Vítor Bruno até conseguiu no seu primeiro jogo fazer aquilo que Sérgio Conceição tinha feito no último: erguer um troféu. VB venceu a Supertaça (4-3 ao Sporting) no primeiro jogo oficial de 2024/25, “imitando” o que SC tinha conseguido no seu jogo de despedida – vencer a Taça de Portugal (2-1 ao Sporting), no palco do Jamor.

Aparentemente, os astros pareciam ter-se alinhado a favor da escolha de AVB. Pura ilusão. A época foi avançando e rapidamente se percebeu que o “novo” FC Porto estava muito longe de poder competir de igual para igual com os rivais de Lisboa. E não apenas por responsabilidade ou incapacidade de Vítor Bruno. O plantel tinha perdido, entretanto, referências fundamentais como Pepe ou Taremi, Francisco Conceição ou Evanilson. E nada seria – nem poderia ser – como dantes.

Não foi apenas Vitor Bruno a escolha de risco de André Villas-Boas. Fazer regressar ao Dragão uma figura (praticamente) consensual como Jorge Costa, até foi entendido como uma decisão acertada e natural para o reforço da estrutura, mas o mesmo já não pode ser dito relativamente ao diretor desportivo. A capacidade de Andoni Zubizarreta para o cargo gerou dúvidas que, até agora, vão persistindo. E as duas janelas de mercado (verão e janeiro) deixaram expostas as fragilidades de Zubizarreta, que tem de ser visto como o principal responsável pela falta de competitividade do atual plantel dos dragões.

Quando, a 27 de abril de 2025, se cumprir um ano sobre a chegada de Villas-Boas à presidência, o FC Porto ainda estará envolvido com o Sp. Braga na luta pelo pódio da Liga – isto, numa época em que a equipa acabou eliminada pelo Moreirense na Taça de Portugal, em que se ficou pela meia-final da Taça da Liga e em que não foi além do playoff de acesso à Liga Europa. Venceu, como já se disse, a Supertaça. E veremos o que faz, em junho, no Mundial de Clubes.

O FC Porto já soma esta época 12 derrotas e é preciso recuar até 2015/16 para se encontrar uma temporada igual ou pior do que esta. Há uma década, num ano em que a equipa teve três treinadores (Lopetegui, Rui Barros e Peseiro), os dragões perderam 14 jogos. Nunca mais se atingiu um número tão alto como agora – quando existem ainda, pelo menos, mais 7 jogos para cumprir (4 da Liga e 3 no Mundial de Clubes).

André Villas-Boas falhou, pois, em duas escolhas essenciais: treinador e diretor desportivo. Trocou, entretanto, Vítor Bruno por Martín Anselmi (a avaliação justa ao argentino só poderá ser feita a partir de 2025/26), mas continua a aguentar o insustentável peso de Zubizarreta. Veremos até quando.

Do ponto de vista político, o presidente do FC Porto somou, também, uma pesada derrota no processo eleitoral da Liga – depois de ter apostado fortemente no apoio ao candidato José Mendes, que acabaria massacrado nas urnas por Reinaldo Teixeira.

Já depois disso, novos sinais de um FC Porto à deriva, agora com a polémica farra que levou à suspensão de vários jogadores – alguns deles reforços… de Zubizarreta – o que deixa bem evidente o défice de liderança que existe hoje no balneário do Olival. No balanço (negativo) dos primeiros 365 dias de AVB, é ainda impossível não registar, claro, as duas derrotas pesadas (4-1) frente ao rival Benfica nos dois jogos da Liga.

Pela positiva, é justo destacar a elevação e o sentido de responsabilidade que Villas-Boas mostrou na morte de Pinto da Costa. Exemplar.


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