
O Lousanense está a cumprir uma época de sonho na 1.ª Divisão da AF Coimbra. Mas o que realmente impressiona é o ataque demolidor (123 golos marcados em 32 jogos) e a defesa de betão (22 golos sofridos). Com o título confirmado falta erguer o troféu de campeões, que lhes será entregue no último jogo do campeonato, em casa, diante do União 1919 ‘B’. Neste título, o sub-capitão de equipa teve um papel crucial: o antigo defesa recebeu a camisola 10 e passou a extremo. Ausente do futebol português há 8 anos e parado há 4 épocas, Pedro Galvão regressou à sua Lousã para fazer história.
Aos 36 anos, Galvão foi, então, buscar as chuteiras ao armário para ajudar o Lousanense, o clube da terra dos pais. Após deixar, temporariamente, o futebol aos 30 anos, o desejo de contribuir com “mais golos, mais assistências e ter mais bola” falou mais alto, ajustando a sua posição em campo. Resultado? Fez a época mais goleadora da carreira, com 6 golos em 16 jogos, um deles crucial, no triunfo (4-3) em casa do ACR Seixo Mira.

Este regresso revelou-se, então, um reencontro com as suas raízes e o despertar de uma paixão adormecida. A campanha do Lousanense foi avassaladora, com um plantel em que “nenhum jogador é remunerado”, um feito raro. O “espírito de grupo e compromisso” foram a chave para o título.
Durante alguns anos, o Lousanense não teve equipa sénior. Pelo que não haveria melhor resposta, por parte dos jogadores, do que fazer uma época impressionante para voltar a atrair a massa adepta da vila da Lousã.
E, para ajudar, Galvão, que nasceu nos Estados Unidos e é filho de pais emigrantes, admitiu, então, que a sua participação “não é só no campo, mas também fora dele por transmitir experiência” aos mais jovens. Desta forma, também se sente “realmente importante” por ajudar os colegas e a direção.
O Lousanense não tem um jogador que receba salário ao fim do mês. Para Galvão, o segredo do sucesso está no “compromisso de todo o plantel”. Além disso, a equipa técnica, que diz ser, então, “muito dedicada”, tem um “nível de detalhe e rigor pouco comum, mesmo para alguns clubes da Segunda Liga ou Liga 3”. A “irreverência dos jovens”, aliada à “agressividade na recuperação da posse” e a um “jogo coletivo” são as armas que fizeram desta equipa um caso sério de sucesso.

“Quando se joga em equipa, é muito mais fácil marcar golos. Não desistimos e não tiramos o pé do acelerador. Queremos marcar sempre. Aprendi no futebol que devemos respeitar os nossos adversários a marcar golos”, revela Galvão, em exclusivo, ao Craques. Uma fórmula de sucesso para uma equipa que apresentou, então, uma média de 3,84 golos marcados por partida, no campeonato.
Os jogos frente à Académica ‘B’ tiveram um sabor especial para Galvão. O agora extremo fez grande parte da sua formação na Briosa e chegou a integrar duas pré-épocas com Domingos Paciência (em 2007/08 e 2008/09), além de participações regulares nos treinos da equipa principal, ainda enquanto júnior. Mesmo sendo a equipa ‘B’ da Académica, este encontro trouxe-lhe uma forte carga sentimental. “É um emblema que me diz muito. Embora seja a equipa ‘B’, fiquei um pouco mais emocionado”, confessou.
Sobre o futuro, Galvão ainda não tomou uma decisão. O clube conta com ele para 2025/26 mas a voz da experiência diz-lhe para ponderar, devido a compromissos familiares e profissionais. “Se for para continuar a jogar, só pode ser no Lousanense. Voltei a jogar para estar no Lousanense”, admite. Sem ambições no futebol, para além de ser jogador, o canhoto sabe que, independentemente da escolha, será “sempre um adepto do clube.”
A caminhada rumo ao título e posterior conquista foi sempre acompanhada por uma verdadeira revolução na relação entre o clube e a comunidade. Depois de anos sem equipa sénior, o apoio dos adeptos tem sido, então, fundamental para esta nova era. “Tivemos casas que invejam equipas de ligas profissionais. Chegámos a ter 900 adeptos no campo a ver-nos jogar”, descreve Galvão, com orgulho.

Esta simbiose entre clube, jogadores e população tem sido um fator-chave para o êxito. No último jogo em casa, agendado para o próximo sábado, será finalmente levantada a tão desejada Taça de Campeão – um momento que representa não apenas um título, mas o renascimento do clube. “Esperamos que no futuro sejam bem mais adeptos a acompanhar esta equipa”, afirma Galvão, com a certeza de que a chama do Lousanense voltou a arder intensamente.






