
Nas pistas aprendi que cada centésimo de segundo conta, que cada passo tem um propósito e que o fim de uma corrida não é apenas a meta, mas também o caminho que nos trouxe até ela. É por isto que costumo dizer que o atletismo é uma das modalidades mais completas, por tudo o que proporciona, pois entre a extrema concentração permite-nos também momentos de reflexão e contemplação. Ao mesmo tempo que estamos em competição, conseguimos ter espaço para abraçar a coragem que muitas vezes é precisa para não desistir.
Ao longo da minha vida, como atleta e depois como empresário, cruzei-me muitas vezes com exemplos vivos de esforço e dedicação, sacrifício e coragem. Sobretudo em África, um continente que me diz muito, ou não tivesse a minha família raízes africanas. Um desses exemplos chama-se Artur Santiago.
Conheci o Artur em Luanda. Um atleta de uma dedicação extraordinária, corredor de fundo e meio-fundo e, acima de tudo, um ser humano com um coração do tamanho do mundo.
O Artur Santiago nasceu na aldeia de Ngando, em Angola. Começou a correr descalço, muitas vezes cortava a meta com os pés em sangue. Atualmente trabalha como bombeiro em Portugal, mas não esquece as suas raízes e criou uma escola de atletismo. Onde antes as crianças corriam descalças, hoje há sapatilhas, um gerador elétrico e também uma televisão, a primeira da aldeia. Onde antes havia abandono, hoje há campeões nacionais juvenis — fruto de um projeto de amor, disciplina e visão. Agora está empenhado em recolher fundos para construir uma escola e evitar que as crianças locais façam todos os dias mais de 20 quilómetros para ir estudar.
O que Artur faz é aquilo que o desporto nos ensinou: não desistir. E mais ainda — devolver. O desporto não forma apenas atletas; forma seres humanos com horizontes. Mostra que é possível construir futuro onde só havia sobrevivência. Obrigado por mais essa lição, Artur.
Como alguém que vive o atletismo de corpo e alma, e como homem com ligações profundas a África, não posso deixar de ficar consternado quando leio notícias como aquela que na última semana nos chocou: 22 jovens atletas perderam a vida na Nigéria quando o autocarro onde seguiam caiu de uma ponte, ao regressarem do Festival Nacional de Desporto. Partiam cheios de sonhos. Voltaram em silêncio. Notícias destas, infelizmente, acontecem com demasiada frequência num continente onde o desporto representa uma via de esperança, de mobilidade social e de dignidade.






