Duas histórias, um objetivo comum. Júlia Becker, do Brasil, e Chloe Gorman, dos Estados Unidos, são as únicas jogadoras estrangeiras no primeiro Estágio da Jogadora do Sindicato dos Jogadores, em Portugal. Ambas procuram um novo clube na Europa, enfrentando a “ansiedade, o nervosismo e a incerteza” de um futuro ainda por definir. Este estágio representa uma oportunidade crucial para se manterem ativas e visíveis no competitivo mundo do futebol feminino. Esta é a primeira de algumas entrevistas do Craques.pt junto do Sindicato dos Jogadores.
Júlia Becker, defesa brasileira de 25 anos, e Chloe Gorman, defesa norte-americana de 31 anos, partilham mais do que a zona do campo. Ambas deixaram os seus países de origem em busca de oportunidades no futebol europeu, mas encontram-se agora numa fase de transição: estão sem clube para a próxima temporada. O Estágio da Jogadora, promovido pela primeira vez em Portugal, pelo Sindicato dos Jogadores, surge como um porto seguro, oferecendo-lhes a “estrutura” necessária para manterem a forma física e a esperança de um contrato.
A descoberta do sindicato
Chloe Gorman, que já tinha experiência em Portugal, tendo jogado no Estoril Praia de 2018 a 2022, viu no projeto do Sindicato uma oportunidade para regressar ao país e encontrar um novo clube. “Já tinha jogado aqui em Portugal antes de ter ido para outros lados e quis voltar. Depois vi que este projeto era uma grande oportunidade para encontrar um clube cá”, revelou.

Júlia Becker, por outro lado, chegou a Portugal vinda da Lituânia, onde jogava no MFA Zalgiris. A sua decisão de vir para um país “mais quente” e com melhores “condições de vida” foi crucial. “Recuso-me a jogar na neve de novo, mas quero continuar na Europa. Não quero voltar para o Brasil. E pensei: ‘Vou para Portugal, que pelo menos, é quente’”, afirmou Júlia. Ela acrescentou: “Vim para cá e só me falta encontrar um clube. Entrar nas equipas que já estão a treinar era difícil, então vi aqui uma alternativa para continuar a treinar e estar em forma para quando a oportunidade surgir.”
As dificuldades e a ansiedade da incerteza
Ambas as jogadoras partilham a ansiedade e a incerteza de não terem um clube para a próxima temporada. Júlia Becker menciona que, apesar de Portugal ser mais acolhedor que os países frios onde jogou anteriormente (Bulgária e Lituânia), vê “este período com muita ansiedade e angústia de querer estar a jogar e a treinar. Além das questões financeiras, claro.”

Chloe Gorman ecoa este sentimento, destacando que “a ansiedade, o nervosismo e a incerteza de não saber se vamos jogar ou treinar” são as maiores dificuldades. A norte-americana também sublinha a necessidade de encontrar uma fonte de rendimento: “Ao mesmo tempo que não temos clube precisamos de dinheiro para sobreviver e estar em casa é pior, porque ainda não tenho outro trabalho.”
O apoio fundamental do sindicato
O Sindicato dos Jogadores tem desempenhado um papel, então, crucial na vida de Júlia e Chloe. Júlia Becker salienta que “o Sindicato faz um trabalho muito importante para as atletas que querem continuar ativas, mesmo sem clube. Toda a estrutura que o Sindicato oferece dá um sentimento de pertença. Nós sentimos que há esperança para evoluir para quando a oportunidade chegar estarmos bem.”
Chloe Gorman concorda, afirmando que o Sindicato “ajuda a estar pronta e a treinar regularmente. Tenho mais apoio e visibilidade.” Ambas as jogadoras reconhecem, então, que o estágio é uma iniciativa valiosa para aquelas que enfrentam um período de incerteza na carreira.
O panorama das colegas e a visão de Júlia sobre o brasil
Embora Júlia Becker não conhecesse nenhuma das colegas no estágio, Chloe Gorman já tinha contacto com algumas por ter jogado em Portugal, e sabe que “muitas delas já têm clube para a nova temporada.” Esta realidade contrasta com a situação de Júlia e Chloe, as únicas estrangeiras no estágio e ainda sem contrato.

Júlia Becker explica a sua relutância em regressar ao Brasil, focando-se na qualidade de vida que a Europa oferece. “É mais a questão da qualidade de vida. A Europa oferece uma qualidade de vida melhor que o Brasil”, afirmou. Ela distingue a sua situação da das grandes jogadoras brasileiras que vêm para a Europa já com uma estrutura e salários elevados: “Quando elas vêm, já têm uma estrutura melhor, um bom salário. Vêm para ser apenas jogadoras. Vêm como profissionais.”
Para Júlia, e para muitas outras jogadoras de escalões mais baixos, a saída do Brasil para mercados secundários na Europa é uma questão de sobrevivência e procura por melhores condições, mesmo que não seja o topo do futebol mundial: “As jogadoras, que eu conheço, e que saem dos escalões mais baixos do Brasil e vão para outros países acabam sempre em mercados secundários, como na Geórgia, Lituânia ou Roménia, como meio de sobrevivência.”

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