Há dois países – Portugal e Espanha – que disputam hoje o título de melhor escola de treinadores do Mundo. Pep Guardiola é habitualmente reconhecido, por muitos analistas e observadores, como o melhor de todos os tempos, aquele que provocou uma profunda mudança na forma de se olhar para o jogo. Houve quem admirasse desde o início e houve quem… desconfiasse. Era o tempo, por volta de 2010, em que se discutia os méritos e as vantagens (ou não) de ter tanta posse de bola, tanto domínio e tanto controlo. Para Pep, o controlo do jogo através da bola não era mais do que um meio para atingir o fim: a vitória.

O número de títulos que Pep Guardiola conquistou – em Espanha, na Alemanha e em Inglaterra – e os sucessivos recordes que foi quebrando acabaram por convencer até os mais “resistentes”. Guardiola transformou, de facto, o futebol mundial. E se a questão estética até pode continuar, ainda hoje, a merecer discussão e reflexão, já os resultados e os troféus conquistados falam por si e não dão espaço para debate: o treinador catalão do City é o segundo técnico com mais títulos na história do futebol mundial, apenas atrás de Alex Ferguson. É um daqueles casos, pois, em que primeiro estranha-se e depois… entranha-se.

Na linha dos bons – excelentes! – treinadores espanhóis que foram aparecendo na sequência do fenómeno Guardiola, temos hoje outros casos de sucesso como Luis Enrique (finalista da atual edição da Champions League, com o PSG), Unai Emery (atualmente no Aston Villa, mas com uma carreira incrível na última década), Andoni Iraola (a surpreender meio mundo com um trabalho notável na Premier League, no Bournemouth), Xabi Alonso (campeão na época passada no Bayer Leverkusen e próximo líder do Real Madrid), para não falar de Mikel Arteta (Arsenal), Míchel (Girona) ou, entre outros, do selecionador Luis de la Fuente, vencedor do Euro 2024, e até de Cesc Fàbregas, com um início de carreira prometedor na Série A, em Itália.

E Portugal? Tem hoje treinadores ao nível desta qualidade – e quantidade – que Espanha apresenta? Sim, claramente. Não há ninguém ao nível de Pep Guardiola, é verdade, e não apenas pelo número de títulos. Não há nenhum treinador português que tenha tido, obviamente, a capacidade que ele teve para revolucionar o jogo e a forma como todos olhamos para ele. A marca e o legado de Guardiola estão apenas ao nível do que Johan Cruyff e Rinus Michels conseguiram muitos anos antes. Curiosamente, os dois treinadores que acabaram por influenciar o pensamento do próprio catalão.

Marco Silva catapultou o Fulham para um patamar superior na Premier League

Mas Portugal também tem, indiscutivelmente, um conjunto de treinadores de alto nível, que disputam com Espanha o título de “melhores do Mundo”. Desde logo, os quatro treinadores que temos hoje na Premier League. Marco Silva teve a capacidade de transformar o Fulham e elevá-lo a um nível de consistência que nunca tinha tido na sua história. Nuno Espírito Santo, no Nottingham Forest, desafiou a lógica e andou durante largos meses, esta época, em zona de Champions League. Vítor Pereira herdou um Wolverhampton em crise aguda e, de repente, tornou-se um herói na cidade e o responsável por uma série incrível de vitórias consecutivas sem paralelo na história do clube. E temos, claro, Ruben Amorim – que falhou o objetivo de recolocar o Manchester United na rota do título, mas que, em apenas seis meses de Old Trafford, já conseguiu a incrível proeza de qualificar um clube à deriva… para a final da Liga Europa!

Não se fica por Inglaterra, como é óbvio, a competência do treinador português: Sérgio Conceição chegou ao AC Milan e rapidamente venceu um título (Supertaça) e qualificou ainda a sua equipa para Final da Taça de Itália (a disputar no dia 14, com o Bolonha). Na Supertaça, bateu o Inter na final e na Taça afastou o mesmo Inter, com uma vitória clara (3-0) no jogo da 2.ª mão. Ou seja, em apenas quatro meses de futebol italiano, Conceição já defrontou o rival Inter quatro vezes, com dois empates e… duas vitórias! O Inter, relembremos, que é “apenas” finalista da Champions League.

No Brasil, depois do estrondoso sucesso de Jorge Jesus no Flamengo, parecia que seria impossível repetir a proeza de vencer na mesma época o Brasileirão e a Copa Libertadores. Não foi. Abel Ferreira (Palmeiras) fez ainda melhor do que Jorge Jesus – duplicando, até, a proeza – e seguiu-se ainda Artur Jorge (Botafogo), que também ganhou Brasileirão e Libertadores – sendo que, neste caso, venceu a final jogando com 10 jogadores… desde o 1.º minuto!

Há mais casos, muitos mais, que atestam a excelência do treinador português – sem sequer ser preciso recorrer a duas referências históricas como Carlos Queiroz e José Mourinho. Paulo Fonseca, por exemplo, já deu provas de ser um dos treinadores mais interessantes dos novos tempos. Leonardo Jardim (hoje no Cruzeiro) brilhou no Mónaco, há uns anos, e tem no currículo a Liga dos Campeões Asiática. Fernando Santos levou a Seleção Nacional ao ponto mais alto de sempre (Euro’2016). Rui Vitória já deu provas de enorme competência, na Arábia Saudita, no Egito e agora na Grécia. Luís Castro brilhou no Brasil e na Ucrânia. E Jorge Jesus, ao serviço do Al-Hilal, conseguiu inclusivamente entrar para o Livro de Recordes do Guiness como o treinador com mais vitórias consecutivas na história do futebol: 34 jogos seguidos sempre a vencer.

Bruno Lage e Rui Borges não estão, ainda, no mesmo patamar dos treinadores portugueses já aqui referidos, mas um deles pode ser campeão nacional já este sábado e, de alguma forma, candidatar-se a entrar na (longa) lista dos melhores portugueses da atualidade.


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