
O Alverca encerra esta sexta-feira a temporada 2024/25 e, aconteça o que acontecer, o trabalho do treinador Vasco Botelho da Costa é digno de nota máxima e, provavelmente, deve mesmo ser considerado como um sério candidato a melhor treinador da época no futebol profissional em Portugal.
Em condições normais, caso não tivesse saído em novembro de Alvalade para o Manchester United, o melhor treinador da temporada que agora chega ao fim iria ser, com toda a certeza, Rúben Amorim. Mas não é possível ser para ele essa distinção porque, apesar de brilhantes, disputou apenas 11 jornadas (não esquecendo, claro, arranque fulgurante dos leões na Champions League, onde se conta essa goleada, por 4-1, ao Manchester City).
Não podendo ser Ruben Amorim, quem merece, então, ser o melhor treinador do futebol profissional em Portugal na época que está a chegar ao fim? O normal seria considerar aquele que, naturalmente, for campeão. Acontece que nem Rui Borges nem Bruno Lage foram brilhantes o suficiente, nunca empolgaram verdadeiramente e, na realidade, com um FC Porto tão abaixo do normal, o vencedor teria mesmo de ser um deles.
Rui Borges chegou ao Sporting vindo de um Vitória de Guimarães onde estava a cumprir uma brilhante Conference League, é verdade, mas onde também somava apenas dois (!!!) triunfo nos últimos dez (!!!) jogos feitos pelos vimaranenses na Liga antes de ser contratado por Frederico Varandas.
Já no Sporting, é verdade que não somou qualquer derrota até ao jogo decisivo que vai disputar no sábado (frente ao Vitória, curiosamente) e que lhe pode valer o título de campeão nacional. Não é difícil reconhecer, porém, que o eventual título do Sporting, a acontecer, se deve muito mais a Gyökeres, Trincão, Hjulmand e… Amorim do que a Rui Borges.
No caso do Benfica, Bruno Lage também acumulou demasiados altos e baixos. Teve séries alargadas de vitórias, sim, mas onde raramente conseguiu apresentar um futebol convincente – com exceção de três ou quatro jogos. E não foi capaz, nos momentos decisivos, de fazer valer a qualidade superior de um plantel e justificar o investimento brutal que foi feito para vencer a Liga. Perdeu consecutivamente com Sporting (em Alvalade) e Sporting de Braga (na Luz). Foi derrotado de forma quase humilhante por um modesto Casa Pia (3-1) e, já na reta final, quando não podia falhar, cedeu dois empates caseiros que podem ter comprometido o campeonato: o 2-2 com o Arouca e, na semana passada, o 1-1 frente ao rival – a quem bastava vencer para, praticamente, carimbar o 39. Assim, o Benfica e Bruno Lage chegam à jornada final a precisar… que o adversário falhe para que o “milagre” aconteça.

Na Primeira Liga há dois nomes que merecem destaque: Vasco Matos e Ian Cathro. Notável o trabalho do treinador português do Santa Clara, que, na época do regresso da equipa açoriana à I Liga, consegue chegar à última ronda a lutar pelo acesso ao 5º lugar e, por consequência, à Conference League. E igualmente extraordinário o trabalho do técnico escocês do Estoril Praia, que depois de um arranque muito tímido – e a gerar desconfianças entre os próprios adeptos – acaba por chegar à penúltima jornada com 43 pontos e ainda com possibilidade de alcançar a 3.ª melhor pontuação de toda a história do Estoril na I Liga – apenas atrás de Marco Silva e Fabiano Soares. E, quer no caso do Vasco Matos, quer no caso de Ian Cathro, com equipas a apresentar ideias de jogo diferentes, mas em ambos os casos sempre na busca do jogo positivo.
O caso mais impressionante no futebol profissional em Portugal, no entanto, chega-nos da Liga 2, através de Vasco Botelho da Costa. Para os mais distraídos, a proeza do treinador do Alverca é “apenas” isto: chegou ao Alverca à 5.ª jornada, quando a equipa somava… 0 vitórias. Tinha perdido um jogo e empatado outros três nas primeiras quatro jornadas, com Zé Pedro ao comando. Ou seja, o Alverca, praticamente com o mesmo plantel que tinha acabado de subir da Liga 3, ocupava o 14.º lugar na classificação. E a derrota caseira à 4.ª jornada (0-4, frente ao Académico de Viseu) fez estalar o chicote.
O homem contratado para manter o Alverca na Liga 2 – o objetivo não era mais do que manter – foi Vasco Botelho da Costa, um jovem de 35 anos, que tinha passado com absoluto sucesso em duas temporadas pelos sub-23 do Estoril Praia (duas vezes campeão nacional e duas vezes vencedor da Taça da Liga Revelação) e também pela União de Leiria: campeão nacional da Liga 3.
O mais incrível foi que, mesmo tendo apenas o “curto” objetivo de manter o Alverca na Liga 2, Vasco Botelho da Costa embalou para uma temporada sensacional e está, a uma jornada do fim, muito perto de garantir o regresso do Alverca à I Liga!!! Nas últimas três saídas, por exemplo, o Alverca foi empatar ao sensacional Vizela (equipa ainda sem derrotas em 2025!), foi vencer a Chaves (com quem, na altura, ainda lutava pelos lugares de promoção) e, por fim, foi ganhar ao Tondela, líder da Liga 2.
Agora, com um jogo para a competição terminar, ao Alverca basta vencer o jogo desta sexta-feira (em casa, com o Portimonense) para subir ao escalão principal, onde não está… há mais de 20 anos. E o principal obreiro desta proeza (na pior das hipóteses, ainda jogará o playoff de promoção) chama-se Vasco Botelho da Costa – que está perto do milagre de conseguir a subida de uma equipa que tinha acabado de vir da Liga 3 e cujos responsáveis não pediam mais do que… manter a equipa no segundo escalão.
Vasco fez o milagre da multiplicação dos pontos, com um plantel de valor inferior a mais de 50% dos adversários, e a jogar um futebol com uma qualidade que não se via naquele clube há muitos anos. E é por isso que devemos considerar como um dos melhores treinadores da temporada – provavelmente o que tem melhor trabalho realizado nos dois escalões do futebol profissional em Portugal. O salto para o mais alto patamar do nosso país – e para um clube com outras ambições – é mesmo uma questão de tempo. E não deve estar muito longe.






